O procurador-geral de Rhode Island, Peter F. Neronha, divulgou dia 4 de março um relatório abrangente que detalha décadas de abuso sexual infantil e encobrimento sistémico dentro da Diocese Católica Romana de Providence, identificando 72 membros do clero como “credivelmente acusados” de má conduta.
O relatório é o culminar de uma investigação de longa duração, resultante de um acordo de 2019 entre o principal procurador do estado de Rhode Island e o ex-bispo Thomas Tobin. O acordo concedeu aos investigadores estaduais um acesso sem precedentes aos “arquivos secretos” da igreja, aos ficheiros de pessoal e aos registos internos que datam de 1950.
A principal tática diocesana de resolver os problemas era a “transferência de padres”, em que os padres acusados eram transferidos para novas paróquias e os registos mostram que 21 padres foram transferidos pelo menos cinco vezes durante as suas carreiras.
O reverendo Joseph McCra, por exemplo, foi transferido nove vezes entre 1951 e 1964, enquanto as autoridades recebiam relatos do seu “comportamento impróprio para um sacerdote”.
O relatório constatou ainda que a diocese utilizou retiros espirituais e centros de tratamento fora do estado como um “pretexto cínico” para reintegrar os padres abusadores no ministério e pelo menos 21 padres foram enviados para tais instalações.
“Gerações de vítimas de Rhode Island, as suas famílias e outras pessoas que sofreram os impactos deste trauma merecem saber a verdade sobre o que aconteceu”, escreveu Neronha no relatório, descrevendo o abuso como uma “história sórdida e vergonhosa” que se estende por décadas em comunidades de todo o estado.
A investigação não produziu provas de qualquer má conduta sexual infantil recente por parte do clero, e o mais recente incidente de má conduta conhecido na diocese ocorreu em 2011, segundo o relatório.
No entanto, Neronha afirmou que a investigação levou os procuradores do Estado a apresentar acusações criminais contra quatro padres, atuais e antigos, por suspeita de abuso sexual de crianças enquanto trabalhavam na diocese.
Os padres John Petrocelli, James Silva e Kevin Fisette foram acusados durante a investigação e aguardam julgamento. O quarto clérigo, o padre Edward Kelley, foi considerado incapaz de ser julgado e morreu no hospital psiquiátrico estadual em 2022, segundo o relatório.
O Procurador-Geral Peter F. Neronha anunciou que o Grande Júri do Estado apresentou uma acusação de 11 crimes contra um ex-padre da Diocese Católica Romana de Providence por abuso sexual de uma vítima do sexo masculino com menos de 14 anos entre 1989 e 1990, após uma investigação conduzida pelo Gabinete do Procurador-Geral e pela Polícia do Estado de Rhode Island.
A 3 de novembro de 2021, o Grande Júri do Estado apresentou uma acusação secreta contra James Silva (81 anos) por dois crimes de abuso sexual de crianças de primeiro grau e nove crimes de abuso sexual de crianças de segundo grau quando desempenhava as funções de diretor interino do Gabinete de Formação Ministerial da Diocese de Providence, de 1986 a 1991.
A fiança de Silva foi fixada em $50.000 e recebeu uma pena suspensa de sete anos com liberdade condicional.
Silva foi laicizado da igreja e afastado em 1993. Entretanto, dois homens apresentaram uma ação judicial em 1994 e outros sete homens apresentaram ações civis alegando terem sido abusados sexualmente por Silva quando eram crianças, entre as décadas de 1960 e 1980. Foram também apresentadas acusações criminais em 1994. Oito processos foram resolvidos pela diocese como parte de um acordo coletivo de 13,5 milhões de dólares em setembro de 2002.
Outros dois padres de apelido português aparecem na lista de Neronha, Luis Diogo e Joseph Rocha.
O padre Joseph J. Rocha foi ordenado em 1966 para a Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Passou por paróquias em Washington, Massachusetts e Rhode Island, e a dada altura deixou o sacerdório.
Em 2001, Rocha declarou-se culpado de agressão sexual em 1999 a um homem de 21 anos com deficiência mental de quem era cuidador. Foi também acusado de abusar sexualmente de um menor quando estava colocado em Dover, MA, num processo resolvido em dezembro de 2015.
Nascido em 1920, na Bretanha, em São Miguel, Luís Diogo foi ordenado sacerdote em 1946 na Catedral de Angra e foi secretário no Seminário de Angra até 1954, quando veio para os Estados Unidos e se tornou pároco assistente na Paróquia Jesus Salvador em Newport. Passou depois pelas paróquias de Santo António, em West Warwick; São Francisco Xavier, em East Providence; Nossa Senhora do Rosário em Providence e Santa Isabel, em Bristol, onde foi nomeado pároco e serviu até à sua aposentação em 1993.
No fim da sua carreira foi acusado por uma prima de ter abusado sexualmente dela nas décadas de 1950 e 1960, quando ela tinha cinco anos, e de uma irmã, e os abusos prolongaram-se até à adolescência. A diocese de Providence considerou o testemunho da mulher credível. O padre Diogo não foi acusado criminalmente, mas a diocese informou-o de que não podia celebrar missas nem exercer o sacerdócio. Luís Diogo faleceu aos 94 anos, em abril de 2015, na sua casa em Pawtucket.






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