Lajes do Pico quer candidatar bote baleeiro a património da UNESCO em 2027

by | Feb 11, 2026 | Cultura, Outras Notícias, Outros

 

 

Lajes do Pico, Açores, 11 fev 2026 (Lusa) – A Câmara Municipal das Lajes do Pico quer candidatar o bote baleeiro a património da UNESCO em 2027, após o reconhecimento da atividade baleeira como Património Imaterial Português, para proteger “aquilo que tanto orgulha” a identidade açoriana.

“A primeira candidatura foi entregue no dia 21 de junho do ano de 2025 ao Património [Cultural] Imaterial Português. Ela está em fase de análise, só após ser aprovada é que será entregue a candidatura à UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura)”, disse hoje à agência Lusa a presidente da Câmara Municipal das Lajes do Pico, Ana Brum (PS).

A autarca adiantou que o município está “em fase de contratação pública da empresa que entregou a candidatura do barco moliceiro” de Aveiro para fazer também a candidatura da arte da carpintaria naval da região açoriana, traduzida nos barcos baleeiros, admitindo que os responsáveis “gostavam que ela fosse entregue a março de 2027, no máximo [até] março de 2028, para depois, então, poder ser avaliada pela UNESCO”.

“É fundamental estarmos todos juntos nesta candidatura, sobretudo porque, se tudo correr bem, será a primeira candidatura à UNESCO do património imaterial açoriano”, disse.

Ana Brum falava hoje à Lusa a propósito de a autarquia ter assinado, na terça-feira, um contrato com o mestre João Tavares, de 80 anos, o mais antigo construtor de botes baleeiros açorianos, para reconstrução do “Maria Regina”, com a matrícula H-53-EST.

O bote que vai ser reconstruído era o único do Clube Náutico das Lajes e da Câmara Municipal das Lajes do Pico que ainda não tinha sido reabilitado.

Como só existem dois construtores de botes baleeiros na região, a autarquia está em “contrarrelógio para não se perder” a identidade naval associada à cultura baleeira.

“A verdade é que agora quisemos reabilitá-lo como o último que se utilizava aqui nas Lajes e que não estava em condições, para que todos os botes que estavam em utilização pelo clube possam estar em condições e possamos mostrar orgulhosamente aquilo que tanto nos caracteriza”, justificou.

A autarca socialista vincou que a reconstrução do barco, que vai custar cerca de 58 mil euros, é importante por ser um elemento que está associado à entrega, no ano passado, da candidatura da atividade baleeira ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

A iniciativa reforça o compromisso do município “na valorização do património cultural e identitário das Lajes do Pico, garantindo que as futuras gerações possam conhecer e apreciar a riqueza histórica e artesanal dos botes baleeiros”.

“E a verdade é que, no Pico, apenas existem dois construtores navais de botes baleeiros e este conhecimento está a perder-se. E é por isso que essa candidatura é muito urgente, porque tem um plano de salvaguarda a 10 anos e nesse plano de salvaguarda temos vários projetos, nomeadamente este, que é a reconstrução de uma matrícula [um barco que foi utilizado na pesca da baleia] que estava completamente apodrecida”, explicou.

No âmbito do plano também está em vigor um projeto escolar, que permite que os alunos, através da disciplina de educação física, tenham aulas de vela e de remo em bote baleeiro.

Foram, ainda, publicados livros sobre a construção naval e como se iniciou o bote baleeiro açoriano, realizadas exposições e aplicado um projeto dirigido a jornalistas internacionais que se deslocam à ilha do Pico e escrevem artigos para revistas e jornais sobre o barco.

O município também reabilitou a fábrica da baleia e a Casa dos Botes, onde criou a Sala do Bote, e tem atribuído apoios a todos os clubes náuticos no âmbito do património baleeiro.

“E, portanto, é este plano todo que queremos, depois de aprovado no Património Imaterial Português, [que o bote baleeiro açoriano] possa ser candidatado ao património da UNESCO”, apontou.

Ana Brum lembrou que o barco moliceiro de Aveiro foi inscrito este ano na lista de património imaterial em necessidade de salvaguarda urgente da UNESCO, “porque tinha apenas seis construtores”, quando nos Açores já só existem dois construtores de botes baleeiros.

“É esta a nossa salvaguarda e a nossa corrida contra o tempo de proteger aquilo que tanto orgulha a nossa identidade como açorianos e, sobretudo, a vila baleeira”, concluiu.

A caça da baleia no arquipélago dos Açores terminou em 1984.

A captura processava-se com base em barcos de boca aberta e em métodos artesanais, com recurso a um arpão, sendo posteriormente os cetáceos desmanchados nas unidades industriais que existiam nas várias ilhas do arquipélago.

 

 

 

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