Judeus que lutaram pela independência dos EUA

by | May 20, 2026 | Expressamendes

 

Quando da proclamação da independência dos Estados Unidos, a população das 13 colónias britânicas na América do Norte rondava de 2,5 a 2,8 milhões de habitantes, uma vez que os 500.000 escravos negros e os mais de 20 milhões de índios nativos não contavam.

Os ingleses tinham começado a chegar em 1607 e iniciaram a colonização fundando Jamestown, na Virginia. Seguiu-se Plymouth (Massachusetts), fundada em 1620 pelos Puritanos que navegaram no Mayflower, mas os espanhóis tinham chegado muito antes à Flórida e, em 1576, fundaram Saint Augustine, o primeiro povoado norte-americano de brancos. A Flórida foi colonizada pelos espanhóis até 1819, quando foi comprada e anexada pelos Estados Unidos. e tornou-se o 27º estado americano em 1845.

Entretanto, aos colonos ingleses foram-se juntando irlandeses e nove signatários da Declaração da Independência de 1776 eram imigrantes irlandeses. A partir de 1670 começaram também a chegar alemães, que se fixaram na Pennsylvania, New York, Virginia, Savannah e Georgia, e que em 1776 eram mais de 300.000,10% da população do novo país.

Claro, embora em menor número, havia também portugueses. Em 1750, os navios baleeiros americanos tinham começado a escalar as ilhas dos Açores (Faial, Pico, Flores, Corvo, Terceira e São Miguel) para se abastecerem e engajar pessoal, uma vez que os açorianos eram experientes baleeiros. Alguns desses açorianos fixaram-se na cidade de New Bedford, onde a rua onde residiam ganhou o nome de Fayal Street, e nas ilhas de Martha’s Vineyard e Nantucket, e terão sido estas as primeiras comunidades portuguesas nos Estados Unidos.

Os navios baleeiros americanos começaram a navegar mais para sul, acabaram por chegar às ilhas então portuguesas de Cabo Verde (São Nicolau, Sal, Praia) e os cabo-verdianos, também excelentes baleeiros, juntaram-se aos açorianos na América. Em 1840, mais de 40% dos pescadores de baleia de Nantucket eram cabo-verdianos.

Não se sabe quantos portugueses viviam nos Estados Unidos em 1776, mas o primeiro recenseamento populacional do novo país deu conta de 3,9 milhões de habitantes em 1790 e, no tocante a lusodescendentes, não podemos deixar de lembrar a existência de cerca de 2.500 judeus sefarditas, muitos deles portugueses.

A palavra sefardita designa judeus ibéricos e tem origem na denominação hebraica da Península Ibérica (Sefarad), onde os judeus chegaram no século 5 antes de Cristo, ainda não havia portugueses e nem espanhóis.

O retângulo atlântico que é hoje Portugal é terra de belas praias e mares ricos em peixe onde se foram radicando Fenícios, Gregos, Cartagineses, Íberos, Celtas, Suevos, Visigodos, Romanos, Árabes e Berberes, e a mistura de tudo isto daria os Portugueses, aos quais se juntaram os Judeus e todos se entendiam.

Na verdade, os judeus só começaram a ter problemas em 1231, quando o Papa Gregório IX se lembrou de criar a Inquisição ou Tribunal do Santo Ofício, para julgar crenças ou práticas contrárias aos dogmas católicos.

Em Espanha, em 1492, os reis Isabel de Castela e Fernando de Aragão levaram a Inquisição tão a sério que mataram cinco mil judeus e expulsaram os que não se convertessem ao Catolicismo.

Em 1496, D. Manuel I de Portugal seguiu o exemplo dos monarcas espanhóis que eram seus sogros e ainda por cima duas vezes, casou primeiro com Isabel de Aragão em 1497 e, após a morte desta, casou com a irmã, Maria de Aragão em 1500, e os sogros impuseram como condição a expulsão dos judeus e mouros de Portugal.

Milhares de judeus foram batizados à pressa e assim surgiram os chamados cristãos-novos ou marranos, mas em períodos de crise os judeus eram o bode expiatório e ficou para a história a decisão de doutos sábios da Universidade de Coimbra, que ordenaram a realização de um grande auto de fé em que foram levados à fogueira vários judeus para evitar um novo terramoto como o de 1755, que arrazou Lisboa.

Não admira portanto que muitos judeus ibéricos tenham fugido para países mediterrânicos, norte de África e diversas regiões dos Balcãs e Países Baixos. Em 1630, a Holanda conquistou a região de Pernambuco, no Brasil, e para onde emigraram vários sefarditas que falavam português.

Mas em 1654 os portugueses (com ajuda dos ingleses) reconquistaram Pernambuco e 23 sefarditas foram parar à colónia holandesa de Nova Amsterdão (atual New York) e formaram a primeira comunidade judaica na América do Norte, onde a atual Wall Street era então a Rua dos Judeus.

Esses 23 pioneiros contribuiram para que New York se convertesse numa grande cidade e chamaram familiares e amigos que constituiram importantes comunidades judaicas em Newport, Filadélfia, Charleston e Savannah.

Em 1776, a comunidade judaica americana era estimada em 2.500 pessoas, mas, apesar de poucos, os judeus desempenharam um papel ativo na Guerra da Independência, alguns foram oficiais de alta patente com funções de inteligência e outros distinguiram-se no financiamento da Revolução Americana como foi o caso de Haym Salomon, sefardita que foi um dos principais financiadores do Congresso Continental.

Nascido em Lesno, na Polónia, em 1740, Salomon imigrou em 1772 para New York, tornou-se um próspero corretor e trabalhou com Robert Morris, ministro das Finanças do primeiro governo dos Estados Unidos, na angariação de fundos que permitiram a George Washington manter o Exército Patriota, conforme detalhado no American Battlefield Trust.

Outro famoso nome da revolução foi David Nunes Cardozo, nascido em New York, em 1752 e que vivia em Charleston, Carolina do Sul, em 1775. Alistou-se nos Granadeiros da Carolina do Sul e enfrentou os ingleses no ataque a Savannah em que foi morto o famoso conde polaco Kazimierz Pulaski.

Outro que se distinguiu no cerco de Charleston foi Benjamin Israel Nones (Nunes), judeu de ascendência portuguesa nascido em França, em 1757. Tinha o posto de major, serviu sob as ordens de Washington, Pulaski, DeKalb e Lafayette, e depois da guerra foi eleito para o Congresso.

Rhode Island foi a colónia que atraiu mais judeus portugueses, uma vez que o fundador da colónia, Roger Williams, garantia liberdade de religião. Em 1774 havia 121 famílias judias portuguesas na cidade de Newport, constituindo a comunidade judaica mais rica da futura nação. Um desses ricaços era Aarão Lopes, nascido em 1731, em Lisboa, onde era conhecido como Duarte Lopes.

Aarão Lopes foi o maior armador norte-americano do seu tempo. Era dono de 30 navios transatlânticos e 100 embarcações costeiras, que foram mobilizadas para abastecer os exércitos de Washington, mas os ingleses bombardearam Newport e destruiram a frota. Lopes retirou-se então para Leicester, MA, onde morreu afogado em 1782, quando atravessava um rio na sua charrete. Dedicou a vida ao mar, mas esqueceu-se de aprender a nadar.

Uma famosa família portuguesa dessa época foram os Mendes Seixas, chegados em 1730. Gershom Mendes Seixas foi o primeiro rabino dos Estados Unidos e um dos três representantes do clero na posse do presidente George Washington em 1787, em New York e brindada com um cálice de vinho da Madeira, tal como a declaração da Independência, acrescente-se.

Gershom Mendes Seixas e o seu irmão Moisés Mendes Seixas foram ambos cantores na sinagoga de New York e, quando os britânicos conquistaram a cidade, Gershom fugiu com uma Torá da Shearith Israel para Connecticut e Moisés foi para Newport. Em 1790, 14 anos depois da independência, Moisés escreveu uma carta ao presidente George Washington, questionando se a nova nação iria alargar as liberdades religiosas aos judeus. A resposta de Washington é celebre, prometendo não dar “nenhuma sanção ao fanatismo, nem assistência à perseguição”.

Entre os principais patriotas judeus da Revolução Americana temos Francisco Salvador ou Francis Salvador, proeminente revolucionário norte-americano de origem portuguesa, oriundo de uma família de Tomar que imigrara para Londres devido à Inquisição.

Francis nasceu em 1747 em Londres e o bisavô era governador da Companhia Inglesa das Índias Orientais e presidente da comunidade judaica sefardita de língua portuguesa de Londres. Após a ruína da família devido ao terramoto de 1755 em Lisboa, onde tinham avultados investimentos, Salvador emigrou para a única possessão significativa que ainda lhe pertencia, uma propriedade na então colónia inglesa da Carolina do Sul, onde se envolveu na independência e foi eleito para o primeiro e segundo Congresso Provincial (pró-independentistas) em 1775. Foi o primeiro judeu e o primeiro luso-descendente a servir numa assembleia colonial, ou em qualquer outro cargo político do que viria a tornar-se os Estados Unidos.

Em 1776 a guerra começou na Carolina do Sul com uma insurreição dos índios Cherokees armados pelos ingleses. Salvador dá-se conta da situação e deu o alarme aos colonos numa cavalgada de 50 quilómetros que o tornou conhecido como o “Paul Revere do Sul”, mas veio a morrer em combate com os índios, tornando-se no primeiro a morrer pela independência americana, aos 29 anos.

Outra família judaica que ficou na história da Revolução Americana foram os irmãos Jacob, Solomon e Abraham Pinto, de New Haven, Connecticut e, segundo consta, os primeiros judeus que frequentaram a Universidade de Yale.

Eram filhos de Jacob Pinto, um dos primeiros judeus a fixar-se em New Haven e que casou em 1756 com Thankful Peck Pinto, filha de um oficial do exército colonial inglês, o capitão James Peck. Apesar de terem um avô inglês, os irmãos Pinto pegaram em armas contra os britânicos e foram feridos em combate.

Contudo, terá sido William Pinto que teve a missão mais difícil. Jonathan Trumbull, o único governador colonial a tomar o partido dos colonos, tornando-se assim o último governador da colónia de Connecticut e o primeiro governador do estado de Connecticut, sabedor de que William Pinto tinha caligrafia bonita, obrigava-o a escrever dezenas de cópias da Declaração da Independência que ele depois oferecia a quem entendia e o pobre Pinto teve problemas para se ver livre da incumbência.

 

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