João Felgueiras – um jesuíta minhoto há meio século em Timor-Leste

by | Oct 8, 2025 | A Descoberta

“Padre João Felgueiras: 104 anos de vida; 75 de sacerdote e 54 em Timor-Leste. Um homem cheio de bondade, dedicação a uma causa e amor ao próximo. Conversámos um pouco, partilhou memórias da sua vida e falou-me da sua terra natal”, escreveu agora no Facebook o embaixador Duarte Bué Alves, recém-chegado a Díli. O sacerdote nasceu 9 de junho de 1921 em Caldas das Taipas, a tal terra natal sobre a qual partilhou memórias da juventude com o diplomata. É uma freguesia de Guimarães, cidade onde fez o seminário.

Admitido na Companhia de Jesus, o minhoto foi ordenado padre com 29 anos. Chegou a Timor-Leste com 50 anos, em 1971, para ser vice-reitor do seminário de Díli. Assistiu à primeira proclamação de independência, já depois do 25 de Abril em Portugal, e à chegada das tropas indonésias. Receando que a antiga colónia portuguesa se transformasse num país comunista, a Indonésia decidiu anexar essa metade da ilha. Vivia-se a era da Guerra Fria.

O padre Felgueiras manteve-se em Timor mesmo durante a ocupação. No externato São José, continuou a ensinar a língua portuguesa, até que os militares indonésios fecharam as portas daquela escola. Foram tempos terríveis, com muita repressão, pois os timorenses, fervorosos católicos, recusavam ser parte do mais populoso país muçulmano do mundo. Até que em 1999, fruto da resistência timorense e do apoio diplomático de Portugal, se realizou o referendo organizado pelas Nações Unidas que trouxe a independência, de novo proclamada em 2002. O jesuíta, então já com 81 anos, via assim finalmente nascer um novo Timor-Leste, país que a par do tétum, idioma local, escolheu o português como língua oficial.

Condecorado por Portugal e por Timor-Leste, o padre Felgueiras testemunhou como a sua pátria adotiva se reconstruiu nestas duas últimas décadas. País fortemente católico (e a Igreja foi decisiva na resistência à ocupação indonésia), Timor-Leste recebeu em 2024 a visita de Francisco. E o papa argentino, ele próprio um jesuíta, fez questão de se encontrar em Díli com os membros da Companhia de Jesus, e entre eles estava João Felgueiras, que foi logo abraçado por Francisco. “A este religioso português que vive em Timor-Leste desde a ocupação indonésia e que nunca abandonou o país e o seu povo, nem sequer nos momentos mais difíceis, o papa quis prestar uma homenagem pública”, escreveu então o ‘L’osservatore Romano’, jornal oficial do Vaticano.

 

Leonídio Paulo Ferreira, Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’.

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