O jornalista, empresário e ex-primeiro-ministro de Portugal Francisco Pinto Balsemão, 88 anos, falecido a 21 de outubro em Lisboa e cuja morte foi notícia do New York Times e do Washington Post nos EUA.
Balsemão foi uma das personalidades mais marcantes da história contemporânea de Portugal e não posso por isso deixar de recordar a única vez que conversei com ele há 55 anos, em Angola. Foi em 1970, na cidade do Uige, então chamada Carmona, eu era chefe dos serviços de produção do Rádio Clube do Uige e Balsemão fez parte de um grupo de deputados portugueses de visita à região.
Recorde-se que Balsemão, que nasceu em Lisboa a 1 de setembro de 1937, era filho do empresário Henrique Patrício Pinto de Balsemão e de Maria Adelaide Van Zeller Castro Pereira, descendente do rei D. Pedro IV, que reinou como rei de Portugal por um curto período antes de abdicar em favor da filha, D. Maria II, para liderar a independência do Brasil em 1822 como primeiro imperador do Brasil.
Menino rico do aristocrático bairro lisboeta da Lapa, Francisco Pinto Balsemão agitou a elite social portuguesa dos anos 60 ganhando fama de playboy. Do lado paterno vinha-lhe o dinheiro da indústria de lanifícios e de produtos químicos. Da parte da mãe, o sangue da linhagem de D. Pedro IV que talvez tenha dado origem à sua famosa amizade com Juan Carlos, ao tempo futuro rei de Espanha. Em 1946, a família real espanhola escolheu o Estoril para viver o exílio em Portugal, tinha Juan Carlos oito anos. Balsemão era quatro meses mais velho e, pelo facto de ambos pertencerem ao mesmo círculo social, acabaram por desenvolver uma forte amizade que ficou para a vida.
Licenciou-se em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e, ao mesmo tempo que exercia a atividade de advogado, iniciou a carreira de jornalista no vespertino lisboeta Diário Popular, mas em condições especialíssimas uma vez que o jornal detido maioritariamente pelo seu tio, Francisco Balsemão, o pai e ele próprio eram também acionistas. Balsemão começou por secretário da direção (de 1963 a 1965) e foi depois administrador da empresa (1965 a 1971).
Em paralelo, Pinto Balsemão entrou no cenário político português em 1969, tornando-se deputado independente pelo círculo da Guarda e aderiu à Ala Liberal, um grupo de 19 deputados que pediam reformas na linha-dura do regime estadonovista e se atreviam a criticar a orientação política nacional, em particular a continuidade da guerra colonial. Da Ala Liberal faziam, entre outros, parte José Pedro Pinto Leite (líder informal do grupo), Francisco Sá Carneiro, João Pedro Miller Guerra, Francisco Balsemão, Joaquim Magalhães Mota, João Bosco Mota Amaral e Manuel Joaquim Montanha Pinto. Em fevereiro de 1970, em plenas férias parlamentares, dois grupos de deputados da Ala Liberal foram de visita à Guiné Bissau e a Angola para verificar a evolução da guerra.
Do grupo que se deslocou a Bissau faziam parte José Pedro Pinto Leite, James Pinto Bull, Leonardo Coimbra e José Vicente Abreu. O grupo que se deslocou a Angola era formado por Francisco Sá Carneiro, Francisco Balsemão, Mota Amaral e Manuel Montanha Pinto, que tinha sido presidente da Câmara de Carmona. No Uige, os deputados visitaram a região acompanhados pelo tenente-coronel Garcez de Lencastre, antigo comandante da unidade militar de Carmona, o BC 12, que tinha sido nomeado governador distrital em 1966, quando o antecessor, coronel Camilo Rebocho Vaz, foi nomeado governador geral de Angola.
Lembre-se que foi no Uige, a 15 de março de 1961, que o movimento União dos Povos de Angola (UPA) lançou ataques de guerrilha que marcaram o início da luta armada contra domínio colonial português. Os ataques a pequenas povoações e fazendas de café não pouparam mulheres nem crianças, e morreram cerca de 1.000 portugueses.
Em 1970 a vida já tinha sido normalizada na maior parte da região, embora não estivesse pacificada e de quando em quando acontecessem ataques a fazendas ou viaturas em zonas mais isoladas.
Foi isso que constataram os deputados visitantes tendo como cicerone o colega deles, Manuel Montanha Pinto, que foi deputado por Angola e com quem privei alguns anos. Natural de Bragança, Montanha Pinto era regente agrícola e foi chefiar a delegação dos serviços agrícolas estaduais em Carmona. Integrou-se e tornou-se sócio gerente de uma grande fazenda de café, a fazenda Alto Minho, na estrada entre Carmona e o Negage. Foi também administrador da Hidroelétrica do Uige, que abastecia Carmona (quando havia trovoada ficávamos sem eletricidade e telefonávamos a Montanha Pinto a reclamar). Por fim, foi presidente da câmara municipal de Carmona de 1951 a 1957 e de 1964 a 1974, quando se tornou deputado. Os fazendeiros de Carmona acolheram os deputados visitantes com uma grande churrascada (um bezerro inteirinho) realizada na fazenda de café Pumba Loge, nos socalcos da serra Ambuíla, na estrada entre Carmona e o Quitexe.
A comunicação social local, o Rádio Clube do Uige representado por este vosso criado e o Jornal do Congo representado pelo Luís Rodrigues, tiveram então oportunidade de contatar os visitantes e Sá Carneiro fez questão de nos oferecer cópias de discursos proferidos no parlamento por elementos da Ala Liberal. A churrascada esteve animada, mas acabou abruptamente quando chegou a notícia de que a viagem tinha corrido mal na Guiné, os quatro deputados tinham morrido na queda de um helicóptero da Força Aérea Portuguesa num trajeto de Bissau para Teixeira Pinto, hoje Canchungo.
O acidente deu-se dia 25 de julho quando uma formação de três helis foi, aparentemente, apanhada por uma tempestade tropical sobre o rio Mansoa, dois aparelhos conseguiram aterrar, mas o que transportava os deputados caiu no rio não havendo qualquer sobrevivente. O acidente nunca ficou esclarecido, até porque nunca existiu uma investigação oficial ao sucedido apesar de envolver a morte de quatro parlamentares. Mas é curioso que, assim que a notícia do acidente foi conhecida, os quatro deputados que visitavam Angola deixaram o Pumba Loge e regressaram a Luanda com segurança militar reforçada talvez temendo-se que pudessem ser alvo de algum atentado. A questão levanta-se porque os deputados representavam uma ala reformista que estava a criticar a orientação política nacional, em particular a continuidade da guerra colonial.
Com a morte de Pinto Leite, Sá Carneiro assumiu a liderança da ala reformista, embora os deputados Pinto Balsemão, Mota Amaral, Miller Guerra e Magalhães Mota, também se pronunciassem, ocasionalmente, contra o rumo que o país estava a levar.
Em 1973, ainda durante a ditadura, Pinto Balsemão decide investir parte do dinheiro que arrecadara com a venda da sua quota na sociedade proprietária do Diário Popular e fundou o Expresso, um semanário do qual foi o primeiro diretor e que se tornaria um símbolo da liberdade e do rigor jornalístico em Portugal.
Entretanto, veio a Revolução dos Cravos em 1974 e Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão e Joaquim Magalhães Mota fundam o Partido Popular Democrático (PPD) que, em 1976, passou a designar-se Partido Social Democrata (PSD).
Depois do 25 de Abril, Balsemão foi sucessivamente deputado à Assembleia Constituinte, à Assembleia da República, ministro e primeiro-ministro, por duas vezes, de 1981 a 1983.
Como primeiro-ministro, Balsemão fez uma visita oficial aos Estados Unidos em dezembro de 1982, encontrando-se com o presidente Ronald Reagan na Casa Branca. Na altura, Reagan elogiou o progresso democrático de Portugal, enquanto Balsemão enfatizou a importância da comunidade luso-americana e a aliança duradoura entre as duas nações.
“Nós, em Portugal, estamos ansiosos por trabalhar em estreita cooperação com os Estados Unidos e, para esse esforço, contamos muito com a forte comunidade luso-americana que vive e trabalha aqui nos Estados Unidos”, observou Balsemão na altura.
Quanto a Sá Carneiro, foi ministro sem pasta e ministro adjunto do primeiro-ministro Adelino Palma Carlos no I Governo Provisório, que durou 56 dias, sendo o primeiro de uma série de governos provisórios que ocorreram entre 1974 e 1976.
Em finais de 1979, Sá Carneiro criou a Aliança Democrática, coligação entre o PPD/PSD, CDS, PPM e Reformadores que venceu as eleições legislativas desse ano com maioria absoluta e Sá Carneiro torna-se primeiro-ministro do VI Governo, mas um desastre de aviação voltaria a alterar a sua vida.
Sá Carneiro faleceu na noite de 4 de dezembro de 1980, em circunstâncias nunca completamente esclarecidas, quando o avião em que seguia se despenhou em Camarate, pouco depois da descolagem do aeroporto de Lisboa, quando se dirigia ao Porto para participar num comício de apoio ao candidato presidencial da coligação, o general António Soares Carneiro.
Além de Sá Carneiro e da sua companheira Snu Abecassis, morreram o ministro da Defesa Adelino Amaro da Costa e a sua mulher Maria Manuela Pires, o seu chefe de Gabinete, António Patrício Gouveia, e os pilotos Jorge Albuquerque e Alfredo de Sousa. Nesse mesmo dia, Sá Carneiro gravara uma mensagem de tempo de antena onde exortava ao voto no candidato apoiado pela AD, ameaçando mesmo demitir-se caso Soares Carneiro perdesse as eleições, o que viria de facto a suceder três dias mais tarde, sendo assim o general Ramalho Eanes reeleito para o seu segundo mandato presidencial.
Tal como o desastre da Guiné-Bissau, o acidente que vitimou Sá Carneiro também se prestou a especulações, testemunhas afirmaram ter visto pedaços a cair do avião momentos depois de descolar alimentando teorias conspiratórias de que o acidente foi na verdade um assassinato. Um inquérito parlamentar de 1995 concluiu que havia evidências de sabotagem e outro inquérito de 2004 disse que havia evidências de uma bomba na aeronave, mas até hoje nenhuma evidência sólida veio à tona.
Quando Francisco Sá Carneiro se tornou primeiro-ministro, em janeiro de 1980, Pinto Balsemão assumiu as funções de ministro de Estado Adjunto do primeiro-ministro e, após a morte do líder do Governo, assumiu a liderança do executivo entre janeiro de 1981 e junho de 1983, em mandatos marcantes na preparação da adesão de Portugal à CEE, da revisão constitucional de 1982, acordada com o socialista Mário Soares e que remeteu de vez os militares para os quartéis, acabando com o Conselho da Revolução e criando o Tribunal Constitucional.
Em 1987 tornou-se professor associado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, cargo que ocupou até 2002. Durante 15 anos ajudou a formar centenas de jornalistas com a sua cadeira de “A Mutação dos Media nos países desenvolvidos e as suas consequências para Portugal”. Em 1992, de volta à carreira empresarial, Pinto Balsemão fundou a SIC (Sociedade Independente de Comunicação), o primeiro canal de TV privado de Portugal. Nos anos seguintes, a SIC cria vários canais temáticos: SIC Notícias, primeiro canal jornalístico português em 2001, SIC Radical, SIC Mulher, SIC Caras, SIC K e SIC Novelas, além da sua plataforma de streaming Opto.
Tudo tem um fim e atualmente Pinto Balsemão estava a negociar a venda do grupo de media que controla a SIC e o Expresso ao grupo italiano MediaForEurope da família de Silvio Berlusconi, empresário falecido em 2023 e que foi também primeiro-ministro de Itália. Em Portugal, o Governo aprovou dois dias de luto nacional (22 e 23 de outubro) pela morte do antigo primeiro ministro e a família já se ocupa da herança.
Francisco Pinto Balsemão deixa 20 descendentes, entre cinco filhos, 14 netos e um bisneto recém nascido. É pelos seis herdeiros (viúva e filhos) que será distribuída a fortuna avaliada em 40 milhões de euros, no entanto, o valor dos ativos é muito superior e consiste em aplicações financeiras, contas bancárias e imóveis, entre eles a luxuosa mansão na Quinta da Marinha, e, claro, o grupo Impresa, que além do Expresso inclui mais de 30 jornais e revistas, e a rede de televisão SIC com os seus sete canais.
Seja qual for o futuro do império de media da família Balsemão, prevalecem os ideais do seu patriarca:
“Do que fiz na vida, colocaria como fio condutor e como objetivo cimeiro, exercido e conseguido de diversas maneiras, consoante as épocas e as responsabilidades, a luta pela liberdade de expressão em geral e, em especial, pelo direito a informar e a ser informado”, disse um dia Francisco Pinto Balsemão.




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