Sempre que preciso de alguma coisa dos Açores – de uma informação, de um esclarecimento, da confirmação de uma notícia que corre, um dado histórico, uma data, um nome de que já não me lembro, uma peripécia da qual me falham os pormenores – ligo para o meu grande amigo e colega do tempo da escola primária, Francisco Jorge da Silva Ferreira, que, com a simpatia habitual, me responde dando uma informação completa, naquele seu português castiço e, muitas vezes, ilustrada com uma estória ou o pitoresco de uma expressão. Nunca me esquecerei da resposta que me deu quando, em setembro de 2006, lhe telefonei, porque os três canais televisivos generalistas do Continente enchiam horas de emissão a falar da tempestade tropical “Gordon” que iria passar pelos Açores, prevendo, em tom dramático, “o fim do mundo”. Perante a antevisão de tragédias ou notícias de escândalos nos Açores, recorro habitualmente a três amigos que vivem na Região. Em setembro de 2006, a primeira chamada foi para a Praia da Vitória, para o Francisco. Ao ouvir a minha voz, disse-me que estava na muralha, junto à casa que tinha sido dos meus pais. Quando lhe perguntei pela tempestade, respondeu-me, naquele seu falar descansado: “estou aqui a olhar para o mar, que está como azeite e não ronca; o céu está azul, as vacas não berram e os ratos não fogem das paredes; mas está previsto temporal. A Proteção Civil já avisou.”
Como disse, fomos colegas na escola primária, embora não frequentássemos o mesmo ano; porque sou mais velho, ia um pouco à frente. Tínhamos um outro ponto de encontro: a Filarmónica. Como o pai do Francisco e os meus irmãos mais velhos eram músicos, frequentávamos a sala de ensaio da sociedade.
Terminada a primária, fui para o Seminário Padre Damião e passava as férias na Praia da Vitória. O Francisco, por sua vez, como era muito comum naquela época, foi iniciar a sua atividade profissional e cedo foi trabalhar para a “Luminosa Praiense” que, comprada por uma empresa de Angra, passou a chamar-se “Iluminante Terceirense”, onde permaneceu até à reforma, em 2002. Os nossos contactos, depois da minha ida para o seminário, foram poucos e, com a minha vinda para o Continente, em 1964, cessaram.
Passaram-se anos e a minha vida deu muitas voltas, até que, em 1970, vim viver para Braga, a fim de estudar na Faculdade de Filosofia da Católica. A partir dessa data, os jovens praienses que vinham à cidade dos Arcebispos procuravam-me. Foi por esta via que recuperei a relação com o Francisco Jorge da Silva Ferreira. O primeiro praiense que me visitou foi o Dr. Eduardo Ferraz da Rosa. No primeiro serão dele em minha casa, corremos a Praia da Vitória rua a rua, e lá apareceu o nome do Francisco, identificado como “o Chico da Iluminante”, para o distinguir dos outros Chicos. Pelas estórias contadas pelos praienses que me visitavam, comecei a perceber que o meu amigo de escola primária se tinha transformado, com o andar do tempo, numa espécie de centro de dinamização à volta do qual as coisas iam acontecendo na Praia da Vitória. Pouco a pouco, através dessas conversas com esses jovens, fui vendo que a atividade do Francisco se tinha alargado para lá da profissional e que na loja se reunia uma tertúlia de que era membro bem ativo. Com o andar do tempo, voltámos a reestabelecer contacto e fui acompanhando de longe o percurso do Francisco. Até que em março de 2004, o Dr. Rui Bettencourt, da Clínica Médica da Praia da Vitória, me convidou para participar num colóquio que organizou. Prolonguei a minha estadia na Praia da Vitória por mais dois dias que passei na companhia do já Provedor da Santa Casa a visitar as valências da Instituição. Fiquei surpreendido com o que vi. Do meu tempo de criança, sabia do hospital e da farmácia; em 2004 encontrei um alargar de atividades muito para além disso. Em março de 2010, tive nova oportunidade. Em março desse ano, fui convidado a fazer a conferência que tradicionalmente acontece na cerimónia comemorativa do aniversário da Filarmónica União Praiense, e aproveitei para alargar a minha estadia na Praia por mais dois dias, que passei com o meu amigo Francisco de manhã à noite. Tive, então, oportunidade de ver com calma toda a obra dinamizada por ele e que o livro de Victor Alves, Francisco Jorge da Silva Ferreira. O Provedor da Praia [Praia da Vitória: Santa Casa da Misericórdia da Praia da Vitória, 2025] bem retrata, deixando testemunho escrito para memória futura. A memória dos homens é curta e mais curta é ainda para se lembrar do bem que as pessoas fazem neste mundo. Convém, portanto, que o bem praticado fique relatado por escrito de modo a ficar disponível para ser encontrado por quem se interessa pelo que aconteceu. Quando os factos são relatados em letra de forma, permanecem, e quem quiser procurá-los, encontra-os. Por isso concordo com o autor do Prefácio do livro quando diz que “(e)m boa hora foi vontade da Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia da Praia da Vitória, juntar empenhos e contar a história e as estórias do seu Provedor, há mais de quarenta anos” (p. 9).
Em seis capítulos, Victor Alves conta a vida do sr. Francisco, como dizem muitos dos funcionários e utentes da Misericórdia, quando se referem ao Provedor. As suas origens, a fundação do “Grupo de Amigos da Praia da Vitória”, do Jornal da Praia, dos Bombeiros Voluntários da Praia; a sua ligação ao Lar D. Pedro V e à Filarmónica União Praiense, e a sua profícua ação na Santa Casa cujas valências foram sucessivamente alargadas. Neste capítulo não esqueço o seu modo de pensar e agir quando do encerramento do Lar de Santa Maria Goretti e lhe pediram para ajudar na resolução do problema. Havia que encontrar não apenas o abrigo para um número muito significativo de adolescentes e jovens, mas também criar uma estrutura educativa. Quando lhe perguntavam por quem ia tomar conta de um grupo tão numeroso de gente tão nova, a resposta era sempre a mesma: “A Santa Casa toma conta, a Santa Casa toma”. E tomou. Quem teve o trabalho e as preocupações, como é bem de ver, foi o Provedor.
Quando recebi o email com o convite para assistir à sessão de lançamento do livro, Francisco Jorge da Silva Ferreira. O Provedor da Praia, que teve lugar em janeiro do corrente ano, telefonei-lhe para o felicitar. Notei que estava ansioso e surpreendido. Desabafou: “fizeram tudo isso sem me dizerem nada. Eu não sabia de nada!”, reação compreensível numa pessoa que passou a vida inteira a pensar nos outros e a agir em prol dos que precisam ajuda. Se me tivessem pedido uma sugestão para título da obra, para significar o vasto campo de ação a que se dedicou o biografado, e tendo em atenção a sua fé e prática cristã, proporia: Francisco Jorge da Silva Ferreira: O Bom Samaritano da Praia, título deste texto.





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