Eu grito que desatina
Tudo quanto estou sofrendo,
Mas, meu grito é em surdina
Grito, mas ninguém entende!
Grito sim, num desespero,
Dentro de mim a lutar,
Eu digo tudo o que quero,
Sem ninguém o reclamar!…
Chamo nomes, até feios,
Como se fosse um feitiço,
Meus ódios, meus devaneios,
Nenhum deles dá por isso!…
Depois, penso, penso, penso,
Parece ser um atraso,
O meu sofrer é imenso,
Sofre, mas ninguém faz caso!…
Mas a surdina é meu presto,
Não me impede de gritar
E eu grito, nem faço um gesto,
O gesto pode falar!…
Meu cérebro forma um enredo,
Envolta dum devaneio,
O que sinto, não é medo!
É um termendo receio!…
E este receio me domina,
Minhas maneiras são calmas,
Eu grito, grito em surdina,
Por vezes batendo palmas!
Quando notado, acontece
Ser vigiado a rigor,
Por vezes desaparece
Ou é preso por traidor!…
Se a voz tem de ser ouvida,
Porque nos aponta alguém,
Não temos outra saída
Senão se dizer Amem!…
Este Amem é dito a esmo,
Mas, depois há que pensar,
Pedir perdão a mim mesmo,
E em surdina perdoar!…
Depois, na face um sorriso
Qu’ é do sinismo o herdeiro,
Sempre que ele é preciso,
Para enganar o parceiro!…
Só assim desta maneira
Meus amigos podem crer,
Em surdina e em cegueira
Nós conseguimos viver!…
Tudo que aqui vai escrito,
Há que por muita atenção,
Uns, irão achar bonito,
Mas outros, penso que não…
A vivência nos ensina
Muito, amigos podem crer,
Quem grita e fala em surdina,
Pode dizer o que quer!…





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