CRÓNICA DO ATLÂNTICO
A RTP-Açores faz hoje 50 anos, um feito notável que deve orgulhar os açorianos, pelo que representa nesta caminhada de desenvolvimento autonómico das nossas ilhas no último meio século.
Passado todo este tempo, o serviço público de televisão nos Açores precisa de ser repensado, como já devia ter sido, e desligar-se de um problema que afecta a sua expansão desde a sua nascença: emancipar-se de Lisboa.
Já em 1992, com a chegada da televisão por cabo, o assunto foi amplamente debatido, mas só em 2003 foram efectuados os primeiros estudos para a reestruturação profunda que se esperava.
O Conselho de Administração da RTP contratou a Boston Consulting para efectuar o referido estudo, com os seus especialistas a passarem a pente fino toda a actividade da RTP-Açores durante os vários dias em que aqui se instalaram.
O relatório final é um hino elogioso à “elevada polivalência das funções operativas” dos quadros do canal regional, com “estruturas de suporte limitadas” e recomendando a construção de um novo edifício, com novos estúdios de informação e produção, que incluísse a RDP-Açores e a agência LUSA.
Foram identificados terrenos, contactadas as entidades regionais para colaborarem no projecto e o seu arranque estava já no papel, elaborado por engenheiros e arquitectos da empresa, num investimento que se pagava por si próprio, com a venda dos edifícios da RTP-Açores e RDP-Açores.
Os centralistas de Lisboa não gostaram da ideia e o projecto foi por água abaixo, com a nomeação imediata de alguém que veio com o intuito de reduzir ao mínimo a actividade do canal regional, vender tudo o que era possível vender (até o edifício museológico do antigo Emissor Regional dos Açores não escapou) e “enlatar” a televisão regional no edifício da rádio, onde está hoje, com apenas um estúdio de informação, nenhum para produção e ordens para reduzir pessoal. Tudo com o apoio do Governo Regional de então e de alguns políticos falhados do PSD-Açores.
A emancipação administrativa de Lisboa ficou, assim, mais difícil.
A refundação da RTP-Açores, como propusemos então, continua a passar por uma reconfiguração do financiamento do serviço público na Região e um novo modelo de gestão, mais estúdios para produção de conteúdos regionais, correspondentes a tempo inteiro em todas as ilhas e os meios necessários à produção de conteúdos, mesmo com a colaboração de produtoras externas, que contribuam para uma grelha de programação inteiramente regional, sem “janelas” absurdas, reflectindo a realidade das 9 ilhas e da nossa diáspora.
A missão do canal açoriano passa por um serviço público inteiramente regional, sem a intromissão orçamental de Lisboa, continuando com os apoios obrigatórios do Estado e incluindo uma responsabilidade dos órgãos de governo próprio da Região.
Não se trata de transferir custos, mas de ampliar o conceito de serviço público, num financiamento que passaria pela transferência directa das indemnizações compensatórias do Estado para a gestão do canal regional, mais o correspondente às receitas das taxas do audiovisual, cativadas sempre em Lisboa, e a comparticipação da Região, inscrita no Orçamento Regional. Enquanto não houver vontade política para essa emancipação, vamos continuar “amarrados” na gestão completa do canal, apesar do enorme esforço dos seus trabalhadores e do trabalho de enorme qualidade liderado superiormente pelo seu Director, Rui Goulart.
A RTP-Açores continua a provar, 50 anos depois, que é um dos principais agentes aglutinadores da açorianidade, veículo de conhecimento e factor de união entre a comunidade açoriana.
Como muito bem compreendeu um dos melhores Presidentes da RTP de sempre, o saudoso João Soares Louro, “depois do mar, da religião e da língua, terá sido o meio televisivo aquele que mais contribuiu para a unidade e identidade da região açoriana. A TV dos Açores tem contribuído para transformar a história desta região, constituindo-se num agente da sua redescoberta (se o termo é legítimo) interna e externa, num duplo investimento onde coexistem a diversidade e a unidade, os valores do passado e do futuro”.
Parabéns RTP-Açores e que continue a lutar para que seja uma Televisão cada vez mais… “a nossa Televisão”.
Osvaldo Cabral (Ex-Director da RTP-Açores)





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