As celebrações natalinas contagiam toda gente com sua mística inigualável, despertando sonhos e desejos, embalando a saudade, consolando a tristeza, partilhando a alegria, formulando votos de paz, de amizade e de muito amor. Aí reside toda a magia do Natal que vai do encantamento das crianças à criança que reside dentro de nós e que reaparece na Noite Santa, sob as bênçãos do Deus-Menino. É o momento de sentir este tempo uno, confraternizando com os familiares e amigos. Seria este o verdadeiro espírito do Natal? Fazer o milagre da Noite Santa perdurar dentro de cada um? Fazer que a nossa Estrela Guia brilhar pela vida afora?
Foi o que senti ao mergulhar na leitura de Três Reis e Um Mago, de autoria de Maria Teresinha Debatin, e perceber a luz da palavra bordada em cada página, numa escrita delicada, sábia e humana – daquela humanidade que nos abraça por inteiro e afoga todas as carências afetivas e descrenças do viver diário. As dificuldades do homem e da mulher, “os desertos da vida” de dias escaldantes e noites gélidas, sem um oásis à vista, o refúgio vital, a esperança, a força, o caminho para a paz infinita, para o amor total – simbolizado por Deus, a fonte de tudo.
Maria Teresinha, a escritora, poeta, letrista das boas é a viajante onipresente. É ela que veste o manto da metáfora, a protagonista invisível que segue em frente, apontando caminhos na figura da contadora da história milenar, cuja tradição católica passa de geração em geração e, nós reproduzimos em canções, poemas, autos, loas, orações e reisados… como o canto de Abrição de Porta, do Reisado de São Cristovão, no interior de Sergipe. “Ô de casa/ Ô de fora/ Minha mãe/ Vai ver quem é! / É ‘os cantador’ de Reis/ Quem mandou foi São José.”
Quem nunca se encantou com a aventura dos Reis Magos, Balthazar, Gaspar e Melchior que partiram de terras longínquas do Oriente, atravessaram o deserto seguindo a Estrela Guia para encontrarem o Deus-Menino, o Salvador do mundo, depositando aos pés Divino os seus presentes – ouro, mirra, incenso – a divindade, a fé, o renascimento, a esperança, os sonhos.
Num deambular mítico, a autora traz, ao presente século XXI, a mundividência histórica da própria humanidade – a viagem dos Três Reis Magos à gruta de Belém, guiados pela luz fulgente de uma Estrela Guia, para adorar o Reis dos Reis, o Menino Jesus recém nascido, reconhecendo a sua realeza e divindade na oferta de três presentes de forte simbologia. A cronologia histórica assinala a data provável do nascimento entre os anos 7 e 6 AC, sendo que a nobre visita teria acontecido no 13º dia após o parto de Maria, há dois mil e vinte cinco anos. Juntam-se os conhecimentos de Kabbalah da autora e uma literatura identitária forte que é alimentada n’alma. Eis a assinatura de escritora que, na tessitura do enredo, faz emergir memórias suas e da nossa gente cinzeladas na arqueologia do tema geracional e da trama mística urdida com reverência e sensibilidade de uma esteta. Sim, estamos diante de uma narrativa habilidosa, cativante, sedutora, instigante, ousada, daquelas que prendem a gente desde o primeiro capítulo até o ponto final, deixando a pergunta: “Ué, já acabou?” Adjetivos que evidenciam o pensar intelectual, a invejável memória do muito vivido e construído, a capacidade de fabulação de todos conhecida e comprováveis no dínamo gerador da energia criativa de Maria Teresinha Debatin.
Há em Três Reis e um Mago uma constante reinvenção de personagens, um perquirir meticuloso de cada um e apresentados em diferentes momentos e contextos, configurando um todo harmônico, em sintonia absoluta com a história e a imagística: Balthazar, Melchior, Gaspar, os Reis e Tigor e suas pérolas da caridade, o mago que não conseguiu chegar aos pés do Salvador mas, pelo Menino-Deus foi visitado – são os protagonistas principais, no entorno dos quais gravitam uma multiplicidade de personagens que vão surgindo ao longo da narrativa, sem jamais conflitarem entre si, e alguns são memoráveis: o doce monge Sião, o sábio Gregório, o mestre Jeremias; Benjamin e Lucius; Jonas e Nathan e, por último, Justus e sua invisibilidade e silenciosa presença a abrir caminhos. Rezam as escrituras que “os caminhos que levam ao Salvador estarão cheios de ciladas e o poder do Espírito Santo (…) será luz a iluminar e guiar os passos dos que não se deixarem abater pelas dificuldades.” Não seria Justus a própria escritora onipresente?
O livro Três Reis e um Mago contêm 15 capítulos distribuídos em 215 páginas, onde a história bíblica é revivificada e iluminada por um texto fascinante, de significativa qualidade genética, a respirar filosofia e cultura por todos os poros. É a escrita impecável, comovente, acurada, rica na prosa poética – o estilo inconfundível da escrita e do jeito de ser de Maria Teresinha Debatin. Chego ao final deste périplo delicioso a desvendar Três Reis e um Mago a seguirem a Estrela Guia, riscada no céu, anunciando a vinda do Messias. Destaco o parágrafo da despedida de Tigor. Palavras e pensamentos reflexivos presentes em toda narrativa, desde suas páginas vestibulandas.
O Grito de Esperança continua vivo a ressoar sobre a terra na velocidade da luz;
é vento no deserto a germinar semente fina e saudável como o trigo; maná que
alivia a fome do caminhante, daquele que todos os dias trava uma luta no deserto
dos pensamentos regando sua fé. (p.212)
Mais uma vez, na noite de 25 de dezembro, celebramos o nascimento do Menino Jesus. É o milagre da Noite Santa e na Epifania eles, os Reis, vão chegar guiados pela luz da Estrela Guia. Quero sentir aflorar a emoção, o pungir da saudade, transbordarem sentimentos em manifestações de afetos eternizados no tempo, lembranças queridas que a memória deixa fluir. Não acrescento mais nada. Corro em busca da minha Estrela Guia cheia de garra e desejos de bem viver, percorrendo o universo infinito ao encontro da eterna magia, a mesma cantada por Três Reis e um Mago.





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