Da palavra palavrão

by | Apr 1, 2026 | Crónica da Califórnia

 

Longe vai o Carnaval, esse curto período de farra esfalfante, para dar lugar à Quaresma, esta demorada caminhada de reflexão sempre importante nas pressas dos dias que vivemos hoje cada vez mais alérgicos aos cruciais benefícios duma salutar penitência mostrando, tal como o pobre pecado, uma clara tendência em querer desaparecer das consciências contemporâneas. Não era assim, quando me criei na inocência da minha já longínqua meninice a transportar-me, uma vez mais, para o início dos anos sessenta no meio rural ilhéu, então moldando-nos obedientes meninos de mãos postas e com os olhos virados para o céu. Isto para aqueles de nós criados na rotineira religiosidade dessa era em que a missa ao domingo e a confissão ocasional faziam parte dos bons hábitos duma devota família cristã, seriamente cumpridora das suas mínimas obrigações para com Deus e a Santa Madre Igreja.

Lembro-me muito bem da primeira vez que me confessei, apenas com seis anos de idade, quando me preparava para fazer a Primeira Comunhão, de me ter calhado apanhar o confessor de quem toda a gente, miúda e graúda, mais gostava ali nas redondezas. Santa criatura, o popular padre Manuel Pacheco da Câmara, vigário das vizinhas Quatro Ribeiras, não disfarçava a sua típica conduta de castiço homem do campo, tão desenrascado nas suas lides lá por fora como bastante amigo de despachar serviço adentro da igreja. Não demorava as suas missas e, nas confissões, apresentava-nos uma curiosa ladainha de pecados leves a que nós íamos dizendo sim ou não, conforme nos apetecia. Ora, naquela tenra idade, bem vistas as coisas, há quem argumente que uma criancinha ainda não comete propriamente quaisquer pecados dignos de serem confessados a sério. Sabendo disso, o bondoso sacerdote limitava a sua curta lista aos pensamentos porcalhões, aos feios palavrões e também aos atos mais aldrabões, para nos facilitar a escolha do que dizermos sem termos de perder muito tempo a pensar.

Sentado no primeiro banco da frente, perto do altar, depois de ter escolhido meia dúzia de pecadilhos acriançados, eu esperava pela minha vez de me confessar, enquanto o padre Câmara o fazia a um dos meus companheiros mais envergonhados, que não havia maneira de se recordar de nenhum dos seus minúsculos pecados. A curta distância de ambos, eu conseguia ouvir o som sereno das suas vozes murmurando. “Não te vem mesmo nada à ideia?”, insistia o pachorrento sacerdote, “nem sequer uma ou outra palavra mais porca que tenhas dito a alguém?” Aí, o petiz, meio despassarado, descaiu-se, ao pensar no que dissera ao malcriado do seu vizinho, “eu disse-lhe peidos p’ra ti.” “Para mim, o quê?”, espantou-se o padre, bem-humorado, dando o devido desconto ao fedelho a tentar desculpar-se, “não, não…o que eu disse não é para o senhor padre, foi só a responder ao espertinho do meu vizinho que me tinha dito merda para mim.” Tentando não fazer caso para não o embaraçar, o padre Câmara decidiu passar à frente, “e não te alembras mesmo de mais nada?” A resposta parece que estava só à espera, “o senhor padre não acha que já é merda bastante?”

Ora, volvidos sessenta e tantos anos sobre esta esdruxula peripécia, apraz-me aqui sublinhar que nada disto é, ou alguma vez foi, pecado que se confesse. O que não quer dizer que não haja, como sempre houve “palavras feias”, quando inseridas em contextos que nos toldam o estômago, chateiam as ideias e, tantas vezes, nos maltratam. Palavras conhecidas por esses tais porcos palavrões que ferem, insultam e, infelizmente, também matam. Mais do que não seja a reputação duma pessoa quando enxovalhada ou mesmo condenada na praça pública sem quaisquer provas convincentes. Acontece muito nos dias de hoje, um pouco por todo o lado, sobretudo na escorregadia lamaceira das redes sociais, onde a porcaria dos porcalhões aparece com as suas más intenções cuspindo, à toa, nojentos palavrões e safe-se quem puder. Bem, com esta tensa embrulhada de mais uma guerra louca a envergonhar a humanidade, eu safei-me de boa anteontem, ao refrear-me de soltar o palavrão que bem me apetecia na direção de um espertalhão que me provocava no Facebook, donde me tenho vindo a arredar cada vez mais. O palavão que ele me disse não cabe aqui e o que bem me apeteceu dizer-lhe também não. Custou-me controlar-me, todavia fi-lo a tempo, antes de desligar o computador e aquecer um café para ir bebendo enquanto alinhavava estas rimas como reflexão pertinente que, confesso, pouco me apetecia agora confessar-vos, mas…

 

Na palavra palavrão,

Mora poder d’explosão,

Deveras endiabrado,

Quando cuspido à toa

Na cara duma pessoa,

Pode dar mau resultado.

 

Há palavrão bem estranho

Que abusa do tamanho

Da sua má intenção,

Com atrevimento grande

Quando explode, expande

Reles indisposição.

 

Já no palavrão pequeno,

Dito com pouco veneno

Não vejo tanto perigo; 

Temo mais o venenoso

Que, ao berrar, furioso,

Traz o diabo consigo.

 

A esse palavrão feio,

Que agride sem receio,

Apetece respondermos,

Mas se soa atrevido,

Porco e não faz sentido,

Melhor é não o dizermos.

 

Digam lá o que disserem,

E façam como quiserem,

No calor das discussões,

Mas em conversa regrada

Com gente bem-educada,

Dispensam-se palavrões.

 

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