Da magia da mulher

by | Dec 17, 2025 | Crónica da Califórnia

 

 

Todo o homem discreto reconhece, sem problema algum, que a este mundo ninguém chega sem a magia da mulher. Há também quem lhe chame milagre e com certa razão. O que acontece no ventre feminino, antes de cá chegarmos, é qualquer coisa de espantoso. Como irmão mais velho, guardo uma vaga ideia das vívidas emoções de minha mãe por alturas de dar à luz. Testemunhar o nascimento dos meus filhos, porém, junto à sua fabulosa mãezinha, ajudou-me muito melhor a perceber o crucial papel da mulher no universo dos vivos. As mulheres, nas nossas vidas, são insubstituíveis. Ou como gosta de dizer um brincalhão amigo meu, “embora não seja fácil viver com elas, é-nos praticamente impossível viver sem elas”. As minhas, todas, apraz-me reconhecer, permanecem-me inspiradoras. Das que já se foram, retenho sentimentos de saborosa saudade e inesgotável doçura. As que agora me acompanham, continuam indispensáveis tanto ao homem que sou como ao velhote que anseio ser.

E começo pelas velhotas. Ao contrário dos meus netos, não tive a felicidade de conhecer quaisquer das minhas bisavós. Fotos e estórias ajudam-me a imaginar, mas é só. Gostaria também de ter conhecido melhor as minhas avozinhas, ambas falecidas na minha infância. Que não tiveram uma vida fácil, eu sei. Porém, gostaria de ter podido saber muito melhor como, há um século atrás, ante as desafiantes carências de então, conseguiram multiplicar-se num sem fim de afazeres e cuidados a tornarem-nas nas heroínas que, indubitavelmente, foram. E, para mim, sempre serão. Felizmente, não estou só nesse sensibilizante reconhecimento do muito que tanto de si sacrificaram pelos seus. Não olhavam a meios nem a fins pela boa harmonia dos seus lares. Os seus dias não tinham horas certas de começar nem de acabar. Arrancavam com o romper das madrugadas sem despertador e terminavam nas noitadas dos serões necessários ao seu rotineiro cultivo do amor. 

Querer reduzir a riqueza do amor duma mulher à cama sempre foi um erro grosseiro de qualquer macho sem escrúpulos. O mundo machista em que fomos criados nessa era já distante creio ter ajudado muitos homens de bem a perceberem o que estava mal no desrespeitoso tratamento das mulheres que os rodeavam. Apesar de haver sempre quem se recuse a aprender com as duras lições dos tempos, acho que se tem progredido consideravelmente nos comportamentos de respeito para com a dignidade que toda e qualquer mulher deve merecer. Podem parecer passos lentos e inseguros, parte do escorregadio mundo em que vivemos obviamente sujeitos a enfiarmos a pata na poça, porém apraz-me imenso ver melhorias significativas na geração dos meus filhos educados para entenderem as diferenças que se pretendem positivamente dignificantes nos seus relacionamentos de gentil cortesia para com o sexo feminino hoje em dia.

Nunca fui fã de feminismos estéreis e irrazoáveis, tal como não o era do machismo rude e irresponsável. Ambos me irritam o nervinho do bom senso com que tento pautar esta adiantada fase da minha vida prestes a entrar na casa dos setenta como pai e avô, babado pelos rebentos que criou. Criado como o mais velho de três irmãos e depois procriador de três filhos, tive de esperar por um deles me vir proporcionar a imensa alegria que tanto a minha mãe como a minha esposa sonhavam – poderem gerar uma menina. A nossa preciosa princesa só acabou por chegar uma semana antes do Natal de há três anos. Não posso chama-la de nosso Menino Jesus por não fazer sentido em português. Porém, porque Jesuína era o nome da sua trisavó paterna, reservo para mim este consolo natalício de enfeitar o nosso presépio familiar com a deliciosa doçura da nossa amorosa “Menina Jesuína”. A magia da mulher, por conseguinte, enche agora o meu lar enriquecido pela presença feminina a brindar formidavelmente o meu tranquilo viver de aposentado com razões de sobra para continuar a sorrir.

São sorrisos diariamente renovados nos nossos rostos logo de manhãzinha, os meus e da minha cara-metade, ao acolhermos a nossa netinha cá em casa enquanto os papás lá vão às suas vidas profissionais. Os seus tenros três aninhos de idade fazem igualmente sorrir a sua nonagenária bisavó, a minha santa sogra, a morar connosco há já algum tempo. “Tempo que não para de voar”, diz-nos ela ainda bem alembrada da longínqua era em que foi criada menininha, lá no Faial, sem comparação possível à de agora. Ciclos distintos, sem dúvida, todavia interligados por um subtil fio da magia feminina que o Natal eternamente lembrará na sublime figura de Nossa Senhora, mãe por obra e graça do Espírito Santo. Claro que é a fé a fazer-nos assim crer e também desejar o melhor para as nossas pequerruchas – que possam vir a amadurecer senhoras felizes à fiel imagem das que as precederam e moldaram com muito amor.    

 

 

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