D. Amélia, a rainha leoa

by | Aug 12, 2026 | A Descoberta

 

“Foi como uma leoa a defender os filhos”, disse-me, em conversa recente, o historiador José Alberto Ribeiro, sobre o momento em que D. Amélia tentou proteger a família real com um ramo de flores, a única arma à mão contra Alfredo Costa e Manuel Buíça, os regícidas. D. Carlos morreu, o príncipe herdeiro D. Luís Filipe também, mas D. Manuel sobreviveu. Naquele trágico 1 de fevereiro de 1908, no Terreiro do Paço, na carruagem aberta, o desespero transformado em coragem da rainha provavelmente salvou-lhe a própria vida e a do filho mais novo, que, já como D. Manuel II, seria o último rei de Portugal.

José Alberto Ribeiro, que também é o diretor do Palácio Nacional da Ajuda, uma das antigas residências da família real, publicou agora ‘Rainha D. Amélia de Orléans e de Bragança’, uma biografia da francesa que foi a última rainha de Portugal. Fica da leitura a ideia que foi, de facto, uma grande mulher. Nas ideias e nas ações, além de as fotografias da época a mostrarem claramente mais alta do que o marido. Tinha mais de 1,80 metros.

O que tem de mais especial esta biografia editada pela Caleidoscópio é basear-se nos diários de D. Amélia. Escreveu-os em francês, apesar de ter aprendido a falar fluentemente português depois de ter casado em 1886 com o então duque de Bragança, um jovem de 22 anos, dois anos mais do que a noiva, uma Orleães, filha do pretendente ao trono francês.

D. Amélia afeiçoou-se a Portugal, e mesmo no exílio, após a proclamação da república em 1910, manteve o carinho pelos portugueses. Dizia que os males que tinham acontecido à sua família não eram culpa do povo, mas dos políticos.

Conseguiu que D. Manuel II, quando morreu em 1932 em Inglaterra, fosse transladado para Portugal e sepultado no Panteão dos Bragança. E ela própria quando morreu em 1951 em França, foi trazida para Lisboa, e igualmente sepultada no Mosteiro de São Vicente de Fora, junto do marido e dos filhos.

Da obra filantrópica de D. Amélia nesses 24 anos (21 como rainha) que viveu em Portugal deixo, com ajuda do biógrafo, dois belos exemplos: foi a fundadora do Instituto de Socorro a Náufragos e também a promotora do Museu dos Coches Reais, em Belém, hoje Museu Nacional dos Coches, que passou entretanto do antigo picadeiro real para um novo edifício construído de raiz na mesma zona de Lisboa. 

 

* Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’.

 

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