Na década de 1920, os Estados Unidos da América implementam a Lei Seca. Na sombra de Al Capone, proliferam gangues que dominam o tráfico de bebidas destiladas e que procuram sangue novo para recrutar.
Saído de uma comunidade açoriana do estado de Massachusetts que produz aguardente em alambiques ilegais, o jovem Salvador Silver vai aprender as rígidas leis da delinquência com o trapaceiro Arthur Trato e vai envolver-se com os Morelli, uma família mafiosa. Mais tarde, cometerá delitos graves que o colocam ao lado dos anarquistas Sacco e Vanzetti, que seriam celebremente julgados e condenados à cadeira elétrica. Porém, terá sido Salvador Silver o verdadeiro responsável pelos crimes que levaram ao fim da vida destes dois italianos?
Nesta história baseada em factos documentados pela imprensa americana da época, o autor Pedro Almeida Maia traz à luz o percurso de um português imponderado, que foi, por um século, abafado pelo mediatismo de um dos casos mais estudados dos tribunais americanos.
- Entrevista: Francisco Resendes
Portuguese Times – Como e quando surgiu a ideia de lançar este livro?
Pedro Almeida Maia – “Quando ainda terminava A Escrava Açoriana, troquei impressões com o historiador Sérgio Rezendes sobre o seu artigo «Um gângster micaelense e a cadeira elétrica no tempo da Lei Seca: a Diáspora numa visão ao contrário». Apercebi-me do manancial de informação que existia em torno desta história verdadeira. Tratava-se de um caso caricato: um indivíduo oriundo de terras açorianas, mais concretamente de Água d’Alto, mas que, ao contrário da tradição de boas famílias que caracteriza a nossa emigração, estava ligado ao crime e tinha um percurso insólito. Estava envolvido no caso mediático dos italianos Sacco e Vanzetti, além de ter fugido com uma rapariga circense e de ter hábitos incomuns, como o de tentar matar moscas com tiros para o teto. Tudo isso enquanto algumas pessoas arriscavam fabricar aguardente em alambiques ilegais instalados nas suas caves”.
PT – Fale-nos do trabalho de investigação, estudo e preparação do tema?
PAM – “Comecei por ler e guardar o máximo de informação possível. Por exemplo, António Araújo escrevera «Dois mártires (ou talvez três)» no Diário de Notícias, e Teófilo Soares Braga «Com os pés na Terra». Consultei Complete Works of John dos Passos e assinei o Boston Globe com o intuito de pesquisar os jornais antigos. Em 2023, na viagem que realizei aos EUA, passei por muitos dos locais onde se deu a ação. Algumas pessoas foram incansáveis em fornecer apoio: destaco Onésimo, em Providence, e Carmélio Rodrigues, em New Bedford, que encontrou a campa onde hoje está sepultado este protagonista, enquanto eu procurava no cemitério errado, em Boston. A minha família em Massachusetts também prestou um auxílio precioso. Durante os dois anos seguintes, fui juntando todas as peças”.
PT – Qual tem sido a reação dos seus leitores?
PAM – “Apesar de se tratar de uma história difícil de contar, considerando que gira em torno de um anti-herói, um indivíduo perigoso e cujas motivações não eram claras, o livro tem sido muito bem recebido pela crítica. Curiosamente, alguns leitores não esperavam uma história deste género escrita por mim, sobretudo por ter optado por um narrador não açoriano. A minha intenção foi a de mostrar a emigração pelos olhos de quem está no lado de quem recebe”.
PT – Tenciona apresentar o livro nos vários núcleos de imigrantes pelos EUA?
PAM – “Sim, gostaria de ter a oportunidade de levar este romance ao maior número possível de lugares com presença portuguesa, nos EUA e no Canadá, embora ainda não tenha sido possível fechar datas nem resolver algumas questões ligadas à logística. Possivelmente em 2026.
PT – Dos seus vários livros já publicados qual o que exigiu mais de si?
PAM – “Até há bem pouco tempo, consideraria A Escrava Açoriana, pela dificuldade de interpretar uma personagem feminina. No entanto, este Condenação acabou por se tornar ainda mais exigente, sobretudo pela necessidade de, enquanto psicólogo e autor, ter de entrar na mente de um criminoso, aliás, de vários criminosos”.
PT – Como definir o seu estilo e quais as suas influências literárias?
PAM – “Creio que essa pergunta poderá ser mais bem respondida pelos críticos. A minha escrita vai evoluindo com o meu amadurecimento. Leio muita literatura contemporânea e autores açorianos ou literatura sobre os Açores. A condição de ilhéu continua a fascinar-me, mas sinto que ainda quero escrever outros livros sobre outros temas”.
PT – Qual o seu autor preferido?
PAM – “Durante a minha juventude, lia Rex Stout, autor de policiais, género literário que começou por ditar a minha estreia na literatura. Mais tarde, li Hemingway, Wells, Huxley e Fitzgerald, o que terá motivado a escrever A Viagem de Juno. Também li Saramago e continuo a ler autores contemporâneos, mas o autor por quem tive a maior admiração foi Manuel Ferreira, autor de O Barco e o Sonho, também por uma questão de proximidade: nós vivíamos na mesma rua”.
PT – Algum projeto em manga, após este livro?
PAM – “Ainda estou a decidir o tema do próximo romance. Além de retomar o ritmo da vida profissional, encontro-me em fase de contactos para eventual publicação da versão em inglês do romance A Escrava Açoriana, que tem vindo a ser traduzido por Diniz Borges, e da possibilidade de Ilha-América vir a ser traduzido por Scott Edward Anderson e também publicado”.
PT – Como adquirir o livro aqui nos EUA?
PAM – “As versões portuguesas dos meus três livros mais recentes podem ser adquiridas em formato e-book, por exemplo, na Amazon, Apple ou Kobo. Por enquanto, as versões em papel podem ser adquiridas pela internet, em sites como a Wook, FNAC ou Bertrand, ou através da editora, no site particular.pt; estes trabalhos, assim como os livros anteriores, podem ser encomendados em letraslavadas.pt”






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