Cláudio Valente fez uma série de vídeos após os tiroteio

by | Jan 14, 2026 | Notícias das comunidades

 

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos continua a investigar as circunstâncias que envolveram o assassinato de dois alunos na Universidade Brown, em Providence, Rhode Island (dia 13 de dezembro) e do português Nuno Loureiro, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) na sua casa em Brookline, subúrbio de Boston.

No âmbito da investigação, dia 18 de dezembro, os investigadores levaram a cabo uma busca num armazém alugado por Cláudio Manuel Neves Valente, 48 anos, o cidadão português responsável pelos assassinatos sem sentido e, durante a busca, o FBI apreendeu um dispositivo eletrónico contendo uma série de vídeos curtos gravados pelo suspeito após os tiroteios.

Nas gravações, Valente admite em português que estava a “planear o ataque à universidade há muito tempo”, mas não apresentou nenhuma razão para o ataque à Brown ou ao professor do MIT, que tinha sido seu colega no Instituto Superior Técnico em Portugal entre 1995 e 2003, embora de cursos diferentes.

Quem era Cláudio Neves Valente? Nasceu em Torres Novas, cresceu no Entroncamento, onde residem os pais, e finalizou o ensino secundário na cidade onde nasceu, sendo considerado aluno brilhante.

No Entroncamento, familiares e amigos descrevem os pais como “devastados” com as notícias, sublinhando que não mantinham qualquer contato com o filho desde que ele imigrara para os Estados Unidos e desconheciam por completo o seu paradeiro ou situação de vida.

Cláudio destacou-se desde cedo pelo seu desempenho académico. Fez o ensino básico na Escola Rui de Andrade e o 10.º ano na Escola Secundária do Entroncamento, saindo depois para Torres Novas para fazer o ensino secundário na Escola Maria Lamas. Em 1995 representou Portugal na Olimpíada Internacional de Física, na Austrália, e ingressou no Instituto Superior Técnico, de Lisboa, onde concluiu a licenciatura com a melhor classificação do seu curso (19 valores).

Antigos colegas recordam-no como extremamente inteligente, mas com dificuldades nas relações pessoais e sinais de instabilidade emocional.

Concluída a licenciatura, Valente foi monitor do Instituto Superior Técnico, mas a instituição rescindiu o contrato no ano 2000 devido ao mau relacionamento com os alunos e terá sido nessa altura que decidiu vir para os Estados Unidos.

Foi aceite num programa de doutoramento na Universidade Brown, que frequentou desde o outono de 2000 à primavera de 2001 e deixou formalmente em 2003, afastando-se do meio académico sem que colegas ou professores soubessem o motivo.

Cláudio regressou nessa altura a Portugal e trabalhou como informático no portal Sapo. Era developer, escrevia os códigos para programar o serviço Sapo.

Entre 2010 e 2013 terá trabalhado no departamento de informática da Altice, regressando depois aos Estados Unidos. Em abril de 2017 conseguiu obter visto de residência nos Estados Unidos, com morada em Miami, mas é desconhecida a sua atividade profissional nos anos seguintes.

O Departamento de Justiça divulgou dia 6 de janeiro um resumo das transcrições dos vídeos, que foram traduzidas do português para o inglês e nos quais Cláudio Valente admitiu em português que planeava o ataque há pelo menos seis semestres, mas não apresentou uma razão para ter atacado a universidade e o antigo colega do Instituto Superior Técnico em Portugal.

Abordou explicitamente as alegações infundadas espalhadas pela influenciadora conservadora Laura Loomer após o ataque, de que, ao entrar no auditório da Brown, o atirador teria gritado em árabe algo como “Allahu akbar” (Deus é grande, em árabe), expressão usada habitualmente por terroristas quando cometem atentados em nome do Islão.

Cláudio Valente disse que não disse nenhuma palavra árabe e nem tinha a intenção de fazer qualquer tipo de declaração.

“Se disse algo, deve ter sido algo como ‘Oh, não!’ ou algo do género”, terá dito Valente, mas considerando que se disse algo foi para expressar a sua deceção por o auditório parecer vazio quando entrou.

Na realidade os alunos estavam escondidos debaixo das carteiras, mas, sorte deles, o atirador pensou que tivessem conseguido sair.

“Nunca quis fazer isto num auditório. Queria fazê-lo numa sala normal. Tive muitas oportunidades. Principalmente neste semestre, tive muitas oportunidades, mas acobardei-me sempre”, admitiu Valente.

O português disse ainda não sofrer de doenças mentais e que era perfeitamente lúcido, afirmando que não cometeu os crimes por fama e que não tinha “absolutamente nenhuma paciência” para manifestos ou para deixar um legado.

Acrescentou que o seu “único objetivo era sair mais ou menos” nos seus “próprios termos” e garantir que “não seria ele quem acabaria por sofrer mais com tudo isto”.

Cláudio Valente considerou a sua execução dos assassinatos “um pouco incompetente, mas “pelo menos alguma coisa foi feita”.

“Dizer que fiquei extraordinariamente satisfeito, não, mas também não me arrependo do que fiz”, acrescentou.

Na gravação,Valente mencionou ainda o seu encontro com uma testemunha na Universidade Brown. A testemunha cruzou-se várias vezes com o suspeito antes do ataque e sugeriu à polícia que investigasse um Nissan Sentra cinzento “possivelmente alugado”, o que levou à sua identificação.

“Honestamente, nunca pensei que demorassem tanto tempo a encontrar-me”, admitiu Valente.

“Não vou pedir desculpa porque, durante toda a minha vida ninguém me pediu desculpas sinceramente”, disse Cláudio Valente.

Nos seus vídeos, o português não apresentou qualquer motivo para os assassinatos e confessou não sentir ódio nem amor pelos Estados Unidos.

“É a mesma coisa com Portugal e com a maioria dos lugares por onde passei”, confessou, acrescentando mais tarde: “Há muito tempo que estou por aqui sem me importar com nada”.

 

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