Caderno de Memórias Coloniais e motivos para lê-lo Por Ana Lourdes, “VOZES/VOICES IN PORTUGUESE: Brought to you by the Portuguese programs at UMass Dartmouth”

by | Jul 29, 2026 | Livros

 

“VOZES/VOICES IN PORTUGUESE: Brought to you by the Portuguese programs at UMass Dartmouth”

O pequeno livro de menos de 200 páginas só carrega este adjetivo consigo se levarmos em conta o seu tamanho (me lembra aquelas edições de bolso), porque na verdade carrega um grande e sensível conteúdo sobre a queda do imperialismo colonial português no contexto de países africanos, particularmente à luz dos olhos de uma filha de colonos, branca, nascida e criada naquele lugar. A obra nos mostra uma crua e poderosa narrativa autobiográfica que lança luz sobre as complexidades do legado colonial em Moçambique, trazendo à tona questões fundamentais sobre identidade, raça, gênero e poder. Através da perspectiva feminista, Isabela Figueiredo usa de consciência adquirida e expõe diferentes formas de opressão e privilégio vivenciadas por mulheres moçambicanas, destacando as intersecções entre colonialismo, machismo e racismo.

É um livro sensível e com descrições bem palpáveis de episódios traumáticos da vida de Isabela, tanto ainda em Moçambique, quanto após ter fugido para Portugal, no início do declínio do império português, quando a então menina tinha por volta de doze anos. Dentro destas narrativas, a autora nos convida a refletir sobre os diversos papéis desempenhados por mulheres da sociedade moçambicana, revelando como as estruturas coloniais e patriarcais moldaram suas experiências e relações. Ela coloca em evidência as vozes silenciadas e as histórias ocultas das mulheres negras, mostrando como o sistema colonial perpetuou hierarquias de poder que marginalizaram e oprimiram determinados grupos, dando um destaque merecido às diferenças de comportamento e tratamento entre mulheres brancas e negras.

Um episódio marcante relatado no livro é quando a criança Isabela investe uma “maldita bofetada” em uma coleguinha de sala chamada Marília, com a certeza da impunidade por ser branca e considerar sua colega de sala negra um “alvo fraco”, sem sequer lembrar se houve um pedido de desculpas. É evidente que não.

Ao compartilhar suas memórias e experiências enquanto mulher branca nascida em Moçambique, Figueiredo expõe as contradições e ambiguidades de sua própria posição privilegiada dentro de um sistema de opressão racial e social. Ela questiona as narrativas hegemônicas que glorificam o legado colonial português, confrontando o leitor com as injustiças e violências infligidas aos povos colonizados em nome do progresso e civilização. Ela nos confronta com a complexidade moral e ética de nossa herança colonial, estimulando-nos a questionar nosso papel na reprodução de estruturas de poder, tão injustas e desiguais.

Sem rodeios, mergulhar em um passado marcado pela violência e pela exploração provoca uma sensação profunda de estranhamento e desconforto. Esse incômodo se intensifica diante do convite da autora para repensar estruturas de opressão que nos são, em grande medida, familiares. A leitura da obra, que consegue ser bruta e leve ao mesmo tempo, provoca quem estiver lendo a se familiarizar com uma nova perspectiva da história do colonialismo português de maneira profunda e impactante. Em alguns momentos da narrativa podemos enxergar mitos sendo descontruídos e a romantização do passado colonial sendo quebrada quando Isabela expõe realidades brutais e desumanas vividas por muitos quando ainda estavam sob o domínio português. Como quando ela explica o motivo de seu pai, um eletricista importante na eletrificação de Lourenço Marques dos anos 60, não contratar brancos para serem seus funcionários: “Um branco saía caro, porque a um branco não se podia dar porrada, […] O negro estava abaixo de tudo. Não tinha direitos.”

Muito de nós, herdeiros do imperialismo português, somos ensinados pela educação hegemônica uma história romantizada da exploração portuguesa nos trópicos (alô Gilberto Freyre!). Ao escrever de forma honesta e visceral, Isabela não poupa seus leitores e os desafia a repensar suas crenças arraigadas sobre a história colonial, quando propõe uma reflexão crítica sobre as narrativas dominantes que distorcem as verdades dolorosas e incômodas do nosso passado em comum. 

Desde a primeira página já ficamos sabendo que o livro é uma certa homenagem para o seu pai, uma relação no mínimo curiosa e contraditória que nos acompanha durante toda a leitura. A relação pai-filha em Caderno é uma das dimensões mais impactantes da obra, funcionando como um miniuniverso das dinâmicas coloniais e patriarcais que a autora problematiza. O pai é uma figura central na narrativa e representa tanto o colono racista, cuja violência simbólica e material é dirigida contra os moçambicanos negros, quanto o patriarca que exerce controle sobre a filha, na tentativa de perpetuar a opressão colonial dentro de seu ambiente familiar, moldando sua visão de mundo e sua subjetividade, tudo isso entre episódios de carinho e violência. 

Figueiredo relata episódios em que o pai exige respeito incondicional e demonstra autoridade absoluta, perpetuando um modelo de masculinidade autoritária herdado do sistema colonial, ao mesmo tempo que a narradora não aceita passivamente essa posição: em muitos momentos, adota uma postura combativa, desafiando a moralidade e a lógica do pai. Um outro exemplo marcante é sua crítica direta ao racismo do pai, cuja brutalidade contrasta com a afetividade que ele demonstrava no ambiente doméstico, revelando as contradições do sistema colonial e do patriarcado. A autora reflete sobre o impacto dessa relação na formação de seu caráter, reconhecendo a dificuldade de separar o afeto pela figura paterna de sua rejeição aos valores que ele encarnava. 

Em um dos capítulos onde descreve a tensa rotina de como era um dia de pagamento aos negros no terraço de seu pai, e encerra o capítulo com “O meu pai tinha o condão de transformar os finais dourados das tardes de sábado num poço escuro de medo e raiva”. Quem a lê consegue sentir a angústia da ambivalência de sentimentos e talvez até se identifique com a autora, dependendo de como foi/é sua própria relação paterna. Essa tensão constante no livro evidencia o quão complexo pode ser tomar a decisão de revisitar um passado pessoal tão intrinsecamente ligado às estruturas de poder e violência do colonialismo.

Falando agora sobre o tom da narrativa de Figueiredo, a autora desafia os limites da autobiografia tradicional quando se expõe como uma figura vulnerável e ao mesmo tempo crítica, utilizando um tom confessional ao invés de buscar coerência ou redenção. Enquanto narra os abusos e desigualdades impostos pelo regime colonial, a autora entrega ao seu público de língua portuguesa uma narrativa crua e desconfortável, com direito a ambiguidade moral (quando ela sente necessidade de explicar que apesar de como o descreve não sente nada incestuoso pelo próprio pai, por exemplo) e a dor do autoquestionamento (quando ela se pergunta o custo do amor e o associa a língua, cultura e memória). Ao mesmo tempo que denuncia a necropolítica portuguesa, exploração econômica e territorial e sua violência sistemática contra as populações negras africanas. Conseguimos, de vez em quando, perceber uma certa saudade por parte de Isabela, quando por exemplo ela afirma que “Também nos meus sonhos os caminhos ainda são de terra vermelha batida”, indicando que no seu subconsciente os caminhos ainda a levam para uma viagem tempo/espacial. O tom de confissão que a autora usa como um recurso estilístico também pode ser visto como um ato de confrontação histórica e uma tentativa de trasladar as vozes silenciadas para um local mais digno e justo na história. 

Concluindo, o pequeno grande livro da moçambicana Isabela Figueiredo não apenas nos desafia a revisitar a história do colonialismo português, mas também a apontar e reconhecer suas consequências insistentes nas relações interpessoais contemporâneas. Através da perspectiva feminista de Isabela, somos confrontados a abandonar visões simplistas e apologéticas do nosso passado colonial comum e a incorporar uma abordagem mais crítica em relação às experiências e legados dos povos colonizados. Levando tudo isso em consideração, enquanto lê essa obra profundamente provocativa e introspectiva saiba que será instigada a questionar, problematizar, reconstruir e, principalmente, desaprender o que nos ensinaram sobre a história colonial portuguesa.

 

Figueiredo, Isabela. Caderno de Memórias Coloniais. 5a ed., Angelus Novus Editora, 2011.

 

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