“… Estou a preparar projetos e eventos para os próximos semestres que incluem a comunidade e estamos sempre abertos ao diálogo. O convite fica feito para que nos contactem…”
António Ladeira é, desde março deste ano, o novo diretor do Centro de Estudos Portugueses da UMass Dartmouth. Nascido em Almada, Portugal, é licenciado em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa e doutorado em Línguas e Literaturas Hispânicas pela Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Foi professor de Literaturas Lusófonas e diretor do Programa de Português na Texas Tech University, aqui nos Estados Unidos, lecionando também nas universidades de Yale e Middlebury College. Tem trabalhos académicos em publicações portuguesas e internacionais, entre as quais se incluem a Colóquio/Letras, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Vértice, Hispania, Boletim de Estudos Hispânicos e Luso-Brasileiros, Luso-Brazilian Review, etc. Publicou três livros de poesia em Portugal e a sua poesia tem sido incluída em antologias e revistas nacionais e internacionais, como, por exemplo, a prestigiada ‘Prairie Schooner’, ‘Relâmpago’, ou a antologia ‘Resumo’ (Assírio & Alvim/FNAC, 2010). Fez rádio. Foi colaborador doDN Jovem, onde publicou contos e poemas. Foi crítico literário no jornal Diário de Notícias. Traduziu o volume de contos do autor argentino Fernando Sorrentino “Existe um homem que tem o costume de me dar com um guarda-chuva na cabeça” (OVNI, 2006). Letrista da cantora de jazz norte-americana Stacey Kent, nomeada para os prémios Grammy.
– Como surgiu e posteriormente encarou este desafio de assumir a direção do Centro de Estudos Portugueses da Universidade de Massachusetts Dartmouth?
António Ladeira – “É algo muito interessante, uma oportunidade um pouco inesperada que surgiu no final da minha carreira — será a última fase, dada a minha idade. Fui professor durante 23 anos na Texas Tech University. A oportunidade surgiu há algum tempo e quem me conhece sabe que eu tinha um grande desejo de voltar para a Costa Leste e para New England em particular. Já tinha tido uma experiência prévia em Connecticut, na Universidade de Yale, onde fui leitor do Instituto Camões antes de ir para o Texas. Portanto, de certa maneira, há um sentido de fecho de ciclo: a história completa-se e volto ao meu lugar favorito nos Estados Unidos. Em relação ao desafio no Centro de Estudos Portugueses: não sei se as pessoas sabem, mas há apenas dois programas/departamentos de português independentes nos Estados Unidos. O português é ensinado em várias universidades, mas funciona muitas vezes acoplado ou em coordenação com o espanhol ou com outras línguas. Neste momento, apenas duas universidades têm programas independentes ao ponto de se poderem chamar Departamentos de Português: a Brown University e a UMass Dartmouth. Há, portanto, uma longa história e tradição de apoio e relação com a comunidade, que foi muito reforçada com a presença de Frank Sousa há uns anos, que fundou justamente o Centro de Estudos que dirijo atualmente. É uma relação muito forte com a comunidade e justifica-se um programa forte aqui por ser onde há a maior concentração de pessoas que falam português nos Estados Unidos”.
– Certamente que já tinha conhecimento da grandeza e da dinâmica deste Centro de Estudos e Cultura da UMass Dartmouth…
“Sim, eu já tinha, inclusive tinha colaborado com os programas de português daqui. Sou membro de um comité editorial, sou amigo de todos os professores… Nós, os professores de português a nível universitário nos Estados Unidos, somos um grupo relativamente pequeno e conhecemos-nos quase todos. Frequentamos os mesmos congressos e as mesmas conferências. Dá-se o caso de eu já conhecer, por exemplo, o professor Vítor Mendes de Lisboa — fomos colegas na pós-graduação —, e o professor Frank Sousa também foi meu colega em Santa Bárbara. A professora Ana Klobuka trabalhou academicamente a poesia portuguesa e a questão do género, que é também uma das áreas em que eu trabalho. Portanto, já tinha tido muito contacto e colaboração com todos eles e conhecia os programas”.
– Quantos alunos frequentam atualmente o Departamento de Português?
– “É complicado dar números exatos neste momento. Oferecemos programas de undergraduate (licenciatura) e pós-graduação (mestrado e doutoramento), tanto a nível de minor como de major. Estamos numa fase em que estamos a avaliar o que funciona melhor para pensar no futuro de todos os programas. Oferecemos formação nos três níveis. A questão do mestrado e do doutoramento torna este programa quase único, pois há pouquíssimos programas que oferecem doutoramento em Português nos EUA — além de nós, creio que apenas a Brown. Neste caso, trata-se do programa de Luso-Afro-Brazilian Studies ao nível de M.A. e Ph.D.”
– Um dos assuntos que queria abordar é o reforço da ligação da universidade com a comunidade, como tem sido largamente referido. O que há de concreto neste momento e que passos a dar?
“Sem dúvida. Estou nesta universidade como professor desde setembro passado e assumi a direção do Centro em março. Ainda estou numa fase de aprendizagem e de preparação. Uma coisa é muito clara para mim: o meu desejo é colaborar o mais possível e aprender e estabelecer pontes com a comunidade. Essa é a minha filosofia e é uma das coisas que mais prazer me dá. Depois de viver vinte e tal anos numa região árida do Texas — onde eu era praticamente o único português e onde a comunidade brasileira era muito pequena —, dá-me um enorme prazer estar aqui. Traz também responsabilidade e algum nervosismo saudável: “será que as coisas vão correr bem? Eu gosto de desafios e este entusiasma-me muito. As opções aqui são quase excessivas! Nunca imaginei que a escala fosse esta: tantas associações, clubes e empresas onde os portugueses estão representados. Ouve-se português na rua e encontram-se apelidos portugueses em todo o lado. Tudo isto me dá um grande sentido de responsabilidade, mas também muito gosto.
Deixo desde já o convite às pessoas que nos estão a ouvir: contactem-nos se tiverem ideias ou sugestões de colaboração com as forças vivas da comunidade. Contactem-me a mim, António Ladeira, ou ao Centro de Estudos Portugueses. Aproveito para esclarecer algo importante: além do Centro de Estudos Portugueses, nós temos o Departamento de Português. Não são a mesma coisa. O Centro, por definição, colabora com outras áreas da universidade e com a comunidade, tem fundos próprios e uma missão mais ampla. O Departamento é de âmbito estritamente académico e é dirigido pelo professor Dário Borim neste momento”.
– Estamos numa comunidade com vários sinais de presença centenária, sobretudo no associativismo. É certo que há várias décadas atrás grande parte da comunidade não valorizava tanto o ensino superior para os filhos; hoje vemos imensos nomes portugueses entre os finalistas universitários. A comunidade evoluiu imenso nos últimos 40 ou 50 anos. O que encontrou correspondeu às suas expetativas?
“Sem dúvida que excedeu as expetativas no sentido positivo! Mas isso constitui também um desafio, porque é como se fosse um “mini-Portugal”. Não pensei que fosse tão forte e que estivesse em todo o lado, inclusive no Parlamento do Estado e na política local. E é importante não esquecermos as restantes comunidades lusófonas. Eu estudo literatura e cultura do Brasil, tenho um grande apreço pela cultura de Cabo Verde, e esses grupos também estão presentes e interagem por cá. Seria muito interessante não só colaborar com eles, mas focarmo-nos naquilo que temos em comum: a língua portuguesa. Sentirmo-nos, de certa forma, uma comunidade única. Todos estes desafios me interessam muito”.
– Quanto ao apoio privado da comunidade e do próprio Estado português, sente que se poderia fazer algo mais?
“Temos muita sorte por ter o apoio do Estado de Massachusetts, do Governo português, da FLAD (Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento) e de vários doadores individuais. Temos os Arquivos Ferreira Mendes — uma entidade importantíssima —, e a Tagus Press, a nossa editora, que tem agora uma relação especial com a UMass Press, o que aumenta a sua visibilidade e prestígio. Há várias componentes neste conjunto dos programas de português. Temos uma grande gratidão para com as entidades e pessoas que nos apoiam. Contamos com apoios dos Estados Unidos e de Portugal, mas gostaria de reforçar estes laços e procurar mais parceiros dentro da própria comunidade. Estou a preparar projetos e eventos para os próximos semestres que incluem a comunidade e estamos sempre abertos ao diálogo. O convite fica feito para que nos contactem”.
– Um dos eventos que vale a pena mencionar é o que vai acontecer em setembro na universidade…
“Queria aproveitar para convidar os ouvintes para uma leitura encenada do poema Ode Marítima, de Fernando Pessoa (sob o heterónimo Álvaro de Campos). Será uma leitura bilingue (português/inglês), realizada no dia 18 de setembro, às 17h15, no Auditório 102 do Campus Center (McLean Campus Center), na UMass Dartmouth. O parque de estacionamento recomendado é o Parque 5. O poema será lido pelo conhecido ator português Manuel Wiborg. A entrada é gratuita e aberta a toda a gente. Fica o convite: dia 18 de setembro, às 17h15.
– O que falta dizer?
“Queria apenas reforçar a ideia de que estamos realmente abertos ao diálogo. Uma maneira de preservar a nossa cultura e a língua portuguesa é contactar a universidade: fazer cursos, inscrever-se, manter-se a par dos eventos e sugerir ideias. O meu e-mail é público: aladeira@umassd.edu. Será um grande prazer ouvir o que cada um tem a dizer. Muito obrigado pelo convite!”
• Francisco Resendes





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