A tempestade perfeita

by | Mar 11, 2026 | Crónica do Atlântico

 

O Governo Regional meteu-se em mais uma embrulhada. 

Desta vez não foi capaz de inverter a queda inesperada do turismo na Região, quando os sinais já eram evidentes em pleno Verão, falhando em mais uma das suas promessas, que era reduzir a sazonalidade. 

Há dois anos, falando sobre o Plano Estratégico e de Marketing de Turismo, Berta Cabral garantia que a redução da sazonalidade era uma “prioridade assumida”, em conjunto com a distribuição de fluxos pelas ilhas.

Dois anos depois temos mais um falhanço à vista, com cinco meses consecutivos em queda, e ainda sem o efeito da saída da Ryanair, no final deste mês.

A queda é tão preocupante quando olhamos para os últimos meses de 2025, de Setembro a Dezembro, em que registamos menos 5.500 hóspedes e menos 19 mil dormidas do que no período homólogo.

No mesmo trimestre do ano anterior tínhamos registado um crescimento de 33 mil hóspedes e 130 mil dormidas.

Já nos meses de Verão do ano passado os sinais de alerta estavam todos lá, com um forte abrandamento no crescimento, registando-se apenas 5% de aumento (2% em Agosto), impulsionado pelos estrangeiros (+8%) e uma quebra inédita nos nacionais (-0,6%).

As campainhas deviam ter disparado na Secretaria do Turismo e as tropas tocadas a rebate para preparar um reforço de programação e promoção  no Inverno.

Em vez disso, reduziu-se nas verbas destinadas à promoção, não soubemos aguentar a Ryanair, não se criaram alternativas e fomos para a Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) sem nenhuma orientação específica para os próximos tempos, a não ser uma inusitada rota Terceira/Funchal, apresentada com pompa e circunstância por Artur Lima e Berta Cabral, numa sessão de pazes do Vice-Presidente com a SATA. 

Recorde-se que poucos meses antes o CDS tinha desancado na transportadora regional por causa da operação natalícia, acusando ainda Berta Cabral de “não nutrir pela Terceira grande simpatia” e que “a SATA não é de Berta Cabral”. 

Os dois, lado a lado, no pavilhão da SATA, voltaram a desentender-se, a propósito das OSP (Obrigações de Serviço Público para as ilhas não liberalizadas), com a governanta a elogiar o Governo da República por, finalmente, aprovar as OSP, e o Vice-Presidente a dizer que “não era favor nenhum” e a desancar no Governo da República por causa da trapalhada do Subsídio Social de Mobilidade. 

Por entre “partos” e “forceds”, Artur Lima ainda mandou uns recados a José Manuel Bolieiro e Miguel Albuquerque, sugerindo que, “em vez de cimeiras insulares implementem medidas concretas” e que deixassem de dar “colinho”, como até agora, ao “centralismo serôdio e bafiento”.

O político com mais experiência no activo sabe do que fala ao pedir “mais firmeza”, coisa que se houve na rua todos os dias.

A saída da Ryanair vai ter um impacto enorme nos fluxos turísticos e na acessibilidade dos residentes, a que se junta, agora, os efeitos da guerra – uma tempestade perfeita!

A boa notícia é que os fluxos do turismo para o Médio Oriente estão a ser reorientados para o Ocidente, podendo beneficiar destinos europeus alternativos, entre os quais os Açores.

A má notícia é que a guerra também poderá trazer impactos económicos de monta, criando inflação devido à crise petrolífera, o que significa que os preços vão aumentar em toda a cadeia do turismo.

Se o nosso destino já estava a ficar caro, imagine-se agora com o impacto inflacionista, o desaparecimento de uma companhia a preços baixos e as alternativas entregues à SATA e TAP, tal como em 2014, com a agravante das duas companhias estatais estarem piores do que há uma década, porque falidas e em processo de privatização.

É um recuo no tempo que poucos imaginavam e que nos leva ao “pessimismo dramático” que Bolieiro não pretendia.

Foi desmentido no dia seguinte pelas estatísticas de Janeiro, um balde de água fria na euforia dos governantes e autarcas na BTL, consolados apenas pelas enormes comitivas do licor e biscoitos, antevendo-se o que poderá ser o início de uma crise séria na economia açoriana.

É que não é só a salvaguarda do sector que está em jogo.

É, também, a sobrevivência política de José Manuel Bolieiro e da sua coligação.

 

0 Comments

Related Articles