A Segunda Guerra Mundial acabou há 80 anos
Completaram-se 80 anos sobre o dia 2 de setembro de 1945, dia em que o imperador Hirohito anunciou aos japoneses a rendição do Japão pondo fim à Segunda Guerra Mundial, que na Europa tinha já terminado com a rendição da Alemanha a 7 de maio desse ano. O Japão entrara na guerra aliando-se ao Eixo, a aliança político-militar formada pela Alemanha Nazista de Adolf Hitler e a Itália Fascista de Benito Mussolini visando expandir o seu império.
Os japoneses já tinham ocupado uma boa parte das Coreias e da China (onde a ocupação japonesa provocou a morte de 25 milhões de civis e ainda hoje é uma má memória) e pretendiam levar a cabo ações militares contra as Índias Orientais Holandesas (atual Indonésia), a Indochina Francesa (que compreendia os atuais Vietname, Cambodja e Laos), e os territórios ultramarinos do Reino Unido, que incluiam Malásia, Singapura e Hong Kong.
O principal obstáculo da expansão imperial japonesa no Sudeste Asiático era a frota do Pacífico dos Estados Unidos e os estrategas nipónicos decidiram atacar a base naval americana de Pearl Harbor em Honolulu, ilha de Oahu, no Hawaii, embora até então os Estados Unidos fossem neutros.
O ataque foi realizado sem prévia declaração de guerra, a 7 de dezembro de 1941. Pearl Harbor foi bombardeada por 353 aviões japoneses lançados de seis porta-aviões. Dezoito navios de guerra dos Estados Unidos foram danificados, quatro afundaram-se, 188 aviões foram destruídos, 2.403 americanos morreram e 1.178 ficaram feridos.
O ataque levou os Estados Unidos a entrarem finalmente na guerra tanto na Ásia como na Europa, aliando-se ao Reino Unido e à União Soviética.
O Eixo estava nas últimas. Em Itália, a resistência capturou e executou Mussolini a 28 de abril de 1945 e, dois dias depois, em Berlim, Hitler suicidou-se com um tiro de pistola na cabeça e a Alemanha rendeu-se a 7 de maio de 1945.
Mas se na Europa a derrota da Alemanha resultou do esforço conjugado dos americanos, britânicos e soviéticos, no Extremo Oriente foram apenas os Estados Unidos que forçaram o Japão a render-se, depois das bombas atómicas lançadas sobre Hiroxima a 6 de agosto de 1945 e sobre Nagasaqui no dia 9, com perto de 200 mil mortos.
A rendição foi assinada a 2 de setembro a bordo do navio americano USS Missouri, na baía de Tóquio. Seguiu-se a ocupação americana e o julgamento de altas figuras japonesas com várias condenadas à morte, entre as quais o general Hideki Tojo, primeiro-ministro durante a maior parte do período da guerra. Hirohito, pelo simbolismo da figura do imperador para o povo japonês, foi poupado ao tribunal de guerra e a decisão facilitou a criação de uma aliança entre Washington e Tóquio que ainda perdura.
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) provocou mais de 40 milhões de mortos, entre os quais 416.800 americanos e um dos primeiros a cair foi Charles M. Braga Jr., 22 anos, em Pearl Harbor.
Nascido em Fall River a 19 de março de 1934, filho de um micaelense natural das Capelas, Charles Braga fazia parte da guarnição do navio Pennsylvania, que foi atingido por uma bomba de 500 libras. Foi o primeiro residente de Fall River morto na guerra e, em 1965, foi atribuído o seu nome à Ponte Braga, sobre o rio Taunton, em Fall River.
Outro lusodescendente morto em Pearl Arbor foi John Lacerda, que fazia parte da guarnição do navio USS Phelps. E da lista dos 68 civis mortos no ataque constam os seguintes apelidos portugueses: John Carreira, 51 anos, capitão dos bombeiros de Honolulu; Peter Souza Lopes, 33; Emma Gonsalves, 34; e as irmãs Gertrude Ornellas, 16 anos, e Barbara Ornellas, oito.
Após o ataque a Pearl Harbor, a Marinha dos Estados Unidos recrutou 47 embarcações da frota pesqueira de San Diego, muitas das quais propriedade de portugueses e com tripulações portuguesas. As embarcações foram utilizadas como barcos de patrulha e caça-minas no Pacífico, e a frota ficou conhecida como barcos “Yippie” ou “Pork Chop Express”, como lhes chamavam os portugueses.
Os navios eram pintados de cinzento, numerados como YP (Patrulha de Pátio) e equipados com metralhadoras de calibre 50, canhões de 20 milímetros e, alguns, cargas de profundidade. Quando a Marinha pediu voluntários para tripular os barcos, 600 homens, a maioria portugueses, ofereceram-se para a arriscada tarefa.
Os barcos “Yippie” transportavam a sua carga até às zonas de guerra de Midway e Guadalcanal e estas missões colocavam os barcos e as tripulações em perigo. Entre 1942 e 1945, um total de 16 barcos foram perdidos em ataques, acidentes ou tempestades e em alguns casos, as tripulações morreram.
Muitos capitães e tripulantes foram reconhecidos pelos seus serviços e bravura perante o perigo. Um deles foi o capitão Joaquin Theodore, que nasceu na ilha do Pico e, aos 17 anos, chegou à Califórnia e acabou por se tornar pescador em San Diego. Foi-lhe dado o comando do YP 36 e, além de transportar fuzileiros para Guadalcanal e resgatar centenas de marinheiros da água, foi ferido num ataque japonês. Pela sua bravura, Joaquin Theodore recebeu várias medalhas militares, incluindo a Purple Heart.
Milhares de luso-americanos integraram as Forças Armadas dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, com contribuições significativas das comunidades da Costa Leste em Massachusetts e Rhode Island, nomeadamente na 26ª Divisão de Infantaria conhecida como Divisão Yankee, que foi fortemente recrutada em Massachusetts e que combateu em várias frentes europeias.
Dois combatentes lusodescendentes da Segunda Guerra Mundial mereceram a Medalha de Honra, a mais prestigiosa condecoração militar dos Estados Unidos: os soldados Harold Gonsalves e George J. Peters.
Harold Gonsalves nasceu em 1926 em Alameda, Califórnia. Fazia parte do 15º Regimento de Marines que ocupou Okinawa. No dia 15 de abril de 1945, um japonês lançou uma granada de mão sobre o grupo de Gonsalves, que se lançou corajosamente sobre o explosivo e evitou que os seus camaradas fossem feridos. Tinha 19 anos quando morreu e o presidente Harry Truman conferiu-lhe a Medalha de Honra, que foi recebida pela irmã.
George J. Peters era de Cranston, Rhode Island. Fez parte do 507º Regimento de Infantaria e foi dos primeiros paraquedistas americanos que saltaram na Alemanha a 24 de março de 1945. Peters atacou um ninho de metralhadoras alemãs, armado apenas com a sua carabina e uma granada de mão. Deu cabo dos alemães, mas foi mortalmente ferido. O seu heroísmo salvou a vida a muitos americanos e valeu-lhe a Medalha de Honra. Peters está sepultado num cemitério militar americano na Holanda e dá hoje o nome a uma escola elementar em Cranston.
Mas nem só de morte são feitas as guerras e uma das mais belas histórias de amor da Segunda Guerra envolveu Dorothy Elizabeth Schobert e Eugene Simas. Dorothy era uma linda enfermeira nascida em 1917 em Yorkville, Illinois, numa fazenda a sudoeste de Chicago onde a sua família plantava milho e criava suínos. Eugene era um simpático filho de um baleeiro açoriano que imigrara para Gloucester, Massachusetts. Alistou-se no Corpo Médico do Exército e, como era também músico talentoso, tocava na banda do corpo médico.
Os caminhos de ambos cruzaram-se em Orã, durante o desembarque das tropas americanas no norte de África no final de 1942 e Eugene decidiu nessa altura casar com Dorothy mesmo antes dela o conhecer.
Voltaram a encontrar-se, desta vez durante a batalha de Anzio, que se prolongou de janeiro a julho de 1944 e já eram ambos tenentes do corpo médico. Dorothy estava colocada num hospital de Nápoles e Eugene, que era também belíssimo cantor, fez-lhe uma romântica serenata que conquistou a jovem de Chicago.
Concordaram não perder tempo e casar o mais rápido possível, mas havia um problema: Dorothy queria um vestido de noiva e não havia lojas de modas em Nápoles. Foi quando Eugene se lembrou das freiras francesas de um convento existente na cidade e as freirinhas prontificaram-se a costurar o vestido feito com uma pilha de pára-quedas de seda e nylon que o noivo arranjou.
Em 26 de maio de 1945, a tenente Dorothy Schobert e o tenente Eugene Simas casaram em Treviso, perto de Veneza. Um jornal local relatou que “o padeiro da cidade fez um bolo de três camadas com sanduíches, ovos cozidos e amendoim, que foi servido na receção realizada numa tenda do hospital onde a noiva estava colocada”.
Acrescente-se que um dentista do exército fez as alianças com ouro dentário e moldou as figuras de noivos que foram colocadas no topo do bolo de casamento com cera dental.
O casal passou a lua de mel em Stresa no Lago Maggiore, na região dos lagos italianos, na cabana de um fazendeiro italiano que descavou uma preciosa garrafa de Asti Spumante que ele tinha enterrado para celebrar a chegada dos aliados.
Depois da lua de mel, Dorothy e Eugene separaram-se e só voltaram a juntar-se em 1946, quando ambos retornaram aos Estados Unidos e fixaram-se em Gloucester.
Feita em Itália, Ann Simas (Schoenacher) nasceu em Gloucester em março de 1946 e fez a sua primeira comunhão na igreja portuguesa local (Nossa Senhora da Boa Viagem). Seguiu-se um irmão, Paul.
Em 1952, a família Simas mudou-se para Miami e Eugene Simas resolveu tornar-se o romântico cantor Gene Simms, que todas as noites, depois do jantar, vestia o smoking e ia cantarolar os sucessos do Frank Sinatra, Perry Como e outros para os turistas no Eden Roc e no Hotel Fontainbleau, em Miami.
Em 1991, Dorothy e Eugene Simas reformaram-se e mudaram-se para On Top of the World, uma comunidade de aposentados em Ocala. A sua união memorável, que começara no norte de África durante a guerra, terminou na Flórida. Dorothy Simas morreu em 2001 e Eugene faleceu em 2009.
Ann Simas Schoenacher, que é professora e vive em Saint Petersburgo, conserva o vestido de noiva da mãe, costurado à mão por freiras francesas e feito com pára-quedas americanos.
Regata Internacional de Baleeiros Açorianos homenageia fundadores
A herança baleeira dos Estados Unidos e de Portugal é mantida pela Azorean Maritime Heritage Society de New Bedford, associação que poderá traduzir-se por Sociedade do Património Marítimo dos Açores (AMHS).
Fundada em 1997 e com sede na cidade de New Bedford, a Azorean Maritime Heritage Society promove a cultura açoriana na comunidade açor-americana da Nova Inglaterra e o património marítimo partilhado há mais de 150 anos entre os Açores e New Bedford, que foi o maior centro baleeiro do mundo.
Hoje em dia existem apenas 63 botes baleeiros, três dos quais (Pico, Faial e Bela Vista), estão em New Bedford ao cuidado da AMHS e os membros da sociedade remam esses coloridos botes de 12 metros todos os verões na baia de New Bedford, dando vida às tradições marítimas e promovendo o património baleeiro.
Uma das mais importantes iniciativas da AMHS é uma Regata Internacional de Botes Baleeiros Açorianos realizada desde 2004 e que tem lugar de dois em dois anos alternando entre New Bedford e a Horta, nos Açores.
A regata foi idealizada por João Carlos Cardoso Pinheiro e José Soares, representantes da Azorean Maritime Heritage Society, em conjunto com João Garcia, na época membro da Junta de Freguesia do Capelo, e a primeira prova teve lugar em 2004, em New Bedford, tendo participado uma tripulação da Junta de Freguesia do Capelo.
A 13ª Regata Internacional de Baleeiros Açorianos teve lugar de 2 a 6 de julho de 2025 nos Açores, e competiram cerca de meia centena de tripulantes em corridas de vela e remo.
A Regata Internacional de Botes Baleeiros transcende a mera competição desportiva, consolidando-se como elo cultural, social e histórico entre as cidades irmãs de New Bedford e da Horta e este ano a organização açoriana da prova decidiu prestar homenagem aos membros da Azorean Maritime Heritage Society que estiveram na sua origem, José Soares e João Cardoso Pinheiro.
A Taça de Remo, ou seja o troféu da prova de remo, foi dedicado a José Soares, que é natural da ilha do Pico, e João Cardoso Pinheiro, natural do Faial, foi homenageado com a atribuição do seu nome à taça da prova de vela.





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