A política com cinismo

by | May 13, 2026 | Crónica do Atlântico

 

Tal como a geringonça de António Costa, as coligações nunca funcionam quando o ego dos líderes ou os interesses das clientelas partidárias se sobrepõem ao bem comum.

A coligação de José Manuel Bolieiro já tinha o destino traçado no primeiro mandato, onde era notória a sobreposição de lideranças, com intromissões em pastas alheias e que culminou com aquele estrondoso bater de porta de Clélio Meneses, na Secretaria da Saúde, “por divergências insanáveis”.

O ambiente de cinismo coreografado que se vive no interior da coligação é bem conhecido e muito comentado nos bastidores.

Como refere Clélio Meneses, num comentário bem a propósito de há poucos dias, “o cinismo, a falsidade, a deslealdade, a mentira, a dualidade de ter uma postura (pretensamente amigável) pela frente e outra, contrária (efectivamente provocatória e ofensiva), nas costas é reveladora e execrável em qualquer dimensão humana, incluindo na política”.

Se a política açoriana fosse um casamento, estaríamos no momento em que um dos cônjuges anuncia, a meio do jantar de aniversário, que já marcou o divórcio para daqui a dois anos, mas que, até lá, espera que a sopa continue quente e a cama partilhada. 

É óbvio que não vai dar certo e não vale a pena disfarçar, porque uma equipa coesa não funciona com ataques e acusações públicas de má governação de um dos parceiros, deixando perceber onde já vai a falta de lealdade e a campanha de “roupa suja” a que vamos assistir na próxima campanha eleitoral.

 

No meio deste turbilhão interno perdeu-se o tino na governação, com tudo a andar para trás, para sofrimento dos cidadãos, como é este episódio escandaloso de 50 anos de governo próprio, que é termos, neste momento, o preço dos combustíveis mais caro de todo o país.

A declaração de Bolieiro é um “sincericídio” tático, mas está visto que não vai funcionar até, pelo menos, à discussão do próximo Plano e Orçamento, em que a continuidade do calvário vai ficar nas mãos do Chega.

Até lá, vamos assistir a uma comédia de costumes onde todos fingem que estão a lutar pelos Açores, quando na verdade estão apenas a discutir quem fica com a guarda dos votos e quem mantém o direito de usar o carro oficial até à última badalada do mandato.

 

Este “deixar queimar em lume brando” agrada à oposição, mesmo que, no seio do PSD, ainda há quem sonhe com outro tipo de apoio, negociando com o Chega e a IL, e dispensando os outros parceiros.

Trata-se de um cenário impensável, para quem conhece Bolieiro, incapaz de rasgar a “palavra dada”.

Portanto, vamos ter coligação por mais uns meses.

Governo é que não!

 

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