A nossa ‘Sagres’ está quase a fazer 90 anos

by | Aug 19, 2026 | A Descoberta

 

O ‘Mircea’ esteve esta semana no Tejo. Tal como muitos veleiros que celebraram os 250 anos dos EUA, o navio-escola romeno cruzou o Atlântico a caminho de casa, e depois de uma escala nos Açores fez esta em Lisboa. E é evidente a semelhança com a ‘Sagres’. É que ambas as barcas fazem parte das “cinco irmãs”, como me relembrou o comandante Silviu-Marius Moraru. 

São veleiros construídos nos estaleiros Blohm+Voss, em Hamburgo. Ainda em julho, quatro delas disputaram entre Nova Iorque e Boston o troféu ‘Five Sisters’, recriando uma regata de 1976, quando os EUA celebraram dois séculos. Dessa vez foram as cinco a competir, pois o ‘Gorch Fork I’ ainda não passara a navio-museu.

A vencedora da regata deste ano foi a “irmã mais nova”, o ‘Gorch Fock II’, construído em 1958 no mesmo estaleiro e com base no mesmo projeto, mas mais moderna. As outras barcas datam dos anos 1930 e têm histórias complicadas. O ‘Mircea’ foi construído em 1938 para a Roménia, e chegou a ser apreendido pela URSS, que depois o devolveu. O próprio ‘Gorch Fork I’ foi tomado pelos soviéticos, que o rebatizaram ‘Tavarich’. Foi com esse nome que competiu em 1976. Depois da desagregação da URSS, o navio não ficou para a Rússia mas sim para a Ucrânia, que o vendeu à Alemanha. Está hoje exposto em Stralsund, com o nome original.

Os atuais ‘Eagle’ (antigo ‘Horst Wessel’), navio escola da Guarda Costeira americana, e ‘Sagres’, foram também apreendidos no final da Segunda Guerra Mundial. Ambos pelos EUA. A ‘Sagres’, construida em 1937, e que se chamava ‘Albert Leo Schlageter’, foi vendida pelos americanos ao Brasil, que lhe deu o nome de ‘Guanabara’. Em 1961, Portugal comprou o veleiro, rebaptizando-o de ‘Sagres’. Já antes, a Marinha Portuguesa tivera um navio-escola com o mesmo nome.

Numa entrevista que lhe fiz, o comandante José Eduardo de Sousa Luís, destacou o papel de embaixador itinerante da ‘Sagres’, e relembrou a escala em New Bedford: “Foi, sem dúvida, memorável. Constituiu uma enorme surpresa, mas também uma profunda satisfação, encontrar uma comunidade portuguesa tão numerosa, dinâmica, empreendedora e orgulhosa de Portugal.” 

Em Lisboa, também o ‘Mircea’ abriu para visitas, e a comunidade romena em Portugal correspondeu. As “irmãs”, belos veleiros de três mastros, sabem fazer valer o seu charme. E a nossa ‘Sagres’ para o ano faz 90 anos!

* Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’.

 

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