A noite mais breve

by | Dec 23, 2025 | Peixe do Meu Quintal

 

Entramos na época onde o ambiente universal medita sobre o bem-estar e sobretudo no desejo de Paz entre as nações. Desta ementa, é essencial acrescentar o Amor sem o qual nada é consumado.

Esta estória passa-se na noite de 24 de dezembro no início da década de 1990, na pequena cidade de Hull – hoje a grande Cidade de Gatineau – situada mesmo diante de Otava (Ottawa) capital canadiana, na margem oposta do rio Outaouais. 

Nessa noite, ele e a sua companheira Maria, caminhavam pelas ruas do bairro, sós, os dois. Cúmplices de um romance amoroso, eram responsáveis pelo corte de relações que as famílias de ambas as partes haviam decidido decretar-lhes. A resiliência sobreviveu a muitas privações com muito custo. Depois de privilegiados pelas vidas anteriores, eram agora condenados pela moral social reinante. Sem desistir, a situação financeira passava por maus bocados e todos os cêntimos eram contados para o essencial, a ponto de terem de passar o Natal sem os rituais da ceia, sem a família que os ignorou, sem o calor dos mais próximos. Ninguém. Só eles os dois.

Com a sábia intuição feminina, a sua companheira decidiu fazer essa caminhada, em vez de ficarem em casa remoendo a custo todas as angústias. Sacudir a solidão, era a ideia que primava. Bem agasalhados para temperaturas negativas dos invernos canadianos, saíram. 

Passeando pelas ruas praticamente desertas, o silêncio era apenas cortado de quando em vez pelo motor de um carro-patrulha policial ou outros serviços. Toda a cidade estava recolhida no calor do lar, que nessa noite ganha especial relevo.

Na rua, praticamente ninguém passeia sob uma leve camada de neve que caía suave, como que lembrando a noite que convida todos a estarem dentro de casa. E, no entanto, para aqueles dois, caminhar era o único presente daquela noite, além do grande amor que os unia.

Um cheiro agradável de comida e ruído de alegrias saía pela porta de um edifício de uma das ruas principais. Alguém à entrada dirigiu-lhes a palavra: “Não querem partilhar um pouco do Natal connosco?” 

Olharam-se mutuamente e a resposta de aprovação foi um sorriso. Entraram. Lá dentro, o salão enchia de gente, alegria, partilha, sorrisos acompanhados de acaloradas boas-vindas ‘bienvenue chez vous’.

De imediato indicaram um lugar à mesa, comprida e recheada de carnes, mariscos, saladas e frutas. Sentaram-se. Comeram ao mesmo tempo que conversavam com todos. Convencidos de que se tratava de alguma festa particular em que simplesmente convidavam quem naquela noite fria quisesse compartilhar a consoada, quedaram-se a admirar o espírito que reinava. Uma meiga e natural solidariedade. 

Foi então que a sua companheira reparou no cartaz que encabeçava a parede de fundo daquela sala, que dizia:

“Le Gîte Ami a ouvert ses portes le 23 décembre 1983 dans le secteur Hull. Sa naissance découle d’une prise de conscience face aux problèmes d’hébergement de certaines personnes en difficulté de l’Outaouais.” 

O que traduzido literalmente dá: O Gite Ami abriu as suas portas a 23 de dezembro de 1983 em Hull. Resultou da tomada de consciência sobre a problemática habitacional de certas pessoas com dificuldades na região.

Alertados para este importante pormenor, o casal chamou a atenção de que não fazia parte da população em causa. Interrompendo, os responsáveis responderam: “Fomos nós que os convidamos a entrar. É importante para ambos os lados da sociedade que passemos todos juntos esta consoada. Por favor, se não têm nenhum compromisso, fiquem connosco.”

E ficaram. Aquilo não era simpatia ou amabilidade. Simplesmente a personificação da noite de Natal. Do frio que fazia lá fora, passaram ao calor dos corações que sem perguntarem, os acolheram. 

 

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