A memória migrante constrói-se no movimento, mas também no esquecimento. Entre a travessia e a instalação, entre a língua herdada e a língua adotada, forma-se uma identidade frágil, muitas vezes defensiva. Quando a recordação da partida se dilui, o lugar conquistado tende a ser protegido como fronteira. O voto da emigração portuguesa nos Estados Unidos inscreve-se nesse gesto ambíguo: afirma pertença ao país de origem, ao mesmo tempo em que se recusa a reconhecer, no outro, o reflexo da própria história. É nesse espaço de esquecimento identitário que a extrema-direita encontra terreno fértil — não como rutura, mas como continuidade silenciosa de medos não elaborados.
A leitura dos resultados da eleição presidencial portuguesa entre os eleitores residentes nos Estados Unidos exige ir além da contabilidade eleitoral. O que emerge do mapa consular norte-americano é um fenómeno político mais profundo: a consolidação de uma viragem conservadora e identitária em amplos setores da diáspora portuguesa, em consonância — e, por vezes, em radicalização — com tendências que se vêm afirmando no próprio território nacional.
No conjunto dos Estados Unidos, André Ventura foi o candidato mais votado, com 44,33%, superando expressivamente António José Seguro, que obteve 24,04%. Seguiram-se João Cotrim de Figueiredo, com 13,37%, e Luís Marques Mendes, com apenas 9,22%.
Somados, os votos em candidatos claramente posicionados à direita e à extrema-direita ultrapassam dois terços do total, revelando uma inclinação ideológica muito marcada do eleitorado efetivamente participante. Este dado é ainda mais significativo quando enquadrado por uma abstenção estrutural extrema, próxima de 98%, o que indica que o universo eleitoral ativo é reduzido, altamente motivado e politicamente polarizado. Não vota “a comunidade”; vota um segmento específico dela.
Neste sentido, o voto da diáspora nos EUA funciona menos como espelho fiel da diversidade social portuguesa no estrangeiro e mais como amplificador de tendências ideológicas duras, em que o voto de protesto e a identidade política se sobrepõem à avaliação institucional do cargo presidencial.
A análise por jurisdição consular reforça e territorializa esta leitura.
Newark, o maior e, historicamente, um dos mais organizados polos da comunidade portuguesa nos EUA, deu a Ventura uma vitória esmagadora: 66,86%, relegando Seguro a 15,43%. Washington, D.C. (que inclui muitos estados do sul-americano) seguiu um padrão semelhante, com Ventura alcançando 49,10%, mais do dobro do resultado de Seguro (20,94%). Providence e New Bedford, símbolos clássicos da imigração açoriana, operária e industrial, também favoreceram Ventura de forma clara (51,52% e 43,16%, respetivamente).
Em contraste: Nova Iorque apresentou um cenário singular, praticamente tripartido entre Seguro (27,76%), Ventura (27,40%) e Cotrim de Figueiredo (26,33%), o que sinaliza um eleitorado urbano mais plural, menos capturado por uma narrativa única. Boston e São Francisco foram as únicas exceções nacionais, com vitórias claras de Seguro (38,93% e 45,60%). Em São Francisco, Ventura ficou reduzido a 8%, um contraste absoluto com o resto do país.
O mapa é revelador: a Costa Oeste e alguns centros urbanos densos e diversificados mantêm uma inclinação mais moderada, enquanto os velhos polos industriais e pós-industriais da emigração portuguesa se deslocaram de forma acentuada para a extrema-direita.
A abstenção continuará elevada na emigração enquanto o voto depender da presença física nos consulados dispersos por um território continental. Mas os dados mostram algo mais: a abstenção é agravada quando o voto exige deslocações de horas ou mesmo dias, com custos económicos e profissionais significativos. Por contraste, zonas urbanas com maior densidade populacional portuguesa e maior proximidade consular — como Boston, São Francisco ou Nova Iorque — registam mais votos absolutos e maior diversidade política. A conclusão é inequívoca: a geografia condiciona a participação, e a participação condiciona o perfil ideológico do voto.
Historicamente, a emigração portuguesa — e, particularmente, a açoriana — esteve associada a valores de mobilidade social, solidariedade comunitária e, em muitos casos, progressismo cívico. Esse quadro alterou-se de forma gradual, porém consistente. À medida que as comunidades envelheceram, estabilizaram-se economicamente e se afastaram do contacto direto com novas vagas migratórias, o discurso da ordem, da distinção moral e da pertença exclusiva ganhou centralidade. A política deixa de ser memória e passa a ser fronteira.
Este contexto ajuda a explicar não só a vitória de Ventura, mas também o bom desempenho relativo de Cotrim de Figueiredo e o colapso eleitoral de Marques Mendes, apesar da presença histórica do PSD nas comunidades portuguesas dos EUA. A direita institucional revelou-se incapaz de competir com uma direita identitária, emocional e polarizadora.
O dado mais perturbador destes resultados é simbólico e político: imigrantes e descendentes de imigrantes votam massivamente por um candidato anti-imigração.
Ventura construiu a sua campanha em Portugal com slogans como “Isto não é o Bangladesh” e ataques diretos ao acesso de imigrantes a apoios sociais — uma retórica dirigida sobretudo às novas vagas migratórias. Ainda assim, essa mensagem encontrou eco numa diáspora formada, em grande parte, por famílias que fugiram da pobreza, da ditadura e da ausência de oportunidades.
Nos Estados Unidos, este paradoxo assume contornos ainda mais nítidos: muitos portugueses, incluindo os açorianos, chegaram clandestinamente, trabalharam por anos na economia informal e só mais tarde regularizaram a sua situação. Hoje, não é raro que esses mesmos percursos sejam apagados da memória coletiva, substituídos por discursos de rejeição dos “ilegais”, frequentemente acompanhados de afirmações públicas de orgulho pela própria legalização — como se esta tivesse sido um mérito moral e não o resultado de contextos históricos específicos.
Trata-se de um fenómeno conhecido noutras diásporas: uma vez alcançada a estabilidade, a imigração deixa de ser memória partilhada e passa a ser percecionada como ameaça, concorrência ou perda de estatuto. O voto da emigração portuguesa nos Estados Unidos não decide a presidência da República, mas revela algo mais duradouro: a erosão da memória migrante como fundamento ético da política.
Entre a recordação da partida e o medo da substituição, muitos optaram pelo segundo. A extrema-direita prospera precisamente nesse intervalo — quando a história pessoal é silenciada e o medo se transforma em identidade política.
A diáspora é, por natureza, uma narrativa em trânsito. Quando essa narrativa deixa de se lembrar do ponto de partida, transforma-se em muralha. O voto que hoje exclui é o mesmo que ontem pediu passagem. E talvez seja esse o drama silencioso destas comunidades: não o de terem votado à direita, mas o de terem esquecido que a sua própria história foi escrita com malas improvisadas, documentos ausentes e esperança clandestina. Quando a memória abdica da ética, a política torna-se apenas medo organizado — e o futuro, uma fronteira cada vez mais estreita.





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