O que assistimos na noite eleitoral de domingo foi apenas a confirmação de que há uma insurreição eleitoral em curso, sem que os partidos tradicionais o percebam.
As lideranças partidárias acham que ainda vivemos no tempo da colagem de cartazes e distribuição panfletária, sem que percebam que há uma nova volumosa faixa eleitoral, jovem, sem fidelização a partidos, volátil nas escolhas, focada nos meios digitais e que pode decidir resultados eleitorais.
Foi o que aconteceu no país, particularmente nos Açores e na Madeira, bastiões dos partidos do arco da governação, mas cujos eleitores não obedeceram às orientações dos seus partidos, especialmente os apelos do PSD para que votassem no seu candidato.
A insurreição está em marcha e terá marcas em futuros actos eleitorais, caso os partidos tradicionais não tenham emenda e continuem a fazer de conta que não é com eles.
Veja-se o caso dos Açores.
Calcula-se que existem na Região mais de 24 mil jovens em idade de votar, todos eles nascidos já depois do 25 de Abril e sem ideia do que foram os primeiros anos autonómicos, muito menos dos primeiros governos de Mota Amaral.
É uma geração que não liga aos meios tradicionais e com quem se pode comunicar apenas através das plataformas digitais, com permanente ligação às redes sociais.
São bombardeados diariamente com imensa desinformação, não se fidelizam com partidos, têm um discurso irritado e tendem a extremar as suas posições sobre os problemas e as dificuldades que enfrentam no dia-a-dia das suas vidas, que não são poucas.
Se considerarmos que o universo dos que vão às urnas (não os inscritos), nos Açores, anda à volta, em média, dos 100 mil eleitores, essa faixa de 24 mil ou mais jovens tem um peso decisivo em qualquer acto eleitoral.
Não admira, por isso, a adesão crescente ao projecto do Chega e de André Ventura, assim como o resultado obtido em S. Miguel.
O líder populista é mesmo um fenómeno na Região em matéria de crescimento de votos.
Marcelo Rebelo de Sousa, que atingiu um dos valores mais altos nas eleições na Região, passou de 40 mil votos em 2016 para 56 mil em 2021 (uma subida de 16 mil votos), quando André Ventura, em metade de uma década, cresceu 17 mil votos de 2021 para 2026, batendo todos os recordes de crescimento rápido numa eleição.
O voto jovem teve uma influência crucial neste fenómeno, não sendo por caso que André Ventura tenha atingido os maiores valores em concelhos de S. Miguel onde há maior preponderância de voto jovem, a que se junta o facto de possuir maior taxa de adesão em zonas rurais e de menor poder de compra, como comprova a sondagem da Universidade Católica para outras zonas do país.
Já agora, por mera curiosidade e que cimenta esta tese, houve duas freguesias em S. Miguel que deram a Ventura maioria absoluta, Fenais d’Ajuda e Achadinha, o que dispensaria uma segunda volta se os portugueses pensassem como os eleitores daquelas duasprofundas localidades do norte da ilha.
Miguel está-se a tornar num caso eleitoral muito sério para os partidos tradicionais, com o Chega a não alcançar valores mais altos nas eleições regionais por falta de quadros credibilizados, o que não impede, mesmo assim, o seu crescimento de eleição em eleição, mesmo enfrentando casos como o do deputado que roubava malas.
Se António José Seguro quiser recuperar S. Miguel na segunda volta, não pode percorrer a ilha acompanhado pelos dirigentes do PS.
Francisco César e a sua equipa, por maior que seja a tentação de se colarem à vitória do candidato, terão de se afastar, caso contrário o eleitorado que votou em Mendes e Cotrim também se afasta de Seguro.
Quanto a Bolieiro, está no mesmo cerco de Montenegro: não pode apoiar Seguro, afastando o Chega, para depois ir bater à porta de Ventura e Pacheco para negociar Orçamentos e outros apoios parlamentares.
É mera táctica política, provavelmente com consequências eleitorais a curto ou médio prazo, mas foram eles que escolheram – muito mal – o candidato que teimosamente impuseram aos seus militantes, que responderam com a insurreição.
Que ao menos aprendam a lição: os partidos não são donos dos eleitores.





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