Na próxima segunda-feira, 4 de julho, os Estados Unidos celebram 250 anos da declaração de independência, decisão que resultou da insatisfação dos colonos com os impostos e restrições comerciais impostas pela Coroa Britânica às treze colónias britânicas na costa atlântica da América do Norte (Massachusetts, New Hampshire, Connecticut, Rhode Island, New York, New Jersey, Delaware, Pennsylvania,Virginia, Maryland, North Carolina, South Carolina e Georgia).
Assinada a 4 de julho de 1776 pelos representantes das colónias britânicas reunidos em Filadélfia, a declaração de independência é um texto notável inspirador do Bill of Rights da Constituição dos Estados Unidos, que é composta por sete artigos fundamentais e 27 emendas surgidas ao longo dos tempos, escrita originalmente para os 2,5 milhões de habitantes das 13 colónias (os índios e os escravos negros não contavam) e que ainda serve para os atuais cerca de 349 milhões de habitantes.
Escrita por Thomas Jefferson, delegado da Virginia no Segundo Congresso Continental, a declaração de independência dos Estados Unidos afirma que todos os homens possuem direitos inalienáveis como a vida, a liberdade e a busca pela felicidade, e viria a inspirar o surgimento de várias repúblicas e as independências na América Latina.
Um pormenor que interessa particularmente aos portugueses é que a assinatura da declaração de independência no Independence Hall, na cidade de Filadélfia, estado da Pensilvânia pelos 56 delegados que compunham o Segundo Congresso Continental, foi brindada com vinho da Madeira, escolha que não é surpresa, uma vez que desde 1640 que as colónias britânicas importavam vinho madeirense.
Os colonos ingleses eram bons bebedores, mas não produziam vinho em escala comercial, optando por importar vinhos europeus, mas devido às leis coloniais só podiam vir em navios britânicos e tinham de ter origem em portos britânicos. Contudo, em 1662, quando o rei inglês Carlos II casou com a princesa portuguesa Catarina de Bragança, a Madeira foi autorizada a vender o seu vinho diretamente a qualquer colónia britânica e as colónias da América passaram a importar um quarto da produção madeirense.
Como a Grã-Bretanha taxava fortemente outros vinhos europeus, o vinho da Madeira tornou-se o mais consumido. Já agora, acrescente-se que os colonos bebiam bem, tudo era pretexto para um copo, bebia-se nos casamentos, nos batizados e nos funerais. A cerveja era consumida por todas as idades, incluindo bebés, que as mamãs embriagavam para os manter a dormir e não perderem tempo com eles.
Os Pais Fundadores, os circunspectos cavalheiros de peruca que conduziram a independência dos Estados Unidos, eram bons bebedores e em 1774, numa carta para a esposa, Abigail, John Adams, que viria a ser o segundo presidente, relatou que depois dos enfadonhos debates no Primeiro Congresso Continental, os delegados ficavam algumas horas a “beber Madeira, Claret e Burgundy”.
Não existe registo histórico da quantidade de vinho da Madeira consumido em 4 de julho de 1776, mas uma outra evidência histórica é esclarecedora: celebrando a assinatura da Constituição na Pennsylvania State House, 55 delegados deram uma festa na City Tavern e consumiram 54 garrafas de vinho da Madeira, 60 garrafas de Claret (vinho tinto de Bordéus), 22 garrafas de Porter (cerveja preta), 12 garrafas de cerveja, oito garrafas de whiskey, oito garrafas de sidra e sete taças grandes de ponche alcoólico. Alguns deles apanharam uma tal piela que foi um milagre terem conseguido assinar a Constituição no dia 17 de setembro de 1787.
O “Néctar da Madeira” não foi utilizado para brindar apenas a Declaração de Independência e a assinatura da Constituição, e esteve presente noutros momentos marcantes do nascimento dos Estados Unidos como a posse presidencial de George Washington a 3 de abril de 1789 no balcão do segundo andar do Federal Hall, em New York, que nessa altura era a capital do país.
George Washington era grande apreciador de Madeira. Em 8 de agosto de 1775, dois meses após assumir o comando do recém criado Exército Continental, mandou comprar duas pipas de vinho da Madeira e encher centenas de garrafas que distribuiu pelos seus oficiais para que bebessem um copo antes de se deitarem, tal como ele fazia.
No seu terceiro e quarto anos como presidente (1793 e 1794), Washington comprou seis pipas de Madeira para a residência presidencial de Filadélfia e bebeu o seu copo até morrer, a 14 de dezembro de 1799.
Washington bebia uma caneca de vinho da Madeira às refeições e três a cinco taças todas as noites antes de se deitar. Dizia que lhe aliviava a dor de dentes, mas continuou a beber mesmo quando já não tinha dentes e usava dentadura postiça.
Thomas Jefferson brindou com Madeira pela independência dos Estados Unidos e em 1803 (era secretário de Estado) brindou novamente com Madeira pela compra do território da Louisiana à França (2,1 milhões de quilómetros quadrados por 15 milhões de dólares). Foi depois o terceiro presidente e, no seu primeiro ano na Casa Branca, encomendou 3.500 garrafas de Madeira.
Assim o vinho madeirense aparece ligado a uma série de episódios históricos dos Estados Unidos. Elizabeth “Betsy” Ross, a costureira de Filadélfia que fez a primeira bandeira dos Estados Unidos em maio e junho de 1776, revelou que ia saboreando o seu copito de Madeira enquanto costurava.
Francis Scott Key, advogado que foi afamado autor e poeta amador, admitiu que também bebia Madeira em 1814, quando escreveu o poema “Fort McHenry”, que se tornaria uma popular canção britânica e que, em 1931, com o título “The Star-Spangled Banner”, passou a ser hino nacional dos Estados Unidos.
“Toast to America”
Teve lugar dia 20 de junho, na residência do embaixador de Portugal em Washington, Francisco Duarte Lopes, o evento “Toast to America”, uma iniciativa que evoca o brinde à independência dos Estados Unidos, em 1776, feito com vinho da Madeira.
A cerimónia contou com a presença do presidente do Governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque, reunindo cerca de 400 convidados, entre representantes institucionais, jornalistas operadores turísticos e empresas madeirenses.
Conforme disse Miguel Albuquerque, o brinde à independência norte-americana, feito com vinho da Madeira em 1776, “representou uma espécie de “bênção” inicial para um país que viria a alcançar tamanho sucesso ao longo da sua história, uma ligação simbólica que, sublinhou, a Região tem todo o interesse em continuar a evocar e a valorizar junto do mercado norte-americano”.
Em 2025, a Madeira recebeu cerca de 80.000 visitantes norte-americanos, alguns dos quais saberiam do histórico brinde, mas a maioria talvez ignorasse e por isso é importante a Madeira fazer-se lembrar, pois tal como em 1776, o vinho da Madeira pode continuar a desempenhar o seu papel histórico no relacionamento de Portugal com os Estados Unidos.
O Boston Tea Party e o Madeira Wine Party
O Boston Tea Party (Festa do Chá de Boston) foi um episódio do processo de independência dos Estados Unidos ocorrido há 253 anos, no dia 16 de dezembro de 1773, quando colonos americanos assaltaram três navios ancorados no porto de Boston e lançaram ao mar o carregamento de 342 caixas de chá (45 toneladas) importado pela Companhia Britânica das Índias Orientais em protesto contra a tribução da Coroa Britânica e o incidente deu origem à guerra da Independência, que teve início em abril de 1775, quando tropas britânicas e milícias coloniais de Massachusetts se enfrentaram nas batalhas de Lexington e Concord, em que morreram 122 pessoas, 73 soldados ingleses e 49 colonos.
Mas o Boston Tea Party foi precedido, em 10 de junho de 1768, pelo Boston Madeira Wine Party, o confisco do carregamento de vinho da Madeira do navio Liberty, que gerou grande revolta popular e foi uma grande fagulha que ateou o famoso Boston Tea Party em 1773.
O Liberty pertencia a John Hancock, um dos homens mais ricos das colónias e que os ingleses consideravam o maior contrabandista (e primeiro subscritor da declaração de independência).
O navio tinha 100 barris de vinho da Madeira, que naquele tempo representava 75% de todo o vinho importado pelas colónias britânicas da América do Norte. Hancock tratou de persuadir os colonos de que com a apreensão ficariam privados do seu vinho favorito e arranjou 3.000 voluntários dispostos a assaltar o Liberty e roubar o carregamento.
Só que no caso do Boston Tea Party, os 140 assaltantes tiveram uma trabalheira para lançar ao mar 45 toneladas de folhas de chá, mas no Boston Madeira Wine Party os assaltantes foram muito mais práticos: não lançaram o vinho ao mar, levaram-no para o Boston Common e beberam-no nas calmas.




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