Porto, 16 ago (Lusa) – Alexis Guérin considera-se “um homem simples” que foi ‘seis’ num clube de futebol local, em França, até enveredar pelo ciclismo aos 16 anos, construir uma carreira profissional e tornar-se ‘número um’ da 87.ª Volta a Portugal em bicicleta.
Após classificar-se no segundo lugar da Volta de 2025, a 01.15 minutos do colega de equipa Artem Nych, vencedor das edições de 2024 e de 2025, o ciclista da Anicolor-Campicarn inverteu os ‘papéis’ e ganhou neste ano com 01.02 minutos de avanço para o russo de 31 anos, após uma corrida dominadora, em que a perda de tempo em Peso da Régua, fruto de um posicionamento atrasado, “foi o único erro cometido”.
“Sou uma pessoa simples. Gosto de passar tempo com a minha mulher, de comer bem, de me encontrar com amigos”, apresenta-se à Lusa o corredor que conquistou a camisola amarela com na Torre, em 09 de agosto, e segurou-a de vez na Senhora da Graça, de camisola negra, em memória de Finlay Tarling, corredor britânico que morreu na etapa de sexta-feira, em acontecimento inédito na história da Volta.
Nascido em 06 de junho de 1992, em Libourne, a cerca de 35 quilómetros de Bordéus, Guérin sabe que aprendeu a andar de bicicleta entre os dois e os três anos, mas a ‘porta’ para o ciclismo profissional abriu-se bem mais tarde, quando estava prestes a completar 17 anos.
O futebol foi o desporto que o ocupou pelo meio, no clube da cidade natal, embora tivesse a noção de que as suas capacidades lhe permitiam, no máximo, disputar a quarta divisão francesa.
Enquanto médio defensivo, Guérin distinguia-se pela resistência física em campo, característica de que se socorreu no final da adolescência, quando uma lesão numa perna o afastou da ‘bola’ e o encaminhou para a bicicleta, como meio de recuperação.
O contacto frequente com um amigo de infância que praticava ciclismo encaminhou-o para uma modalidade onde poderia aplicar a sua resistência física
Seis meses depois de começar a sério nas duas rodas, Guérin integrou a seleção francesa de juniores e, mais tarde, foi sub-23 na FDJ, equipa francesa onde também militava Thibaut Pinot, vencedor de três etapas na Volta a França, e na Etixx, formação que, em 2014, desenvolvia os jovens da Omega Pharma-Quick Step.
Sem possibilidade de vingar no WorldTour, o ciclista da Aquitânia participou em centenas de provas do escalão continental europeu, o terceiro da União Ciclista Internacional (UCI), conquistando a Volta à Alta Áustria, ao serviço da austríaca Vorarlberg, em 2021, e uma etapa na Semana Internacional Coppi e Bartali, em 2023.
Guérin ‘assinou’ um dos feitos mais brilhantes da carreira em 24 de março de 2023, na quarta tirada dessa corrida italiana, com partida e chegada em Fiorano Modenese, ao atacar a 100 quilómetros da meta para se impor a corredores como o alemão Florian Lipowitz, terceiro do Tour em 2025, o suíço Mauro Schmid e o irlandês Ben Healy, outros nomes do WorldTour.
Após uma conversa com Rúben Pereira, diretor desportivo da Anicolor-Campicarn, o francês decidiu rumar a Portugal, um país com “muito boas pessoas” e “um ambiente latino” que lhe agrada, para vencer o Grande Prémio Anicolor e o Grande Prémio Beiras e Serra da Estrela em 2025, antes de se preparar com mais rigor para a Volta de 2026.
Mais fresco do que na edição transata, em que fora batido por Nych, Alexis Guérin impôs-se na Torre com diferenças superiores a 01.40 minutos para todos os concorrentes, seguiu à risca o princípio de “comer bem e dormir bem” antes de qualquer etapa e comprovou ser o mais forte da corrida ao vencer no alto do Monte Farinha.
Consagrado no Porto como vencedor da corrida mais longa do ciclismo, à exceção das ‘três grandes’ Voltas, Alexis Guérin promete trabalhar para os colegas nas provas que restam em 2026, enquanto conjuga rotinas profissionais e pessoais em Pau, cidade gaulesa no sopé dos Pirinéus onde vive há nove anos.
Habituado a treinar 20 horas por semana, quase sempre de manhã, o experiente corredor já escalou várias vezes o Tourmalet e La Mongie, embora o Col de Castet, “uma subida curta e dura”, com cinco quilómetros de extensão e 9% de inclinação média, seja o local favorito para treinar.
Além dos treinos, Alexis faz questão de levar o filho à escola numa bicicleta equipada para dois lugares e aprecia imenso o tempo passado com o filho e a filha, tal como com a esposa, de nacionalidade portuguesa.
Sem qualquer arrependimento quanto às decisões tomadas na carreira, até porque não pode controlar o passado, o francês diz-se contente com o que alcançou num desporto que se revelou uma escolha adequada às suas características.
“O ciclismo era uma boa opção para as minhas características e para a minha cabeça. Tenho muito presente o sentido de equipa, mas também de trabalhar individualmente. O ciclismo precisa de uma equipa para ganhar, mas se não trabalhares e não estiveres forte não podes ganhar. Precisas de talento, mas também de uma equipa para poder ganhar”, sentencia.





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