Muitas vezes trocamos as coisas de valor pelo valor das coisas…
Conta-se, a propósito, que o consagradíssimo pintor Pablo Picasso (1881-1973) estava um dia a comer num restaurante parisiense quando reparou que não tinha dinheiro para pagar a refeição. E por isso fez um desenho na toalha. Entregou-o ao proprietário do restaurante, e este disse: “Ponha aí a sua assinatura, por favor”. Respondeu Picasso: “Assinatura, não. Eu paguei o jantar, não comprei o seu restaurante”.
Arrogância de Picasso? Não. Ele, que sabia pôr o seu talento a render, dava importância intrínseca das coisas. Não confundia o custo com o custeado. Cada coisa com o seu valor e a sua prioridade. E precisamente dá-nos aqui uma bela lição sobre a inversão de prioridades que muitas vezes nos leva valorizar o essencial e o insubstituível em detrimento do preço, do lucro ou do bem material.
“A linguagem é uma fonte de mal entendidos”, escreveu Antoine Saint-Exupéry, no seu “Principezinho”.
Nós, portugueses, conhecidos pelos nossos brandos costumes, tendemos a ser pouco assertivos no que fazemos e dizemos, conhecida que é a dificuldade lusa em exprimir emoções, sentimentos e estados de alma. À pergunta “como é que estás?”, invariavelmente respondemos: “mais ou menos; “já estive pior”; “vai-se andando”; “vai-se escapando”; “vai-se à conta de Deus”, etc.
Os meus amigos brasileiros, esses, não têm problema nenhum em afirmar os seus estados de espírito: “estou feliz” ou “estou tristão”…
Vejamos dois exemplos em que ambição e autoconfiança vão de mãos dadas. Quando, noutros tempos, era considerado um dos melhores treinadores do mundo, José Mourinho autoproclamava-se de “special one”. E temos o caso de Cristiano Ronaldo, que também não é modesto quanto ao seu sucesso, dentro e fora dos estádios de futebol.
Nesta matéria há dois dados inapeláveis: por um lado, o peso da religião católica que impôs o bem e o mal, o pecado e a vergonha, e ensinou-nos a amar o próximo, a ajudar os outros, a ser complacentes, compassivos e misericordiosos. Proibiram-nos de ser egoístas, logo o outro tem peso, não nos é indiferente. Até porque vivemos em sociedades pequenas, o que permite um maior conhecimento e uma ligação mais próxima entre as populações.
Por outro lado, levámos com 48 anos de ditadura do Estado Novo, educados que fomos na honra, no crédito, no respeitinho pelas autoridades. Aprendemos a ser francos, hospitaleiros, laboriosos, fortes e resolutos.
A nível de comportamentos, as coisas mudaram nestes últimos 50 anos de vivência democrática, ma non troppo… É que os nossos valores culturais continuam muito cristalizados no passado: o que é difícil não é aderirmos a ideias novas, o que é difícil é libertarmo-nos das ideias velhas…
No fundo, sofremos de um terrível complexo de inferioridade que, como escreveu Fernando Pessoa, é uma forma de “provincianismo mental”.
Por isso, sempre que algum português, afirmando a sua meritocracia, se chega à frente, há sempre alguém que desconfia e fica de pé atrás. Não fosse “inveja” a última palavra da epopeia “Os Lusíadas”…



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