Nestes últimos três anos, como missionário junto da comunidade portuguesa aqui nos Estados Unidos, tenho testemunhado um enorme orgulho nacional, muitas vezes exacerbado e por vezes patético. No dia de Portugal e das Comunidades, nas festas populares, nos concertos, na gastronomia e, sobretudo, quando joga a Seleção, multiplicam-se as bandeiras e as camisolas e ninguém esconde que é português.
Mas há uma contradição que já não podemos ignorar: temos orgulho em quase tudo o que é português, menos em falar e transmitir a língua portuguesa.
Entre as segundas e terceiras gerações, muitos já não falam português. Alguns entendem, mas recusam responder; outros sentem vergonha do sotaque ou receio de errar. Mais triste ainda: há filhos e netos de portugueses que vão à escola aprender espanhol, enquanto a língua dos pais e dos avós desaparece dentro da própria casa.
É fácil responsabilizar os mais novos, mas esta situação não começou com eles. Quando os pais, por comodidade ou falta de persistência, deixam de falar português aos filhos, estão a tomar uma decisão com consequências. Talvez facilite a conversa de hoje, mas empobrece a identidade de amanhã. Uma língua que não se fala em casa dificilmente sobreviverá apenas com festas, bandeiras e saudades.
Precisamos de perguntar com honestidade: que patriotismo é este que veste a camisola da Seleção, mas tem vergonha de falar português em público? Que amor à pátria é este que celebra a comida e a música, mas abandona a língua que lhes dá nome e significado? Sem a língua, a cultura corre o risco de se transformar apenas em decoração, folclore ou memória de um país distante.
Não basta ser português durante um jogo de futebol ou numa festa anual. O verdadeiro patriotismo também se vive à mesa, na conversa com os filhos, na oração, nas histórias dos avós e na decisão diária de manter viva a língua. Falar português com erros ou sotaque não é motivo de vergonha. Vergonha é exibir com orgulho a bandeira e, ao mesmo tempo, deixar morrer aquilo que mais profundamente nos une como povo.
Ensinar português aos nossos filhos não os torna menos americanos. Torna-os mais ricos e mais conscientes das suas raízes. Se queremos que Portugal continue vivo nesta comunidade, não basta festejá-lo: é preciso falá-lo.
Caso contrário, dentro de poucas gerações, restarão os apelidos, as bandeiras e as fotografias das festas — mas já ninguém saberá dizer, em português, por que razão tudo isso era tão importante.



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