Pediram-me um derradeiro desabafo rematado da grande festa que foi o Mundial, assumido como estrondoso sucesso financeiro camuflando alguma controvérsia desportiva, e não tive qualquer problema em focar-me logo na imagem comovente do olhar enternecedor duma criança a quem acabavam de esvaziar o balão da sua esperança na seleção do seu coração. Dos seus lindos olhinhos viam-se ainda duas límpidas lágrimas deslizando-lhe pelo rosto humedecido e a foto tornou-se viral. Porque é qualquer coisa de especial. Quem vê futebol com lentes um pouco mais alargadas – para lá das quatro linhas e mesmo para fora dos estádios, onde o seu impacto se faz sentir nos inúmeros corações que o apreciam como o desporto rei das multidões – percebe melhor o seu alcance fenomenal na era buliçosa que atravessamos.
Vivemos numa sociedade stressada, hoje em dia, onde frustrações e lágrimas não faltam afligindo este nosso mundo severamente inundado por insistente tristeza aliada a prolongadas dores sem remédios que lhes valham. Um mundo que procura alívio e se apega à bola que rola e lá se cola ao tão desejado golo da vitória que todos buscamos para as nossas vidas. Ninguém gosta de perder, e não é apenas o desporto a lembrar-nos isso, porém quem não vibra com futebol, não consegue entender como é que massivas multidões de pessoas desconhecidas se juntam apinhadas numa qualquer praça pública, em frente dum écran televisivo, para darem largas às suas delirantes emoções tantas vezes sujeitas às tais lágrimas que não perdoam, amargas nos momentos indesejados. Tudo por causa dessa paixão que não se explica. Sente-se.
O sentimento de arrebatante euforia celebrada pelos espanhóis, logo após o apito final do árbitro na final do Mundial, contrastou, ao vivo, com o de doloroso desalento argentino estampado nas lágrimas de Lionel Messi que, tal como as de Cristiano Ronaldo, poucos dias antes, correram mundo nos écrans de televisão e nas capas dos jornais. É sempre assim. No fim, só aos vencedores do tal almejado troféu se reserva aquele conhecido consolo das lágrimas de alegria. A não ser que as súbitas estórias de surpreendentes ‘cinderelas’, a exemplo de Cabo Verde, também façam chorar o seu povo de orgulho e contentamento por tão elogiado desempenho. Futebol, costuma-se dizer, é o momento. E o meu, presente, inspirado no olhar magoado duma miúda que chorou, convida-me a olhar em frente, já sorridente.
Não gosto de ver crianças a chorarem, seja lá por que motivo for. Pior ainda quando as lágrimas surgem da bola que não rola a nosso favor. No entanto, a uma criancinha dá-se perfeitamente o devido desconto – coisa já bastante mais difícil de darmos a um adulto, como os dois ases aqui retratados em momentos que só eles saberão bem explicar o que verdadeiramente os fez emocionar. Nós tentamos apenas imaginar. Mas o consenso diz o que toda a gente suspeita – está eminente o fim de uma era mágica no mundo da bola que rolou e deliciou muitos milhões de adeptos ao longo de duas décadas em que ambos, Messi e Ronaldo, fizeram maravilhas distribuindo sorrisos abundantes por esse mundo fora. É o mundo no seu melhor – quando sorri – sabe-o bem a miudagem, tal como nós, graúdos, estamos fartos de saber.
E ainda bem que, de longe, se viu muitíssima mais gente a sorrir do que a chorar, ao longo deste espetacular Mundial largamente elogiado pelo tremendo triunfo de ter acolhido mais gente do que nunca. Os números não mentem – tanto de dentro dos estádios com lotações esgotadas por bilhetes vendidos a preços exorbitantes, como cá por fora nas praças superlotadas por um multiculturalismo contagiante – o entusiasmo foi deveras impressionante. Que lindo, sem dúvida, ao longo de cinco semanas, ter-se podido sentir o mundo um pouco mais descontraído enquanto abraçado a uma bola de futebol. É a magia da modalidade que uso como ótima terapia para fazer face ao que esta vida tem de pior – o stress, nas suas diversas maneiras de nos vir cá lixar as ideias e contrariar os ideais. Como este meu, sublinho, de teimar em fazer do futebol motivo para me manter bem-disposto. Porque detesto o oposto.
Aposto, com quem quiser, na possibilidade de fazermos melhor figura e assim conseguirmos pôr mais crianças das nossas a sorrir do que a chorar no próximo Mundial, daqui a quatro anos, que também vai ser disputado em Portugal. É crença forte que parte da minha fé em Jesus. Refiro-me ao nosso carismático Jorge – tá claro – o novo selecionador-treinador e até comendador, por mérito próprio. Personagem querida do nosso futebolês, já muito me fez rir. E quase, quase me fazia chorar, mas ainda bem que não sou desses. Para mim, insisto, futebol tem de ser festa, pois se não for – fora com ele.



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