António Pargana, fundador da Fundação António Pargana ao Portuguese Times: “O grande desafio da Fundação é fazer com que cada vez mais jovens lusodescendentes conheçam o Portugal contemporâneo e sintam que este país também lhes pertence”

by | Aug 5, 2026 | Notícias das comunidades, Outros

 

Constituída em Outubro de 2023, a Fundação António Pargana pretende contribuir para o fortalecimento dos laços entre Portugal e a Diáspora, em particular com o universo estudantil com ligação hereditária ou afetiva ao país. PT foi à conversa com o seu fundador, António Pargana, que nos esclareceu sobre a missão e serviços desta fundação. António Pargana foi distinguido recentemente com o prémio “Empresário da Diáspora”, atribuído no âmbito da Gala do Fórum Portugal Nação Global. A distinção reconhece um percurso empresarial internacional marcado pela promoção de Portugal além-fronteiras e pelo fortalecimento das ligações entre Portugal e as comunidades portuguesas no mundo.

 

PT – Como e quando surgiu a Fundação António Pargana?

Vasco Araújo – “A Fundação António Pargana surgiu em 2023, mas, na verdade, a sua origem é muito anterior. Nasceu de uma reflexão que fui fazendo ao longo de muitos anos enquanto emigrante. Vivi em Angola e, desde 1976, vivo no Brasil. Ao longo desse percurso, tive oportunidade de acompanhar de perto várias gerações de portugueses e de lusodescendentes e fui percebendo uma realidade que me começou a preocupar: muitos filhos e netos de emigrantes mantêm um enorme carinho por Portugal, mas conhecem pouco o país de hoje.

Eu próprio fui assistindo a um afastamento gradual, por razões naturais, das novas gerações em relação às suas origens. E pensei que tínhamos de fazer alguma coisa para colmatar essa realidade. Estou convencido de que um jovem que conhece Portugal, que conhece as suas universidades, as suas empresas, as suas instituições e a sua capacidade de inovação, passa a olhar para o país de uma forma completamente diferente.

Foi dessa convicção que nasceu a Fundação. Quis criar uma instituição que ajudasse a construir novas pontes entre Portugal e a sua diáspora, sobretudo através da educação e do conhecimento. Por isso, desenvolvemos programas em parceria com universidades portuguesas, proporcionando aos jovens uma experiência direta com a realidade contemporânea do país. Acredito que esta é uma forma de transformar uma ligação afetiva às raízes numa relação mais profunda e duradoura com Portugal.

Para mim, a Fundação representa também uma forma de retribuir ao país aquilo que Portugal me deu. Depois de uma vida dedicada ao mundo empresarial e ao fortalecimento das relações internacionais, senti que era tempo de colocar essa experiência ao serviço de um projeto que pudesse aproximar as novas gerações lusodescendentes de Portugal e contribuir para o futuro do nosso país”.

 

– Como têm chegado sobretudo aos lusodescendentes na divulgação do Portugal moderno?

– “Temos procurado chegar aos lusodescendentes através de uma combinação de parcerias e de contacto direto com as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. A Fundação trabalha em estreita colaboração com universidades, empresas, associações e instituições que partilham a nossa visão, mas acreditamos também que os meios de comunicação da diáspora desempenham um papel absolutamente fundamental nesta missão.

Nos últimos meses tenho tido a oportunidade de partilhar esta mensagem em vários países, através de entrevistas e encontros com comunidades portuguesas. O nosso objetivo é muito claro: mostrar que Portugal mudou muito nas últimas décadas e que hoje é um país reconhecido pela qualidade das suas universidades, pela inovação, pela investigação científica, pelo dinamismo das suas empresas e pela capacidade de empreender.

Eu costumo dizer que muitos filhos e netos de emigrantes conhecem o Portugal das suas famílias, mas não conhecem o Portugal de hoje. E é precisamente essa realidade que queremos ajudar a mudar. Quando um jovem visita Portugal, conhece as nossas universidades, as nossas empresas, as nossas instituições e percebe o potencial que o país tem, passa a olhar para Portugal de uma forma completamente diferente. É essa experiência que procuramos proporcionar através dos programas da Fundação. Estou convencido de que o conhecimento é a melhor forma de fortalecer a ligação entre Portugal e a sua diáspora e de criar novas oportunidades para as gerações que vão construir o futuro das nossas comunidades além-fronteiras».

 

– Acha que os lusodescendentes têm demonstrado interesse pelo nosso país e sua cultura?

– “Estou convencido de que sim. Ao longo da minha vida tenho conhecido milhares de portugueses e lusodescendentes e nunca deixei de sentir que existe um enorme orgulho nas suas origens. Esse sentimento continua muito presente, sobretudo nas famílias que fizeram questão de transmitir aos filhos e aos netos a língua, os valores e as tradições portuguesas.

No entanto, também fui percebendo que esse interesse está muitas vezes ligado à memória familiar e não tanto ao conhecimento do Portugal contemporâneo. Muitos jovens conhecem o país das histórias dos pais e dos avós, mas desconhecem a realidade de um Portugal moderno, com universidades de excelência, empresas inovadoras, centros de investigação reconhecidos internacionalmente e uma economia cada vez mais competitiva.

É precisamente por isso que acredito tanto na missão da Fundação. Quando damos a estes jovens a oportunidade de conhecer Portugal de perto, de visitar universidades, empresas, instituições e contactar com a realidade do país, eles descobrem um Portugal diferente daquele que imaginavam. E essa experiência transforma a forma como olham para as suas origens.

Eu costumo dizer que ninguém cria uma ligação verdadeira com aquilo que não conhece. Quanto mais conseguirmos aproximar os lusodescendentes do Portugal de hoje, maior será o seu interesse em estudar, trabalhar, investir ou desenvolver projetos ligados ao nosso país. Estou convencido de que esse é um investimento que Portugal deve fazer, porque a diáspora representa uma das maiores riquezas que temos para o futuro”.

 

– As instituições e o Governo português, na sua opinião, têm desempenhado papel importante ou há ainda muito a fazer para uma maior divulgação e visibilidade de Portugal no estrangeiro?

– “Penso que Portugal tem feito um trabalho importante na valorização das comunidades portuguesas e na promoção da nossa cultura além-fronteiras. Ao longo dos anos têm existido iniciativas muito relevantes por parte do Estado, das embaixadas, dos consulados, do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, das universidades e de muitas associações da diáspora, que merecem ser reconhecidas.

Dito isto, acredito sinceramente que ainda podemos fazer muito mais. Portugal dispõe de uma diáspora extraordinária, composta por milhões de portugueses e lusodescendentes espalhados pelos cinco continentes. Vejo essa comunidade não apenas como uma extensão de Portugal, mas como um dos seus maiores ativos estratégicos para o futuro.

Na minha experiência empresarial, aprendi que as grandes oportunidades surgem quando conseguimos criar redes de colaboração. É precisamente isso que penso que devemos continuar a fazer: reforçar as parcerias entre o Estado, as universidades, as empresas, as associações e as comunidades portuguesas no estrangeiro. Quanto mais trabalharmos em conjunto, maior será a capacidade de projetar Portugal no mundo.

Também acredito que devemos investir cada vez mais nas novas gerações. Não basta preservar a memória das comunidades; é preciso mostrar aos jovens o Portugal contemporâneo, um país que hoje se destaca pela inovação, pelo conhecimento, pela qualidade do ensino superior e pela capacidade das suas empresas. Quando um jovem lusodescendente conhece essa realidade, deixa de olhar para Portugal apenas como o país das suas origens e começa a vê-lo também como um país de oportunidades.

É essa visão que procuro promover através da Fundação António Pargana. Não para substituir o trabalho que já é desenvolvido por tantas instituições, mas para o complementar, criando novas pontes entre Portugal e a sua diáspora. Estou convencido de que este é um esforço coletivo e que, quanto mais entidades estiverem envolvidas, mais forte será a ligação entre Portugal e os portugueses espalhados pelo mundo”.

 

Quais os grandes desafios da FAP atualmente?

– “O grande desafio da Fundação é fazer com que cada vez mais jovens lusodescendentes conheçam o Portugal contemporâneo e sintam que este país também lhes pertence. Estamos a falar de milhões de pessoas espalhadas pelo mundo, com realidades muito diferentes, mas que partilham uma ligação afetiva às suas origens. O nosso desafio é transformar essa ligação numa relação ativa e duradoura.

Para isso, queremos continuar a alargar a rede de parceiros da Fundação, envolvendo mais universidades, empresas, instituições públicas e privadas e associações da diáspora. Sempre acreditei que os melhores projetos se constroem em parceria e que é através da cooperação que conseguimos criar oportunidades com verdadeiro impacto.

Outro desafio importante é fazer chegar esta mensagem a cada vez mais comunidades portuguesas. Tenho tido a oportunidade de contactar com muitos lusodescendentes e verifico que existe um enorme interesse em conhecer melhor Portugal. Precisamos de continuar esse trabalho, aproximando os jovens das universidades, das empresas, dos centros de investigação e de tudo aquilo que faz de Portugal um país moderno, inovador e competitivo.

Mas há um objetivo que considero ainda mais importante. Gostaria que a Fundação contribuísse para mudar a forma como olhamos para a diáspora. Durante muito tempo, falámos das comunidades portuguesas sobretudo numa perspetiva cultural e afetiva, que continua a ser muito importante. Eu acredito, no entanto, que a diáspora pode ser muito mais do que isso. Pode ser uma rede global de talento, conhecimento, empreendedorismo e oportunidades, capaz de reforçar a projeção internacional de Portugal e de abrir novos caminhos para o desenvolvimento do nosso país.

É essa visão que me inspira desde que criei a Fundação. Estou convencido de que, se conseguirmos aproximar as novas gerações das suas raízes e mostrar-lhes o Portugal de hoje, estaremos a investir não apenas no futuro dessas comunidades, mas também no futuro de Portugal. Esse é, para mim, o grande desafio e, ao mesmo tempo, a grande ambição da Fundação António Pargana”.

 

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