MFA, Salgueiro Maia e Spínola na mesma sala

by | Jul 29, 2026 | A Descoberta

 

Fui a uma homenagem em Lisboa ao Ferreira Fernandes, meu antigo diretor no Diário de Notícias, e dei por mim rodeado de mais alguns jornalistas que fizeram história. Passo a explicar: sentando naquela sala do Clube dos Jornalistas, para ouvir o amigo que é um dos grandes cronistas e repórteres portugueses, estavam Joaquim Furtado, Adelino Gomes e Dennis Redmont.

O Joaquim tem 70 e muitos anos (tal como o Ferreira) e o Adelino e o Dennis já passaram dos 80. São todos o que costumamos chamar grandes senhores do jornalismo.

O Joaquim foi quem aos microfones do Rádio Clube Português teve de ler na madrugada de 25 de abril de 1974 o primeiro comunicado do MFA. “Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas nas quais se devem conservar com a máxima calma”, leu, com voz límpida.

O Adelino é o jornalista que de microfone na mão acompanhou a coluna da Escola Prática de Cavalaria, chegada de Santarém, no Terreiro do Paço. Pouco depois, quando meia Lisboa ignorara o apelo do MFA para ficar em casa e já enchera o Largo do Carmo, é de novo o Adelino quem pergunta a Salgueiro Maia o que se vai passar ali, junto do comando da GNR: “Capitão Maia, só um minuto. O que é que se passa neste momento?” “Estamos a cercar o quartel do Carmo e aguardando ordens sobre o que é que se vai fazer a seguir, porque o regimento de infantaria 1, a quem tinham ordenado para nos deter, aderiu e, portanto, temos que arranjar uma missão para eles que estão ali sem fazer nada. Portanto, aguardamos ordens.” “Sabe-se quem é que está dentro do quartel do Carmo?” “Há suposições que estará lá o Marcelo Caetano.” “E o Américo Tomás, não?” “Pois, também.” “Vocês vão entrar em contacto telefónico com eles? Como é que vão parlamentar?” “Aparecerá um emissário em frente à porta para dialogar.”

Dennis, que foi correspondente da AP nos anos 1960 em Lisboa e acabou expulso pela PIDE, trabalhava para a agência noticiosa americana no Rio de Janeiro quando se deu o 11 de Março de 1975 e o general António de Spínola fugiu para o Brasil. No avião, na curta viagem forçada entre o Rio e Buenos Aires, onde o ex-presidente da república formalizou o pedido de asilo ao Brasil, Dennis fez uma conversa que foi notícia no New York Times: “Spínola afirma que apoiou o golpe para impedir massacre”.

Obrigado ao Ferreira Fernandes, que hoje escreve na ‘Mensagem de Lisboa’, projeto de que é co-fundador, pelo muito que me ensinou desde que em 1992 pela primeira vez fizemos parte da mesma redação. E obrigado também por este encontro com a história.

* Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’.

 

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