Durante 25 dias, percorrendo quase 1500 quilómetros e passando por 70 vilas e cidades, Oldemiro César fez a cobertura da Volta a Portugal em Cavalo. Foi em 1925, e a prova, oficialmente chamada Circuito Hípico de Portugal, era uma iniciativa do Diário de Notícias (que em 1927 lançaria também a primeira Volta a Portugal em Bicicleta). Na celebração do centenário, no ano passado, compareceram duas netas de Oldemiro, Aida Lima e Irene Lima. Nenhuma delas tinha conhecido o avô, que morreu em 1953, mas traziam o caderno de reportagens feito por aquele homem de quem cresceram a ouvir falar muito, descrito pela viúva e pelos filhos como um homem culto e corajoso.
Oldemiro escreveu muitos livros sobre Camilo Castelo Branco, uma paixão, e também dois de memórias jornalísticas. O primeiro, publicado em 1924, sobre a Guerra do Rif, no Norte de Marrocos, e o segundo, de 1937, sobre a Guerra Civil de Espanha. Nascido no Porto em 1884, o jornalista foi um dos 13 enviados do jornal ao longo de três anos para cobrir o conflito no país vizinho. A guerra começou, fez agora 90 anos, quando o exército se rebelou contra o governo de esquerda da jovem república. Foram três anos terríveis (1936-1939), com massacres de um lado e do outro. O lado nacionalista, do golpista Franco, foi o vencedor.
“Vi-o morrer, furado pelas balas de seis espingardas, face voltada para o muro branco do cemitério, às 6 desta manhã fresca e cinzenta, sob uma chuvinha pertinaz e irritante que se prolongou por todo o resto deste triste e para mim inolvidável dia”, escreveu Oldemiro César, depois de testemunhar o fusilamento de um partidário da república. Durante dois meses, no verão de 1936, acompanhou as tropas franquistas. O livro, que a neta Aida guardou e me mostrou, tem como título ‘A guerra, aquele monstro… Dois meses nas Astúrias entre soldados galegos’.
Os mais famosos jornalistas da Guerra Civil de Espanha, nomes como Ernest Hemingway, Martha Gerhorn ou George Orwell, escreveram do lado republicano. Oldemiro e os outros repórteres portugueses estiveram em geral no lado franquista, não só por ser o ideologicamente próximo de Salazar, mas também porque depressa controlou toda a zona fronteiriça com Portugal. Um outro enviado do DN, Mário Pires, testemunhou, com Mário Neves, do Diário de Lisboa, o massacre de Badajoz, quando em agosto de 1936 os prisioneiros republicanos foram levados para a praça de touros e executados.
Oldemiro César deixou ‘A guerra, aquele monstro’ como testemunho do que viu. Foi pena a família nunca ter encontrado um possível caderno de reportagens desses tempos por terras de Espanha.
* Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’.





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