250 anos de existência é um número redondo com direito a festa de estrondo. E foi o que se viu nos festejos abrilhantados pelo espetacular fogo de artificio iluminando os céus, de este a oeste, desta magnânima América tão orgulhosa do seu quarto de milénio duma vida enriquecida por gente vinda de quase todos os cantos deste planeta que habitamos. É um país de imigrantes e, todos os que cá vivemos, há mais ou menos tempo, quer sejamos cidadãos ou não, guardamos um testemunho válido à espera de ser partilhado. Percebo que não haja tempo nem paciência para ler nem escutar todos, uma vez que a presente população dos cinquenta estados unidos acerca-se já das três centenas e meia de milhões de indivíduos, porém apraz-me erguer daqui a minha vozinha manifestando o agrado do meu “muito obrigado, América”, por me teres acolhido quando te bati à porta com a idade a sorrir-me nos 22. Já lá vão 48.
Os números não dizem tudo, todavia ajudam a enquadrar a clara equação do meu extenso percurso pessoal – nado e intimamente apegado à minha alma sempre lusa, se bem que apadrinhada hoje pela cidadania americana. É um facto a que não posso fugir – mais de dois terços dos meus setenta anos de caminhada terrena registam como morada o mesmo endereço fixo em solo californiano. Por mais que me confesse filho fiel à raiz pátria que me fez português, de forma alguma devo ignorar o quanto de mim deve a esta generosa nação mãe dos meus rebentos e dona do lugar aonde escolhi edificar o meu lar. Sou mais um luso-americano grato pela oportunidade que me concedeu esta formidável “terra das oportunidades”. Há quem vá mais longe, chamando-a mesmo de “terra prometida” e eu percebo o alcance da hipérbole contextualizando este destino como o mais procurado ainda por tanta boa gente pronta a emigrar.
Não é fácil deixarmos para trás o berço onde nos criámos alimentados pelo sonho de ali vencermos. Quando tal não acontece e tomamos a difícil decisão de abalarmos, tudo nos treme cá por dentro por desconhecermos o que nos espera lá por fora. Outra terra, novo idioma, diferente cultura, estranhas gentes e tudo faz questionarmo-nos, por uns tempos – será que fizemos bem em partir para longe? Repartidos entre lá e cá, demoramos a desapegarmo-nos dessa dúvida que não nos larga até encontrarmos algum conforto na situação similar de quem se aventurou, como nós, a abraçar o mesmo desafio. Não estarmos sós no desassossego dessa luta constante, faz-nos mais fortes e lá vamos resistindo teimosamente remando contra revoltas marés que não imaginávamos conseguir ultrapassar para podermos galgar o horizonte luzidio desses nossos sonhos, quantas vezes suados com lágrimas enxugadas às escondidas.
Não escondo hoje o orgulho visível no meu rosto enrugado pelos sacrifícios a que não fugi, focado no firme propósito de cortar a meta da América acolhedora para quem a procura de boa fé. Fiz-me americano naturalizado e ainda hoje empenhado em caminhar pelo meu pé, feliz por perceber o que o sonho americano tantas vezes não é. Nunca fui pessoa de me iludir com o seu imaginário poético, por isso depressa me desfiz dessa vaga noção e tratei de manter os pés bem assentes no chão, donde os sonhos florescem destinados a tornarem-se realidade – ou não. Porque tal depende sobretudo de nós, cerrei dentes, arregacei mangas, criei calos e esfolei o umbigo a investir energias no imenso prazer de construir um lar que não para de crescer enquanto me faz sorrir. Que melhor consolo, francamente, poderia eu a esta formidável América pedir? Ofereceu-me as condições, emprestou-me as ferramentas, mas deu-me logo a entender – o resto é lá contigo.
Comigo guardo agora este rascunho rabiscado, à pressa, com esta breve reflexão que poderia já rasgar se não tivesse primeiro ideia de a partilhar com os leitores que presumo comungarem deste mesmo sentir que, um dia, nos fez embarcar e hoje nos faz pensar. Aquela América que comecei a imaginar, a partir do que me foi dado observar naquele 4 de Julho de há meio século – “Dia da Entrada Geral” na Base Aérea das Lajes, lá na minha Terceira – estava tão distante, em sonhos e na realidade, da fabulosa nação onde o meu coração presentemente bate e a minha alma calmamente reflete, ciente de todos termos feito a mesma ansiosa viagem de vinda para cá, mas depois cada qual construir a sua América, à sua peculiar maneira. Daí os testemunhos, com tanto mais para acrescentar a este meu, variarem consoante as diversas experiências pessoais. Tal como os espetaculares ‘shows’ do dispendioso fogo de artificio – que nos fartamos de ver iluminar as noites comemorativas do histórico Dia da Independência – podem parecer, mas nunca há dois iguais.



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