Circulam imagens do ex-presidente Marcelo Rebelo de Sousa a aplaudir entusiasmado o musical ‘Carmen Miranda’, que Filipe La Féria produziu em Lisboa e que conta a história da emblemática cantora brasileira, que na verdade era portuguesa. É uma história incrível a desta Maria do Carmo Miranda da Cunha (assim foi batizada), e sobre ela há uma biografia deliciosa de ler, do jornalista Ruy Castro.
Para se entender o percurso de vida de Carmen é preciso ter em conta que o Brasil, apesar de independente desde 1822, manteve-se a terra das oportunidades para muitos portugueses. O mais belo testemunho de Portugal no Rio de Janeiro, o Real Gabinete Português de Leitura, não foi obra de D. João VI quando viveu na cidade, mas sim de um grupo de emigrantes. Foram eles que se quotizaram para importar as pedras da fachada inspirada no Mosteiro dos Jerónimos. O edifício data de 1887.
O Rio continuou até bem dentro do século XX a acolher milhares de portugueses e entre estes esteve a família de Carmen. O pai, José Maria, viajou uns meses antes. A mãe, Maria Emília, em 1910, com as filhas Olinda e Carmen. A futura estrela de Hollywood não tinha ainda um ano quando chegou ao Brasil, e portanto não admira que se sentisse uma embaixadora do Brasil por onde quer que atuasse, sempre com os turbantes com frutas. Mas é sempre de relembrar que aquela que nos Estados Unidos era chamada de “The Brazilian Bombshell” nasceu em Marco de Canavezes, e que cresceu na comunidade portuguesa do Rio. O pai era barbeiro e a mãe geria uma pensão com restaurante. Entre os filhos que o casal teve já no Brasil está outra cantora, Aurora Miranda, que celebrizou “Cidade Maravilhosa”.
Apesar do sucesso de músicas como ‘Que É Que a Baiana Tem?’ ou ‘Mamãe Eu Quero”’, que a levaram a uma carreira na Broadway e em Hollywood, a vida de Carmen foi trágica. Para corresponder à exigência das aparições em palco, e nos filmes, a cantora exagerava na medicação. E no álcool. Também não foi feliz o casamento com o americano que conheceu nas filmagens de ‘Copacana’.
O brasileiro Ruy Castro conta um episódio curioso, que é o aviador Gago Coutinho a conhecer Carmen Miranda e a perguntar-lhe porque cantava ela samba e não fados. Não terá percebido que a cantora manteve o passaporte português, mas respirava Brasil desde ainda bebé.
Paula Sá interpreta no palco do Politeama a estrela da Broadway que nasceu em Marco de Canavezes em 1909 e morreu em Beverly Hills em 1955. Também eu a aplaudi com muito, muito gosto.
* Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’.



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