Quando visitei há uns anos a Geórgia, um pequeno país do Cáucaso, entre os primeiros do mundo a se converter ao cristianismo (século IV), percebi que a rainha Ketevan era uma figura popular pelo seu papel na História nacional, e igualmente como santa da Igreja Ortodoxa Georgiana. Os georgianos admiram a sua coragem por resistir às pressões do xá da Pérsia, há 400 anos, para se converter ao islão, renunciando à fé cristã.
Viúva de um rei, regente durante a menoridade do filho, finalmente rainha-mãe, Ketevan tornou-se refém de Abbas I, que pretendia desse modo garantir a lealdade da Caquétia, um dos reinos georgianos da época. Mas como o filho de Ketevan insistiu em lutar contra os persas, a vingança recaiu sobre a mãe. Ketevan foi torturada e executada em Xiraz, no atual Irão, em 1624, e frades agostinhos portugueses, que com ela lidavam estando em cativeiro, presenciaram a sua morte. Não puderam ajudá-la, mas recolheram os restos do seu corpo e enviaram secretamente parte para um mosteiro na Geórgia e parte para uma igreja em Goa, então capital do Império Português no Oriente.
Toda esta história vem contada num livro que me ofereceu agora o embaixador georgiano em Lisboa, Levan Tsurtsumia. Está escrito em português, inglês e georgiano. E a capa são azulejos portugueses, tipicamente azuis e brancos. Porquê? Esta é a outra parte da ligação de Ketevan a Portugal, a existência de um painel de azulejos no Convento da Graça, em Lisboa, a representar o suplício da rainha.
Ex-república da União Soviética, com aspirações a integrar a União Europeia, a Geórgia tem no cristianismo um elemento essencial da sua identidade nacional, dai a grande relevância de Ketevan. Os azulejos em Lisboa, identificados em 2008, foram restaurados graças a financiamento georgiano. Uma cópia do painel foi oferecida à Geórgia para decorar um dos palácios nacionais.
O documento do século XVII onde vem inscrito o relato oral do frade Ambrósio Santos, que terá servido de inspiração para o artista que pintou os azulejos, está na Torre do Tombo, o arquivo nacional.
* Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’.



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