O HOMEM, DESDE OS SEUS PRIMÓRDIOS, sempre foi, salvo casos raríssimos, um ser “imperfeito”, viciado, adquirindo hábitos e costumes prejudiciais á saúde, ao ambiente que o rodeia, á própria estética. Há vícios mais nefastos do que outros, que conduz, por vezes, a uma morte precoce.
ENTRE OS MAIS CONHECIDOS e usuais, há o alcoolismo, o uso do tabaco e, nas últimas décadas de anos, o famigerado vício da droga, uma verdadeira desgraça dos nossos dias, um autêntico flagelo social dos tempos de hoje que alastra assustadoramente, devastando, marginalizando, afastando, matando. Milhares de famílias vivem angustiadas com a calamidade da droga dentro de portas.
O VICIO É UM PROBLEMA DE TODAS AS CLASSES SOCIAIS.
QUEREMOS DESTACAR, AQUI E AGORA, um vício muito em voga, há umas boas dezenas de anos atrás, e que hoje, segundo julgamos saber, diminuiu acentuadamente senão radicalmente o seu uso. Estamos a referir ao “CHEIRAR TABACO”. Esse tabaco, era denominado por RAPÉ. O dicionário em rapé diz: “tabaco em pó, para cheirar”. Por isso se dizia: “Tomar Rapé”. E, para isso, as folhas da planta (nicotina tabacum) eram submetidas a um processo de transformação que passava por várias etapas: picar, demolhar, fermentar a massa e raspar até ficarem em pó finíssimo.
O VÍCIO DE “TOMAR RAPÉ” não escolhia “extratos sociais”. Tanto “cheirava tabaco”, o “Zé Ninguém”, como a “SENHORA” mais fina da alta sociedade, ou o “SENHOR mais letrado ou endinheirado”
O USO, NAQUELAS ÉPOCAS, ERA ACENTUADO. No país fabricavam-se três tipos de tabaco em pó (para cheirar): de amostra, da cidade e simonte mais caro do que o “tabaco de fumo”.
COMEÇOU O SEU CONSUMO, sobretudo pelas classes económica e socialmente privilegiadas, beneficiando do contrabando vindo de França que dele faziam “luxo, ostentação e capricho”. Mas rapidamente o costume passou para quase toda a gente (tanto na cidade como na aldeia). De tal modo que, até quase ao último quartel de oitocentos, em Portugal “cheirava-se mais do que se fumava”.
NAS FREGUESIAS, em noites frias de Inverno, nas casas humildes, junto á lareira, os velhotes, entre dois cálices de aguardente da terra, introduziam no nariz um naco de rapé para passar o serão. No século vinte, que eu saiba – pelo menos, da pequena burguesia para cima – “trazia no bolso a caixa do rapé”.
NA MINHA CASA, NUNCA ENTROU TAL VÍCIO. O meu pai apesar de viciado no cigarro, detestava o cheiro do rapé e o seu utilizador, por considerar, o seu uso, uma falta de higiene.
APESAR DESTA SITUAÇÃO, desde muito miúdo conheci quem o usava, através de um velhote, o tio Manuel Cabral que “fazia voltas e recados”, tanto lá em casa, como na Alfaiataria de meu pai, entregando os fatos nas casas dos clientes, bem como outros serviços. O tio Cabral, viciado no “cheiro do tabaco”, fazia-o às escondidas, julgando, na sua, que o meu pai não sabia, o que era um erro, visto que, facilmente, pelo cheiro, se dava pela “marosca”. Meu pai dava a entender que desconhecia a situação. Para o sorver ou aspirar, o velho tio Cabral ainda me mostrou a covinha formada nas costas da mão, na base do polegar alçado, e dizia que havia alguns tão viciados que até as narinas lhes ficavam amarelas. E, viciadas, muitas damas cheiravam-no furiosamente.
A PRODUÇÃO E VENDA DO TABACO viriam a constituir monopólio rendoso. As Tabacarias espalhadas pela cidade assim o comprovavam.
TODAS AS MERCEARIAS E TABERNAS faziam o seu negócio com a venda do rapé. Era vendido num pacotinho cor de chumbo, que trazia em cima, uma espécie de selo da Tabaqueira. Havia pessoas que tinham umas caixinhas bonitas que traziam na carteira. Nelas guardavam o tão desejado pó..
NÃO SEI QUE PRAZER AQUILO DAVA, mas que era um hábito antigo muito arreigado e até um vício, não tenho dúvidas. Muitos diziam que fazia bem às constipações nos tempos frios!!
Perdeu-se o uso e hoje poucos se lembram do RAPÉ, e porque é que o usavam.
Histórias dos velhos tempos…



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