Vulto único

by | Jul 8, 2026 | Crónica da Califórnia

 

Era uma vez um pequenino país, qual poema enfeitado pelo inconfundível fascínio das flores adornando-o todo ele formoso jardim de encanto incomum à beira-mar. Plantado por condes e rainhas, mas povoado por gente de fibra lutadora, o nosso formidável jardinzinho foi crescendo e, embalado por poetas armados com guitarras, fez-se fado entoando, em dó maior, a mística artística desse primoroso portuguesismo navegado por entre ondas gigantes de lágrimas resistentes às adversas intempéries. Alargaram-se fronteiras, descobriram-se horizontes e novos mares apontaram ao desvendar de outras terras acolhedoras da nossa língua com os nossos costumes a expandirem-se ampliando a ambiciosa epopeia de tal forma que, às tantas, tínhamos um enormíssimo império espalhado pelos quatro cantos do mundo.

Portugal deixara de ser então apenas conhecido como simples nome de nação para se transformar em símbolo vivo duma soberba civilização marcada pela cultura lusa penetrando para sempre os destinos áureos da Humanidade engrandecida por feitos raros de arrojo rasgado a remos, rumo à rota imortal das belas caravelas, à deriva, à procura, à conquista – “avante, em nome d’el rei (e sob os auspícios da cruz de Cristo) – sobe à proa, marinheiro! Terra à vista!! Terra à vista!!!” Ora, bem vistas, agora, as coisas, foram séculos de incontornável orgulho, coroados por descobertas magnificas e mergulhados em heroísmo fabuloso, que só Camões soube epicamente versar, glosando-o como ninguém. Nos seus, nossos, Lusíadas, fez luzir, para a posteridade, a nossa fantástica fibra lusa no seu melhor.

Porém, como não há pomposo império que não caia nem imponente civilização que sempre dure, o país outrora majestoso, de súbito, viu virar-se sobre si a inevitável página da sua rica História a apontar-lhe novos ideais recomendando-lhe que voltasse a acomodar-se, como voltou, ao seu original cantinho livremente jardinado numa pontinha litoral da Europa, ali, à beira-mar replantado. Da pompa e glória passadas, pouco ou nada nos sobrara. A Portugal, essa nossa ditosa pátria tão querida e mui amada, deixara-lhe a velha madre História os dois palmos da terra-mãe a pouca distância das suas onze ilhoas filhas, quais pérolas preciosas espreguiçando tranquilamente as múltiplas cores vivas da sua panorâmica beleza sobre as irrequietas marés atlânticas.

Ilhas irresistíveis nos seus charmes sedutores, nove delas deixaram-se batizar sob o aliciante signo dos atraentes Açores. Povoadas no apogeu máximo da expansão lusíada pelos vários quadrantes do velho globo que habitamos, tinham cheiro farto a maresia, o gosto dado à Natureza e revestiam-se todos os dias na frescura das hortênsias aromáticas, deixando-nos a vista verdadeiramente consolada. Um consolo que perdura e se revigora quando a gente emigra sem palavras adequadas a descreverem o que sentimos, ao aventurarmo-nos nessa dramática viagem com ida tremida e volta incerta. Vocacionados a partir na incerteza do voltar, confessamo-nos povo de coração repartido e alma – valha-nos isso – entreaberta, à espreita do abraço que nos reconforta. Ao berço, nunca fechamos essa porta. 

E, ao longe, cá dos confins da dispersa diáspora, a que nos aventurámos há já coisa de quinhentos anos, valha-nos o alento patriótico do poeta mor das nossas “imigramadas” ilusões, esse inimitável Luís Vaz de Camões. Soldado ferido, mas nunca vencido, valendo-se do seu inesgotável talento sem idade, soube projetar a sua iluminada escrita enriquecida para a posteridade. Nela me refugio, amiúde, como remédio santo para me solidificar a saúde. Sobretudo, a mental, sempre que me avaria, hoje em dia, ler Camões é terapia que não dispenso e magia revigorante que o meu miolo nunca enjeita. Não gosto de dizê-lo a ninguém, todavia, ao sentir-me mal, recorro aos seus sonetos e não demoro a sentir-me bem. Revelei isso recentemente ao meu médico, que logo concordou, “não lhe podia recomendar melhor receita.”

Apraz-me, por conseguinte, agora, do fundo da minha pequenez, prestar merecida homenagem a toda a sua grandeza de permanecer a viva inspiração que é, nos alarmantes dias que passam, para tanta boa gente orgulhosa da sua estirpe lusitana. Daí o desabafo são deste texto humildemente inspirado no percurso sublime desse homem gigante sem paralelo na riqueza da nossa deliciosa literatura. E não só. Ler e reler Camões, enlaça-nos, de facto, em magia pura. Relembra-lo, encanta-me por ainda hoje não achar na nossa quase milenária portugalidade tamanha figura. Como ele, francamente, não há. É o nosso singular símbolo e o meu imortal ídolo, a quem dedico esta sextilha rendilhada por palavras reunidas em rimado reconhecimento pelo vulto único que sempre será. 

Ó Camões, és na História

Lusíada, de verdade,

O monumento, a glória,

Epopeia sem idade

Abraçando a memória

Da grã Portugalidade. 

 

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