A concretização de um sonho nas Sanjoaninas na ilha Terceira Por Breana Vargas Silva

by | Jul 8, 2026 | Notícias das comunidades

 

Ao crescer na Califórnia, sempre estive profundamente ligada à comunidade portuguesa. Participei no Carnaval desde os três anos de idade e cresci rodeada pelas tradições das festas do Divino Espírito Santo, que desempenharam um papel fundamental na minha formação. Mesmo enquanto me dedicava aos estudos e à minha carreira académica; concluindo a licenciatura, o mestrado e, mais tarde, o doutoramento nunca deixei de encontrar tempo para a cultura portuguesa e para as tradições que tanto amo.

A minha ligação às nossas tradições começou muito cedo. Desde pequena, sentia orgulho em aprender e preservar os costumes que os nossos emigrantes mantiveram vivos ao longo das gerações. No entanto, havia um sonho que permanecia por concretizar: participar numa marcha das Sanjoaninas.

Na época em que cresci na Califórnia, as festas de São João tinham uma dimensão muito mais modesta do que têm atualmente e muitas das sociedades portuguesas não organizavam marchas. Recordo-me de participar, em criança, numa pequena marcha, segurando um arco decorado. Foi apenas um breve vislumbre de uma tradição que sempre me fascinou. Nos últimos anos, especialmente após a pandemia, as marchas ganharam uma presença mais forte nas comunidades portuguesas da Califórnia, mas nada se compara à experiência de viver esta tradição na ilha Terceira. Quando me mudei para a Terceira, participar numa marcha foi uma das primeiras experiências em que quis mergulhar. Sempre admirei as marchas, a dedicação dos participantes, a música, a dança e o espírito de união que representam. Mas viver esta tradição por dentro é algo completamente diferente.

Participar desde o primeiro dia dos ensaios permitiu-me compreender o trabalho, a dedicação e o amor que estão por detrás de cada atuação. Ainda me emociono ao recordar o momento em que ouvi a filarmónica tocar a música da nossa marcha. Foi um instante carregado de sentimento, orgulho e gratidão. Senti que estava finalmente a viver algo com que sonhara durante tantos anos.

Tive a felicidade de integrar a Marcha da Sé, um grupo mais pequeno, mas que me proporcionou algo muito especial: em vez de me sentir apenas mais um elemento, senti-me parte de uma verdadeira família.

Desde o primeiro ensaio, fui recebida com carinho e encontrei pessoas que partilham o mesmo amor pelas tradições terceirenses e a mesma paixão pela música e pela dança. Mais do que uma marcha, encontrei uma segunda família.

Em 2019, tive a oportunidade de vir à Terceira para cantar num grupo de Carnaval, uma experiência que guardo com muito carinho. Contudo, desta vez senti algo ainda mais especial. Por ter participado em todo o processo, desde os primeiros ensaios até ao grande dia, senti-me verdadeiramente integrada e acolhida.

Este ano teve também um significado muito especial porque foi a primeira vez que o meu marido, Rui, natural da Terceira, e eu desfilamos juntos numa marcha. Os ensaios, os desafios e os momentos de alegria fortaleceram ainda mais a nossa ligação e criaram memórias que levaremos connosco para sempre.

Quando finalmente chegou o dia do desfile, vivi uma experiência como nenhuma outra. A energia das ruas de Angra do Heroísmo, a emoção de ouvir a nossa música e de desfilar ao lado de tantas pessoas que se tornaram uma segunda família fizeram deste momento algo verdadeiramente inesquecível. Sentir o apoio de familiares, amigos e de tantas pessoas, tanto perto como longe, deu-nos ainda mais força e tornou a marcha ainda mais especial.

E houve ainda outro momento que tornou tudo isto ainda mais significativo: ver a nossa filha, Alyza, na assistência, a aplaudir e a apoiar os seus pais. Quando nos viu passar, ficou radiante e adorou os nossos trajes. No final, disse-me que eu marchava bem, que era uma grande dançarina e uma cantora ainda melhor. Ouvir essas palavras da minha filha foi um dos momentos mais emocionantes de toda esta experiência.

Como luso-americana, cresci rodeada por tradições que ajudaram a moldar a minha identidade. Hoje, tenho a oportunidade de partilhar essas mesmas tradições com a geração seguinte. Ver a alegria e o entusiasmo da minha filha enquanto nos via participar nesta celebração foi um dos maiores presentes que esta experiência me poderia dar.

Para alguém que cresceu do outro lado do Atlântico, mas sempre com o coração ligado aos Açores, participar numa marcha das Sanjoaninas foi muito mais do que realizar um sonho de infância. Foi a confirmação de que as tradições portuguesas têm o poder de unir pessoas, atravessar oceanos e ligar gerações.

Da criança que segurava um arco numa pequena marcha na Califórnia à mulher que hoje desfila nas ruas de Angra do Heroísmo ao lado do marido, este momento ficará para sempre guardado no meu coração. 

As Sanjoaninas deram-me muito mais do que a oportunidade de participar numa marcha. Deram-me um sentimento ainda mais profundo de pertença, a certeza de que as minhas raízes sempre estiveram vivas dentro de mim e a alegria de poder transmitir esse amor pela nossa cultura à próxima geração. Deram-me também a certeza de que as tradições se vivem em família e que o amor pela nossa cultura continuará a florescer nas gerações que estão a caminho. Afinal, o verdadeiro significado das tradições não está apenas em preservá-las, mas em vivê-las, partilhá-las e passá-las adiante, para que continuem a unir famílias e comunidades, de ambos os lados do Atlântico e de geração em geração.

 

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