Praia, 03 jul 2026 (Lusa) – O desempenho de Cabo Verde no Mundial2026 de futebol começou em campos de terra batida e com jogadores que até tinham dificuldade em ter dispensa para ir representar a seleção, recordou hoje à Lusa um dos internacionais dos anos 80.
“Havia uma falta de infraestruturas apropriadas que se traduzia na existência tão somente de campos de terra batida, inclusivamente com dificuldades maiores na dispensa dos convocados por parte das entidades patronais, até pelo próprio Estado”, afirmou o antigo defesa central Carlos Cruz, conhecido por Kay.
Hoje, a campanha dos ‘tubarões azuis’ no Mundial2026 “é o corolário do sonho” iniciado naquela altura, afirmou.
Kay integrou uma geração que representou Cabo Verde numa época marcada pela escassez de infraestruturas, poucos recursos e reduzidas oportunidades de competição internacional.
“Todos, mas todos, sonhávamos estar um dia neste palco”, disse, considerando que a presença de Cabo Verde no Mundial representa “a validação absoluta do esforço, sacrifício e entrega” das gerações que ajudaram a construir a história da seleção.
Segundo o antigo internacional, que mais tarde presidiu à Associação Regional de Futebol de São Vicente e geriu a seleção nacional entre 2015 e 2017, o percurso da atual equipa demonstra que décadas de trabalho não foram em vão.
“Sem margem para qualquer dúvida, esta geração está a realizar o sonho dourado de todos”, afirmou, defendendo que, cada golo e cada fase ultrapassada no Mundial, homenageiam antigos internacionais que representaram Cabo Verde “apenas por amor”, numa altura em que o futebol nacional enfrentava inúmeras dificuldades.
Na sua perspetiva, a realidade atual permite aos jovens olhar para o futebol com outra ambição: “Ter referências nacionais a brilhar na televisão cria um efeito muito especial. Todos os nossos jovens praticantes de futebol hão de perguntar: se eles conseguiram, porque não eu”.
A mesma visão é partilhada pelo antigo internacional Pedro Elias Tavares (Juca) que integrou a seleção cabo-verdiana na final da Taça Amílcar Cabral, em 1991, frente ao Senegal (conquistou o segundo lugar), defendendo que cada geração contribuiu para a evolução do futebol nacional.
“Hoje, as condições são completamente diferentes”, disse, recordando as longas viagens, a falta de apoios e as limitações com que os jogadores da sua geração conviviam.
Segundo o antigo internacional, que trabalha na formação de jovens atletas, na cidade da Praia, a participação histórica de Cabo Verde no Mundial já está a refletir-se nos mais novos.
Juca disse que os jovens que treinam como guarda-redes estão a dar mais nas vistas e ele próprio dá-lhes mais atenção, depois da projeção alcançada por Vozinha, guardião dos Tubarões Azuis, durante o Mundial 2026.
Na sua opinião, o desafio passa agora por transformar o entusiasmo gerado pela campanha num investimento duradouro na formação.
“Nós, no desenvolvimento do futebol, temos agora de passar para a construção de infraestruturas. É urgente fazer academias mesmo a sério”, defendeu.
Juca considerou que o momento deve mobilizar Governo, Federação Cabo-verdiana de Futebol, associações, clubes e escolas de iniciação desportiva para consolidar o crescimento da modalidade.
“Terminando este Mundial 2026, temos de preparar já 2030”, concluiu.
Cabo Verde defronta hoje a campeã em título, Argentina, nos 16 avos de final da competição, e, seja qual for o resultado, para os antigos jogadores, o desempenho alcançado neste Mundial já foi uma grande conquista.





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