Em todos os Estados Unidos, o 4 de julho é celebrado com fogo de artifício e paradas, e a mais antiga dessas paradas tem lugar em Bristol, RI e terá este ano a 241ª edição.
Foi iniciada em 1785 pelo rev. Henry Wight, da Primeira Igreja Constitucional de Bristol. Veterano da Guerra da Independência, Wight decidiu promover uns “exercícios patrióticos” celebrando o 4 de julho, que importaram na altura em 30 dólares e hoje custam mais de 500 mil.
Bristol foi fundada em 1680 por quatro comerciantes ingleses de Boston, que três anos antes tinham comprado à Coroa inglesa as chamadas Mount Hope Lands, 54 km2 de terras pela ninharia de 1.100 libras, talvez a maior pechincha imobiliária dos Estados Unidos depois da compra da ilha de Manhattan aos índios, 1.626,87 km2 por 24 dólares.
Refira-se que em 1680 já viviam portugueses na região de Bristol, e eram judeus fugidos à Inquisição.
No dia 7 de setembro de 1654, um grupo de 23 judeus vindos do Brasil chegou a Nova Amsterdão, na época a capital da colónia holandesa na América do Norte e que viria a ser a cidade de New York.
O grupo deu-se bem na Nova Amsterdão e, em 1657, começou a chamar familiares e amigos para os Estados Unidos, muitos dos quais se instalaram na colónia de Rhode Island, uma vez que o fundador da colónia, Roger Williams, prometia liberdade de religião.
Em 1760, havia 15 famílias judias em Newport e em 1774 já eram 40 famílias, num total de 121 portugueses que se espalharam pela região, sendo de presumir que alguns tenham assistido aos chamados “exercícios patrióticos” do reverendo Henry Wight.
O português mais influente de Newport foi o judeu Araão Lopes, nascido em Lisboa, em 1731, veio para New York em 1740, e em 1752 fixou-se em Newport, onde prosperou como armador. Era dono de 30 navios transatlânticos e 100 embarcações costeiras, que foram utilizadas para abastecer o exército rebelde durante a guerra da independência.
Os navios de Lopes viajavam para Portugal com cereais e regressavam com vinho de Portugal e escravos de Angola. Quando os ingleses ocuparam Newport (1776-1979), Lopes mudou-se com a família para Leicester, MA, onde viria a falecer a 28 de maio de 1782, afogado num lago quando viajava de charrete para Newport. Possuia tanto navio que se esqueceu de aprender a nadar.
Portanto, é muito possível que alguns portugueses tenham assistido às primeiras paradas de Bristol, onde a comunidade se concentrou em torno da fábrica da National Rubber Company, construída em 1864 e onde trabalharam várias gerações de portugueses.
Conheço bem a parada, vivi uns anos em Bristol, quando trabalhei no jornal Azorean Times, que o António Matos publicava e que já lá está no cemitério dos jornais portugueses da América.
Bristol lembra uma ilustração de Norman Rockwell e os portugueses dão-lhe um toque especial. O dr. Manuel Luciano da Silva, que também já lá está (e faz muita falta), considerava Bristol a terra mais portuguesa da América.
Não sei se será assim, mas a parada do 4 de julho, onde desfilou há anos a charanga dos Bombeiros Voluntários de Vila Franca do Campo, ilha de São Miguel, costuma ter agora um arzinho português com o rancho folclórico do Clube Social Português de Pawtucket, além das marchas de John Philip Sousa tocadas pela Portuguese Independent Band, que foi fundada em 1919 em Bristol e abre tradicionalmente o desfile.
Como um em cada cinco habitantes de Bristol é de origem portuguesa, é fácil deparar com portugueses desfilando na parada ou na sua organização, caso de Ana Barboza Motta, este ano presidente da comissão organizadora. Quanto ao chief marshal da parada, é Thomas M. Carroll.
O chief marshal é uma tradição que remonta a 1826 e a escolha recai normalmente num cidadão com serviços prestados à comunidade. John Adams, o segundo presidente dos Estados Unidos, foi três vezes marshal da parada (1846, 1847 e 1848).
Para os residentes de Bristol é uma honra ser chief marshal da parada e vários portugueses e luso-descendentes já mereceram a distinção. A saber: Mathias Brito, 1954; John Andrade, 1962; César Brito, 1966; Edward J. Medeiros, 1967; Victor P. de Medeiros, 1969; Anthony A. Nunes, 1972; John P. Andrade, 1973; Manuel Luciano da Silva, 1975; Richard Alegria, 1978; Joseph M. Brito, 1982; os irmãos Anthony, Joseph e Manuel Januário, 1985; Seraphin Da Ponte, 1987; Frederico Pacheco, 1988; Hildeberto Moitoso, 1999; Diane C. Mederos, 2001; Raymond Cordeiro e Oryann Lima, 2003; Russel S. Serpa, 2005; Manuel Correira, 2007; Edward Castro, 2008; Joseph Coelho Sr. e Joseph Coelho Jr., 2009; Joseph e Betty Brito, 2011; António Teixeira, 2012; David Barboza, 2014; Ken, Steve e Mike Januário, 2021; Joe e Rosa da Ponte, 2022 e Steven Contente, 2023.




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