Festival de Provincetown, a terra mais portuguesa do Cape Cod

by | Jun 24, 2026 | Notícias das comunidades

 

Realiza-se de 26 a 28 de junho o Festival Português e a Bênção da Frota de Provincetown, uma tradição desta turística vila na extremidade do Cape Cod. Vários portos da Nova Inglaterra têm a bênção da frota, nomeadamente New Bedford, Gloucester e Stonington, mas Provincetown foi pioneira, há 79 anos.

O festival, que se realiza há 30 anos, pretende homenagear a rica herança portuguesa e a história da pesca em Provincetown.

A capa do programa da festa é o barco de pesca da lagosta Miss Lilly, capitaneado por Mike Rego e batizado em homenagem à sua filha e da sua esposa Tasia, que foi escolhido para ser o barco principal na bênção deste ano, no dia 28 de junho.

Mike começou a trabalhar aos 12 anos nos barcos do pai e continua homem do mar. O Miss Lilly foi pintado por Bill Fitts, artista residente há muito em Provincetown e a imagem do barco aparece também nas t-shirts e hoodies que estarão disponíveis durante a festa.

Este ano, o Festival Português de Provincetown inclui uma exposição de João de Brito, Paula Dias e outros pintores portugueses no Fishermen’s Wharf, onde o antigo bacalhoeiro Gazela I, construído em Portugal, em 1883, estará aberto ao público.

O festival, que inclui prova de vinhos portugueses, a tradicional sopa de couves portuguesa e fados com Célia Maria, termina domingo com missa na igreja de São Pedro e São Paulo, seguindo-se a bênção da frota pesqueira pelo bispo de Fall River, D. Edgar Moreira da Cunha.

Provincetown, na extremidade do Cape Cod, foi onde os Puritanos que viajavam no Mayflower desembarcaram primeiro em 1620, mas não se instalaram e preferiram seguir viagem e fundar a colónia de Plymouth, no outro lado da baía.

Provincetown nasceu por volta de 1700, da caça à baleia, mas um século depois pendurou o harpão e dedicou-se a outras pescas. Em 1800, mandava mais de 700 barcos ao mar, surgiram secas de bacalhau, fábricas de conservas, salinas, que chegaram a ser 70 e os comerciantes e armadores bem sucedidos começaram a construir as suas mansões nas ruas Bradford e Commercial, que estão hoje convertidas em pensões, restaurantes e nightclubs. A vila tem nada menos de 70 hotéis e motéis.

O primeiro português aparecido em Provincetown parece ter sido Joseph Cross (José Cruz?), em 1828. Casou com uma jovem da terra e ganhou fama e proveito a capitanear embarcações.

Em 1837, Provincetown tinha 93 bacalhoeiros e a maioria dos 1.113 pescadores eram portugueses, oriundos sobretudo dos Açores e quase todos antigos baleeiros que se tinham começado a fixar nas localidades piscatórias do Cape Cod, Gloucester e ilhas de Nantucket e Martha’s Vineyard. Ao tempo, um pescador ganhava a média de 300 dólares por ano.
Em 1885 viviam 848 portugueses em Provincetown e representavam um terço da população. Em 1900 eram mais de mil e começaram a surgir estabelecimentos com nomes como Silva, Cabral, Correia e Manta.

Este Manta era Joseph Manta, dono de cinco barcos, um deles o Júlia Costa, um dos primeiros clippers construidos nos EUA. Era um barco veloz e um dia largou de Provincetown às 6h da manhã, navegou 15 milhas para norte, apanhou 15 mil libras de bacalhau e, às 11h da noite, estava a descarregar em Boston.

Além do bacalhau, os pescadores tinham a alternativa da cavala, cujos cardumes passavam ao largo do Cape na primavera a caminho da Virginia e tornou-se um belo negócio, com capturas da ordem dos 18.000 barris.

Para dar escoamento a todo este pescado para Boston e New York, a Old Colony Railroad fez chegar o comboio a Provincetown.

Um dia a cavala desapareceu, preferindo as costas de África e a pesca entrou em declínio em 1900, mas nessa altura o comboio já tinha começado a trazer artistas e turistas e Provincetown descobriu que eram mais lucrativos do que os bacalhaus.

Em 1899, um dos mestres do impressionismo nos EUA, Charles W. Hawthorne fundou a sua Cape Cod School of Art, no ano seguinte E. Ambrose Webster abriu a Summer School of Painting, em 1914 foi constituída a Provincetown Art Association com 147 membros e, decorridos dois anos, funcionavam na vila cinco academias de pintura. Hoje, Provincetown tem 60 galerias de arte e cerca de 3.000 residentes que são artistas plásticos, escritores, poetas ou músicos.

Com a I Guerra Mundial tornou-se arriscado viajar para Paris e como Provincetown tinha um ar europeu e boas caldeiradas (o toque português) os poetas, escritores, pintores, atores, escultores, fotógrafos e outros boémios novaiorquinos converteram a vila num Greenwich Village by-the-sea. Assim Provincetown foi-se transformando de pequena vila piscatória de portugueses num colorido centro de artes e turismo. Em 1915, George Cram Cook e Susan Glaspell criaram os Provincetown Players, companhia teatral onde trabalhariam atores como Marlon Brando, Al Pacino e Richard Gere e cujo primeiro teatro foi o armazém de peixe do português Manuel Morris, a quem ficaram a dever vários meses de renda.

Nos anos 50, Provincetown era frequentada por gente como John dos Passos, Eugene O’Neill, Tennessee Williams, Jack Kerouac, Truman Capote e Norman Mailer.
Em 1951, o falecido Reggie Cabral abriu a Atlantic House, o primeiro bar gay, que passou a ser frequentado por cavalheiros de mãos dadas. Hoje em dia, embora no Festival Português a Commercial Street tenha algumas bandeirinhas verdes-rubras, quando os gays têm a sua festa toda a vila aparece com bandeiras do arco-íris para que todos saibam que Provincetown é um reduto gay como Key West.

 

Como se dão os portugueses de Provincetown com os gays? Bem, os portugueses vão hoje na terceira e quarta geração e estão mais preocupados com o pagamento das rendas do que com opção sexual dos hóspedes.

 

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