Bons e maus momentos de Magriços

by | Jun 24, 2026 | Expressamendes

 

Portugal saiu-se mal na estreia no Mundial

Para uma seleção candidata ao título, Portugal teve estreia pouco inspirada em Houston, no jogo Portugal-República Democrática do Congo, da primeira jornada do Grupo K do Mundial 2026. O empate de Portugal com o Congo (1-1) no dia 17 de junho surpreendeu o mundo do futebol. No dia seguinte ao jogo, a imprensa mundial não poupou a pobre exibição portuguesa e visou a sua figura mais mediática, Cristiano Ronaldo.

“Dez homens e uma estátua. Portugal sacrifica mais um Campeonato do Mundo ao ego de Cristiano Ronaldo (…) A exibição sem golos de Ronaldo frente ao Congo é o mais recente sinal de alerta para Martínez”, escreveu o The Independent sobre o jogo.

“Uma triste sombra do grande jogador que já foi”, escreveu o New York Times sobre CR7, acrescentando: “Não houve nenhum remate errado, nenhum mau passe, nenhum erro crasso. Nada que alguém pudesse usar para postar nas redes sociais para gozar com ele. Apenas… nada”.

Também o jornal espanhol Marca não poupou Cristiano com o título: “Uma estreia de partir o coração”. “Cristiano Ronaldo teve duas oportunidades dentro da área, mas perdeu o brilho até nesse aspeto do jogo. Entretanto, Roberto Martínez substituiu Bernardo Silva, Pedro Neto e Vitinha. Um a um, os grandes nomes desta seleção portuguesa foram saindo do campo. Todos, menos um”.

Já o jornal francês L’Equipe fala num “Portugal neutralizado”. “No jogo de estreia do sexto Mundial de Ronaldo, Portugal optou por oferecer ao mundo uma caricatura de si próprio”.

Em Itália, a Gazzetta dello Sport escreveu: “Portugal desilude, CR7 ainda mais. No Portugal de Martínez, em Houston, havia um problema evidente: Cristiano Ronaldo”.

Por sua vez, a BBC recorda que Ronaldo está em “dificuldades, soma 10 jogos consecutivos em grandes torneios sem marcar”.

No final do jogo, a máquina de propaganda de Cristiano apressou-se a divulgar que ele acabara de se tornar o jogador mais velho a representar a seleção portuguesa de futebol, superando o antigo defesa Pepe, e igualando o argentino Lionel Messi como recordista de presenças (seis) em Campeonatos do Mundo.

Com efeito, Ronaldo ultrapassou Pepe e, com 41 anos e 132 dias, passou a ser o mais velho de sempre na seleção portuguesa e juntou-se também ao seu rival Messi como os únicos jogadores da história do futebol a competirem em seis Campeonatos do Mundo.

Por sinal, Messi estreou-se neste Mundial dia 16 de junho com um ‘hat-trick’ na vitória dos atuais campeões sobre a Argélia (3-0) e, com esses três golos, aos 39 anos (nasceu a 24 de junho de 1987), passou a ser o jogador mais velho a marcar três golos num só jogo de um Campeonato do Mundo, destronando precisamente Ronaldo, que era detentor desse recorde desde 2018, com 33 anos, quando fez um ‘hat-trick’ frente à Espanha.

Portanto, como escreveu o jornal português A Bola, aos 41 anos “Cristiano Ronaldo já não tem nada a provar. Nem aos portugueses, nem ao futebol, nem a si próprio. A sua dimensão histórica está garantida para sempre. É chegado o momento de sair de cena com a mesma grandeza com que entrou”.

Cristiano já fez o que tinha a fazer, os responsáveis pela seleção é que não fizeram o seu trabalho, em especial o selecionador Roberto Martínez. A seleção de Portugal é um grupo de bons jogadores, mas não é uma boa equipa.

Quanto ao Cristiano, já anunciou que 2026 será o seu último Campeonato Mundial e que planeia jogar pelo Al-Nassr (Liga Profissional Saudita) até ao final do seu contrato no verão de 2027 (aos 42 anos), “embora os seus minutos em campo sejam cuidadosamente controlados devido à sua idade”.


 

Uma alcunha para a seleção

Um comentador da televisão portuguesa disse que o mal de Portugal é não ter uma alcunha para a seleção. Várias foram as alcunhas atribuídas à seleção portuguesa nas diferentes participações nos grandes torneios e nesse sentido, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) lançou o ano passado um passatempo para que os portugueses sugerissem uma nova alcunha à seleção lusa, mas aparentemente não resultou uma vez que Portugal continua sem alcunha.

Todas as seleções do Mundial 2026 têm alcunhas. Dos países organizadores, a seleção dos Estados Unidos são os “Stars and Stripes”, que remetem às estrelas e 13 listas da sua bandeira nacional; a seleção do Canadá são os “canucks”, gíria que os canadianos usam para se referirem a si próprios e a do México é “El Tri” em referência às três cores predominantes da bandeira mexicana (verde, branco e vermelho).

Outras alcunhas inspiradas nas cores da bandeira nacional: Equador é “La Tri” (azul, amarelo e vermelho); Catar é “Al Ennabi” (Carmesins); Suécia são os “Blågult” (azuis e amarelos); França “Les Bleus”, (os azuis) e Curaçao é “The Blue Wave” (Onda Azul), também em alusão à cor da bandeira.

Cinco vezes campeã, a seleção do Brasil passou a vestir amarelo após o Mundial de 1950 e alcunhada de canarinho, em referência ao pássaro com peito da mesma cor.

Outras seleções com alcunhas do nome de aves ou animais: Marrocos é “Leões do Atlas”, o animal que é símbolo deste país africano; Argélia é “Raposas-do-deserto”, animal nacional argelino; República Democrática do Congo é “Os Leopardos”; Uzbequistão são os “Lobos Brancos”; Costa do Marfim é conhecida por “Les Éléphants” (Os Elefantes); Cabo Verde é “Tubarões Azuis”; Tunísia é “Águias do Cártago”.

A seleção da África do Sul tem a alcunha de “Bafana Bafana”, que significa “os rapazes”, em Zulu, uma das línguas oficiais do país; a do Uruguai são os “Guaranis”, povo sul-americano cuja origem está em território paraguaio e a da Austrália é “Kangaroo”, animal símbolo do país.

Contrastando com todo este colorido, a seleção de Portugal continua vaga e oficiosamente a equipa “das Quinas”, em referência aos cinco escudos (Quinas) azuis que estão no brasão da bandeira portuguesa e que remetem à formação do país, no século 12.


 

Os bons tempos dos Magriços

Há 60 anos, em 1966, quando Portugal participou no seu primeiro Mundial em Inglaterra, a seleção portuguesa tinha a alcunha Os Magriços, uma ideia do selecionador Manuel da Luz Afonso popularizada através dos jornais desportivos que cobriam a seleção.

O nome remete para uma lenda do século XIV, “Os Doze de Inglaterra”, imortalizada por Luís de Camões em Os Lusíadas. A lenda narra a história de 12 cavaleiros portugueses que viajaram até Inglaterra para defender a honra de damas inglesas. Um desses cavaleiros chamava-se Álvaro Gonçalves Coutinho, conhecido como O Magriço. Como a seleção portuguesa viajou para o Mundial de Inglaterra em 1966 com 12 jogadores base, a imprensa associou o feito dos futebolistas a essa épica epopeia medieval e os Magriços do futebol fizeram uma campanha brilhante.

Portugal venceu todas as partidas da fase de grupos, acabou eliminado nas meias-finais pela anfitriã Inglaterra, mas garantiu o terceiro lugar ao vencer a União Soviética por 2-1. Eusébio foi a grande estrela do campeonato com nove golos marcados.

Os Magriços do futebol eram Fernando Cruz, Germano, Mário Coluna, António Simões, Eusébio, José Augusto, José Torres, todos do Benfica; Joaquim Carvalho, Alexandre Baptista, Hilário, João Morais, José Carlos, Fernando Peres, Ernesto Figueiredo e João Lourenço do Sporting; José Ferreira e Vicente Lucas, do Belenenses; Custódio Pinto e Alberto Festa, FC Porto; Jaime Graça, V. Setúbal, e Manuel Duarte, Leixões.

Atualmente, estão vivos apenas quatro Magriços: Vicente Lucas, 91 anos; José Augusto, 89; Hilário da Conceição, 87, e Simões, 83 anos.


 

Magriços nos EUA

Após deixar o Benfica em 1975, o Eusébio aventurou-se na extinta North American Soccer League (NASL) e jogou no Boston Minutemen (1975), Las Vegas Quicksilver (1977), New Jersey Americans (1978) e Buffalo Stallions (1979), equipa de futebol de salão onde terminou a carreira.

Quando deixou o Benfica, entre 1975 e 1979, António Simões jogou na NASL, representando três clubes: Boston Minutemen (1975); San Jose Earthquakes (1976-1977) e Dallas Tornado (1978-1979). Hoje, Simões é comentador desportivo da televisão em Portugal.

O terceiro magriço a vir para os EUA foi o defesa Fernando Cruz. Quando deixou o Benfica, onde conquistou duas Ligas dos Campeões europeus e oito títulos nacionais de Portugal, Cruz esteve um ano no Paris Saint Germain, mas optou por emigrar para os EUA fixando-se em Newark, NJ, onde viveu várias décadas e esteve ligado à orientação de clubes locais. Regressado a Portugal, Fernando Cruz viveu uns tempos em Cabanas de Viriato, distrito de Viseu, a sua terra natal. Radicou-se depois em Lisboa, onde faleceu em 2025, aos 85 anos e de prolongada doença.

Outro futebolista português que nessa época veio para os EUA, embora não tenha feito parte dos Magriços, foi Artur Correia, o popular “Ruço”, um dos melhores laterais direitos da Europa na década de 70.

Depois de ter ganho cinco campeonatos nacionais pelo Benfica, Artur transferiu-se para o Sporting e foi também campeão. Na época de 1979/80, Artur começou a jogar também no Tea Men de Boston. Artur jogava seis meses no clube norte-americano e na época de inverno outros seis no Sporting.

Em agosto de 1980, Artur regressou ao Sporting com o objetivo de ajudar os leões a revalidarem o título nacional, mas o infortúnio bateu-lhe à porta: a 24 de setembro de 1980 foi vítima de um acidente cardiovascular (uma trombose) e foi forçado a abandonar o futebol quando tinha apenas 30 anos de idade.

 

0 Comments

Related Articles