Santo António, em todo o lado ao mesmo tempo

by | Jun 17, 2026 | Expressamendes

 

Santo António de Lisboa, de Pádua e de toda a parte

Santo António veio ao mundo no bairro de Alfama, perto da Sé, em Lisboa e ao que se diz a 15 de agosto de 1195. Era filho de Martim de Bulhões, capitão do exército real, e de Maria Teresa Taveira de Azevedo, e o seu nome completo era Fernando Martins de Bulhões e Taveira de Azevedo.

Aos 15 anos, por ordens paternas, o menino Fernando teria estudado cavalaria e esgrima, mas não mostrou vocação para a carreira das armas, optando pela vida religiosa. Ingressou no Mosteiro de São Vicente de Fora, mantido pelos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho e a admissão do futuro Santo António consta dos registos históricos da instituição, que é hoje sede do Patriarcado de Lisboa.

Em 1211, Fernando tornou-se frade agostiniano e pediu transferência para o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, que era então a capital de Portugal, independente havia 68 anos.

No Mosteiro de Santa Cruz, Fernando era professor de teologia, mas tempos depois decidiu assumir nova identidade. Em 1220, vários missionários franciscanos passaram por Coimbra a caminho de Marrocos e conquistaram a admiração de Fernando, que contava então 25 anos e decidiu trocar o hábito de cónego pelo burel de frade franciscano mendicante da Venerável Ordem Terceira da Penitência (atualmente Ordem Franciscana Scunlar), fundada em 1209 por Francesco Bernardone, o futuro São Francisco de Assis.

Frei Fernando decidiu passar a chamar-se frei António de Santa Cruz e tentou ser missionário em Marrocos, mas era frágil de saúde e acabou por ser mandado para Itália em busca de tratamento. Devido ao mau tempo, a nau que o transportava foi parar à Sicilia, onde António permaneceu dois anos.

Um dia, a 8 de maio de 1221, António foi chamado a Forli para pregar na ordenação de religiosos dominicanos e franciscanos, revelou os seus dotes de pregador (é considerado o maior orador sacro do século XIII), e passou a fazer parte do Capítulo Geral da Ordem de Assis a convite do próprio Francisco de Assis.

Mas António era um homem doente. Sofria de ergotismo, intoxicação causada pela ingestão de cereais (como o centeio) contaminados e que contraem os vasos sanguíneos e provoca gangrena nas maõs e nos pés, convulsões e alucinações. Esta doença provocou surtos severos durante a Idade Média, especialmente pelo consumo de pão infetado.

No final da primavera de 1231, António foi acometido da doença. Colocado numa carroça puxada por bois, António foi transportado para Pádua, mas veio a falecer num convento em Arcella, aldeia na periferia da cidade, no dia 13 de junho, tinha 36 anos de idade.

Foi sepultado em Pádua no dia 17 de junho de 1231 e sobre o seu túmulo seria construída uma basílica. A sua fama de santidade levou o Papa Gregório a canonizar Santo António a 30 de maio de 1232, onze meses depois da sua morte e tornou-se um dos santos mais populares na história da Igreja Católica.

O culto de Santo António propagou-se com os missionários franciscanos na época dos descobrimentos marítimos e em todo o mundo há igrejas e capelas dedicadas ao santo português.

Santo António chegou ao Brasil com a colonização portuguesa, é possível que a primeira imagem tenha sido levada em 1500 pela frota de Pedro Álvares Cabral, uma vez que da guarnição faziam parte oito frades franciscanos. Hoje, a identificação dos brasileiros com Santo António é tanta que há no país 236 localidades com o seu nome.

Em Portugal temos apenas três localidades com o nome de Santo António: Vila Real de Santo António no Algarve e Santo António Nordestino e Santo António Além Capelas em São Miguel, Açores.

Em Angola, Santo António do Zaire ou Sazaire (atualmente Soyo), Dona Beatriz Kimpa Vita criou um movimento religioso chamado Antonianismo, mas acabou na fogueira da inquisição em 1676. No Metropolitan Museum, em NewYork, existe um peitoral de latão dessa época representando um Santo António preto.

Os franciscanos foram os primeiros missionários a vir para a América, tendo acompanhado Cristóvão Colombo na sua segunda viagem. A cidade de San Antonio, no Texas, deve o nome ao facto de uma expedição espanhola ter encontrado Yanaguana, uma aldeia dos índios Payaya no dia 13 de junho de 1691. O padre Damien Massanet criou a pequena missão de Santo António, que hoje é a sétima maior cidade dos Estados Unidos.

Além de dezenas de igrejas, existem nos Estados Unidos colégios, mosteiros e alguns seminários com o nome de Santo António, e a única empresa vinícola especializada em vinho sacro é a San Antonio Winery, em Los Angeles, fundada em 1917.

Santo António de Pádua é orago da mais antiga igreja italiana em New York, na Sullivan Street, aberta ao culto em 1856 e que nos últimos anos tem sido também a igreja dos portugueses residentes no Greenwich Village, tendo no exterior as imagens da Virgem de Fátima e dos três pastorinhos.

A igreja de Santo António em Manhattan tem estado em festa que terminou dia 13 de junho com uma procissão percorrendo as ruas do bairro e em que uma relíquia do santo é levada para veneração.

Outra popular celebração antoniana novaiorquina é de 10 a 14 de junho, a Festa do Giglio di Sant’ Antonio de East Harlem, que se realiza desde 1908.

Não faltam festas de Santo António em New York, mas a grande festa de Santo António nos Estados Unidos tem lugar no último domingo de agosto em Boston. Foi iniciada em 1919 por imigrantes italianos oriundos de Montefalcione, localidade a leste de Nápoles.

O ponto alto da festa é a procissão com a imagem de Santo António, que leva dez horas a percorrer o North End, os devotos fazem as suas promessas pendurando notas na imagem do santo e a procissão rende mais de cem mil dólares para obras sociais.

Santo para todas as devoções, nos Estados Unidos e em quase todo o mundo Santo António é sobretudo de Pádua. Em Massachusetts existem 23 igrejas de Santo António, 17 são de Santo António de Pádua, três do Santo António de Lisboa e outras três de Santo António do Deserto, o Santo António dos maronitas, os cristãos católicos orientais.

Santo António só é de Lisboa nos países de língua portuguesa e um santo muito atarefado, pois, além de cuidar do Menino Jesus, ainda consertava as bilhas das donzelas e arranjava-lhes noivo quando se tornavam casadoiras.


 

Um tostãozinho pró Santo António

Sem dúvida que Lisboa é a cidade que mais celebra Santo António, ou não fosse filho da terra. Portugal tem 62 santos e beatos, mas Santo António é o único lisboeta e uma lenda conta que, no momento da sua morte em Pádua os sinos das igrejas de Lisboa começaram a tocar sozinhos num fenómeno que é tido como um anúncio milagroso da sua santidade.

Santo António é o começo do ciclo festivo dos santos populares em Portugal, triunvirato de que fazem também parte São João, cuja festa maior é dia 23 de junho no Porto, e São Pedro.

Criei-me com Santo António num tempo em que cada rua dos bairros populares (agora chamam-lhes históricos) tinha o seu arraial. A miudagem montava um altar com um santinho de barro e pedinchava aos passantes “um tostãozinho pró Santo António” e o dinheiro destinava-se à compra de papéis coloridos para engalanar a rua e pagamento da trupe que animaria o bailarico do arraial.

Esta pedincha remonta a 1755, quando o terramoto destruiu a igreja de Santo António na Rua das Pedras Negras e foi preciso construir nova igreja. Os putos de Lisboa é que arranjaram o dinheiro pedindo “cinco réisinhos” para o Santo António.

Os miúdos de Lisboa já não pedem um tostãozinho pró Santo António, mas o ciclo festivo de Santo António inclui os Noivos de Santo António que casam na Sé com a boda oferecida pela câmara municipal numa iniciativa lançada em 1958 pelo jornal Diário Popular. Os noivos de Santo António desapareceram com a revolução de 1974 e só voltaram em 1997, com patrocínio municipal.

Quanto às marchas populares de Lisboa continuam a desfilar no dia 12 de junho pela Avenida da Liberdade numa tradição que, decorridos 94 anos, também sobrevive graças ao patrocínio autárquico (800 mil euros) e a um concurso ganho em 2026 pela Marcha de Alfama com o tema “Os santos devem estar loucos”. A Marcha de Alcântara conquistou um honroso segundo lugar na classificação final e a Marcha da Madragoa completou o pódio, alcançando o terceiro lugar.

Depois das marchas, é rumar a Alfama para um pé de dança ou uma sardinha assada, cujo preço em Lisboa disparou em relação aos anos anteriores. Nos supermercados e peixarias, o quilo ronda 8 euros. Nos arraiais dos Santos Populares, a sardinha assada no pão custa entre um euro e meio e três euros a unidade e nos restaurantes uma dose típica (seis unidades com acompanhamentos) fica por cerca de 18,95 euros.

É também tradição de Santo António comprar um manjerico no Rossio ou Praça da Figueira, que deve ostentar bandeirinha ou cravo de papel e uma quadra popular.

Por sinal, há uma quadra popular sempre em voga e onde só mudam os nomes consoante quem está no poder:

Ó meu rico Santo António

Meu santinho milagreiro

Vê se levas o Montenegro

P’ra junto do Sá Carneiro

 

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