Bem-vindos à nova era de ciclos governativos mais curtos.
Muita gente ficou espantada – especialmente os parceiros da coligação – com a declaração de Bolieiro sobre o fim da coligação em 2028, quando ainda faltam dois anos de governação.
O “tacticídio” do líder do PSD-Açores tem uma explicação básica, sustentada na convicção de que a coligação esgotou-se, já não é credível junto da população e confirmada pelos estudos de opinião encomendados pelos partidos.
Este curto período de governação, em contrapartida com os longos períodos de poder absoluto do PSD e PS, não deveria surpreender ninguém, porque o ecossistema político da Região sofreu uma transformação estrutural profunda, a partir de Outubro de 2020, caracterizada pelo fim da era das maiorias absolutas estáveis e pela redução dos ciclos governativos.
A fragmentação partidária e o consequente desgaste das instituições tradicionais desenharam um novo paradigma de governabilidade no arquipélago, com a pulverização do voto, que alterou definitivamente a mecânica parlamentar regional.
Com o fim do bipartidarismo, com o aparecimento de novas forças políticas, com a erosão dos partidos tradicionais e a falta de reformas profundas, vamos assistir, cada vez mais, a alguma instabilidade governativa, com a sobrevivência dos executivos a depender de coligações complexas.
Acresce a tudo isto, a falta de confiança dos cidadãos no sistema, provocando uma crise de representatividade na região que é alimentada pela conduta continuada das elites políticas tradicionais, algumas sem agenda ideológica e programática, a não ser acirrar o eleitorado minoritário com populismos e bairrismos.
Desde há muito tempo que a prioridade dos partidos tradicionais focou-se na preservação de clientelas políticas e a manutenção do poder a sobrepor-se à resolução dos problemas reais dos açorianos, provocando um desgaste institucional com a captura de estruturas públicas para fins partidários.
Como resultado, 50 anos depois, temos um continuado distanciamento entre governantes e governados, que atingiu níveis críticos devido a falhas éticas sistémicas e o descontentamento a refletir-se no afastamento das urnas e na rejeição do sistema.
O futuro político dos Açores exigirá uma reformulação urgente das práticas governativas, com vista a restabelecer a confiança.
Sem uma regeneração ética profunda dos partidos tradicionais e sem a capacidade de estabelecer consensos alargados num quadro de fragmentação, a região arrisca-se a entrar num ciclo prolongado de paralisia política, prejudicando o desenvolvimento socioeconómico e a eficácia da própria autonomia regional.
É neste sentido que o maior partido da governação se quer apresentar ao eleitorado como a alternativa à própria coligação.
Mesmo que se mantenha a actual geometria eleitoral em futuras eleições, há quem esteja convencido no interior do PSD que é possível uma maioria com o acordo parlamentar do Chega e do IL ou PAN, dispensando os restantes parceiros.
Os sociais-democratas levaram dois anos a perceber isso, à semelhança do governo, que levou dois anos a perceber que errou no processo de privatização da SATA, dois anos a perceber que errou na recuperação do Hospital de Ponta Delgada, dois anos a perceber que estava a fazer asneira no sector do turismo, dois anos a perceber que errou na avaliação das relações com o Governo da República e dois anos a perceber que a coligação se tinha esgotado.
Como castigo, vai ter dois anos de calvário de governação, até 2028, porque o PS e o Chega perceberam, mais cedo, que é preferível deixar o saco de gatos em lume brando, do que provocar, agora, a queda do governo.
E nós, cidadãos contribuintes, vamos ter que carregar a cruz.



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