Lembranças da Luz Velha Por Alfredo da Ponte

by | Jun 3, 2026 | Opinião

 

Na recente fuga à rotina quotidiana, na qual visitámos o norte do Estado de Nova Iorque, tivemos oportunidade de apreciar, mais uma vez, o uso da água como força motriz, principalmente no fabrico de eletricidade, tal como o havíamos conhecido em São Miguel no início dos anos setenta do século passado.

Segundo dados oficiais, naquele Estado existem 33 centrais hidroelétricas. Pondo de parte as gigantescas usinas das Cataratas de Niágara, há localidades que possuem várias unidades, como é o caso de Watertown e de Croghan, a primeira contando com seis, e a segunda com três. Nenhuma destas cidades visitámos, porque estavam fora da nossa rota. Passámos sim, pela cidade de Ithaca, de onde realçamos o facto de ali haver vários postos de produção de energia, com especial destaque para a Universidade de Cornell, que só por si é dona de quatro centrais, sendo duas hídricas, uma solar e outra alimentada a gaz natural.

De seguida dirigímo-nos a Cohoes, para apreciar as suas afamadas cascatas. A cidadela situa-se no nordeste do Condado de Albany, e é conhecida por “Cidade do Fuso”, devido à importância da indústria têxtil para o seu crescimento no decorrer do século XIX, processando o algodão vindo dos Estados do Sul. Nos nossos dias é considerada uma pequena localidade, e de acordo com os censos, em 2020 a sua população era de 18.174 habitantes. Naquele tempo chegou mesmo a ser o ponto da produção têxtil número um dos Estados Unidos, até ser ultrapassada por Lowell, em Massachusetts, e mais tarde por Fall River, que também ganhou o título de “Cidade do Fuso”. Portanto, os fuseiros não são só os ribeiragrandenses de São Miguel, porque não falta fusos por este mundo fora.

Chegando ao local das Cataratas de Cohoes, a gente começou a ver muitos edifícios parecidos com os de Fall River. Pensámos e estávamos certos: eram as velhas fábricas, transformadas em complexos habitacionais.

Mais acima, uma formosa represa, que mais parecia uma pequena lagoa, inserida num parque florido, do qual se pode apreciar as famosas cascatas, ao fundo. Tem os nomes de Falls View Park e Overlook Park, sendo propriedade da empresa Erie Boulevard Hydropower LP, uma subsidiária da Brookfield, que ali opera a sua central elétrica de cinco turbinas, com o nome de School Street Hydroelectric. Uma instalação de energia renovável de 38 MW, que ali funciona desde 1915.

Começámos por apreciar o parque, que é aberto ao público, como se fosse municipal, ou estadual, e depois de passar uma ponte suspensa por cima da represa, reparámos que havia uma gigantesca escada de ferro, com uma inclinação a rondar 35 graus, servindo de acesso a uma plataforma de observação das cataratas, e até mesmo à própria central, que está situada na margem, a cerca de dez metros de altura do leito do rio Mowawk.

Já se sabe que a faceta seguinte não ia ficar atrás. Iniciámos a descida dos oitenta e seis degraus; e quando estávamos a meio da escada, a trepidação levou-nos ao Salto do Cabrito, na Ribeira Grande, e fez o tempo recuar cerca de meio século, porque as paisagens apesar de serem um pouco diferentes, no meio e no espaço, apresentaram-se com muitas semelhanças, trazendo estas lindas recordações:

Decorria o ano de 1978. Os Rapazes da Rua já haviam iniciado as expedições à furna do Mato do José do Canto, atrás do Pico Vermelho, onde fora encontrado um esquelete humano; e apaixonados pela natureza da ilha, o grupo estava decidido a explorar cada recanto dela.

Entre uma troca de palavras, com o futuro em conversa, um dos rapazes veio com a ideia de se aumentar o tempo de duração das aventuras. Assim sendo, seria necessário, pelo menos, passar as explorações de um dia para um fim de semana completo. Há que recordar que nas mentalidades de então, e no próprio sistema, o fim-de-semana era o segundo meio-dia de sábado e o domingo inteiro.

Posto isto, tudo muito lindo. Um acampamento seria a forma ideal para melhor se sentir a ilha. Mas não havia tendas à disposição, e a compra de uma não era fácil. Em resposta a este problema, veio de um membro do grupo uma claridade objectiva com a Luz Velha em mente.

A Luz Velha era a central hidro-elétrica do Salto do Cabrito. Um casarão, visto ao longe, ali perto da formosa cascata que toda a gente nos nossos dias conhece. Sabemos que ali funciona, atualmente, uma pequena fábrica de energia elétrica, de uma turbina só: e também fomos informados de que a outra central, mais acima, na Fajã do Redondo, conhecida naquele tempo por Luz Nova, foi desactivada há alguns anos, cerca de duas décadas, ou pouco mais, dando lugar a um espaço museológico.   

Voltando o fio à meada, como é o nosso condão de fuseiro, que tanto fio faz e pouca linha enrola, há a dizer que a ideia de ali acampar foi recebida por todos com o maior entusiasmo, e a aventura ficou combinada para o terceiro fim-de-semana de Julho, precisamente a 15 e 16 daquele mês. A tarefa mais difícil foi a de convencer os pais da rapaziada, porque, afinal, nenhum deles era de maior idade; e esta coisa de passar uma noite fora de casa não era encarada de bom agoiro. Praticamente cada um, em sua casa, teve de descrever a lista dos acompanhantes. Visto tratar-se de boa gente, as licenças foram concedidas, depois do sermão habitual das boas normas e recomendações.

Encontraram-se no sábado, pelas três da tarde, em frente ao Teatro Ribeiragrandense, e meia hora depois já tinham passado pelos Fóros. Chegando às imediações do Pico Vermelho, viraram para a Ribeira do Teixeira; e passando o entroncamento do caminho dos Cachaços, continuaram na direção da Luz, na frescura de tenras árvores de criptoméria, ali plantadas há menos de cinco anos. Por fim, chegaram a uma clareira. Um verde prado, onde pastavam algumas vacas leiteiras, à direita do atalho que seguia junto à ribeira. Pararam na nascente de água gasosa, que para os conhecedores do local era sempre uma paragem obrigatória. Muita gente preferia esta água à das Lombadas, por não ter tanto gás e melhor matar a sêde.

Chegaram ao casarão abandonado, que naqueles dias tinha a porta destrancada, e entre-aberta. Lá dentro ainda se encontrava quase toda a maquinaria, com destaque para as três velhas turbinas, ligadas aos respectivos geradores. Ali se encontrava também alguns transformadores, ou aparelhos idênticos. Uns do tamanho de panelas de três pés, outros mais pequenos, contendo óleo, e ligados entre si por fios de cobre, isoladores de louça, conjuntores-dijuntores, e outros materiais. Numa pequena prateleira encontrámos uma planta gravada em papel um tanto-quanto cor-de-rosa, que apresentando uma data de meados dos anos sessenta tinha por título a “Remodelação da Central do Salto do Cabrito”, que nunca chegou a ser efectuada. Este pedaço de papel fizemos questão de guardar catedráticamente. Até à nossa vinda para os Estados Unidos, em maio de 1984.

O casarão, bem conservado, caiado por dentro e por fóra e dotado de um pátio ajardinado, não ficou às escuras naquela noite, porque um idiota do grupo lembrou-se de fazer três ou quatro lamparinas, usando o óleo dos transformadores. Para todos, aquele foi um serão inesquecível, do pôr ao nascer do sol, com tantos risos e gargalhadas.

Ao raiar o novo dia, veio a lembrança de se ter visto algumas vacas leiteiras numa pastagem ali perto. Por isso o grupo resolveu “atacar” o vaqueiro na altura em que fazia a ordenha. O ataque (salvo seja!) rendeu cerca de um litro de leite quente a cada um, causando a todos, pouco depois, uma caganeira brava. Antes de regressar a casa foi imperativo um banho de água fria, ali, ao lado, no poço do salto, com sabão branco e azul. O pessoal tanto gostou do acampamento, que ali voltou duas semanas depois. Há que louvar o grupo por ali não ter deixado sinais de vandalismo, ou outras formas de destruição.

Por detrás do edifício estava ligada ao rochedo circundante a tal escada de ferro que ligava a velha central à sua pequena barragem, que lhe ficava em cima, mesmo à beira do abismo, por onde se espreitava a fúria da água ondulando no salto, que para muitos, com razão, é a queda de água mais linda de São Miguel.

Em 2015 voltámos a subir e a descer uma escada naquele preciso local. Se não é a mesma de 1978, é outra que a veio substituir. A antiga pequena represa já não existia porque a água que era encanada para a Central Nova (da Fajã do Redondo) agora por ali passava, dentro de um cano, para fazer funcionar a nova geradora de uma só turbina, construída no antigo assento da saudosa Luz Velha.

Quanto ao velho casarão, lajeado por dentro e por fora com fina pedra de lavoura, embelezado com o seu balcão ajardinado (a nossa casa de sonho), pusemos-lhe os olhos em cima pela última vez em abril de 1984, quando acompanhados pelo nosso irmão José Francisco, e partilhámos a merenda no pátio, ainda meio ajardinado, depois de ter apanhado uma dúzia de trutas no pedaço de ribeira compreendido entre as duas centrais: a velha, e a nova. Só no poço do Salto do Cabrito capturámos quatro lindos peixinhos, com bonitas dimenções.

E hoje ficamos por aqui, porque a saudade que nos ataca é insuportável e sufocante.

Por favor, sejam felizes. Haja saúde!

 

Quando a juventude passa

Sem ter peso nem medida

Dá um ar da sua graça

Em poucos anos de vida.

 

Fui ao Salto do Cabrito

Quatro trutas apanhar.

Aquele lugar bonito

Não cansa de me encantar.

 

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