Há dias — e sinto que já são demasiados — em que eu não escrevo por vontade. Escrevo por necessidade. Não começo com uma ideia luminosa (nunca as tenho) nem com um projeto estético. Começo com um aperto. Um peso no peito que não se dissolve. Uma espécie de chama baixa que me inquieta por dentro e me diz: se não escreveres, algo em ti vai quebrar-se em silêncio.
O mundo fala demais. Grita, opina, acusa, exibe-se. E, no entanto, sinto que cada vez diz menos. Há um ruído constante que nos ocupa os ouvidos e uma ausência brutal de sentido que nos ocupa a alma. É nesse intervalo — entre o excesso de palavras e a falta de verdade — que eu me sento diante da página. A página já não é branca: é um espelho. É um campo de batalha. É um lugar de sobrevivência.
Escrever, para mim, tornou-se a forma mais honesta de respirar. Não no sentido redentor, nem como quem acredita que a literatura salva o mundo — essa ingenuidade já a perdi. Mas salva-me. Salva-me porque abranda o tempo quando tudo corre. Porque me obriga a escutar aquilo que eu próprio tento evitar. Porque devolve espessura ao que a pressa tornou raso. Num mundo enamorado do ter, da acumulação, da performance e da vitrine, escrever é o meu regresso ao ser. É o meu gesto contra a vertigem do consumo. É a minha recusa em aceitar que a dignidade se mede em gráficos e que o valor humano se resume a resultados.
Vivemos fascinados pelo que possuímos e, cada vez mais, distantes daquilo que somos. Vejo-o todos os dias. O sucesso tornou-se espetáculo. A falência moral esconde-se atrás de discursos eficazes. A política — que deveria ser o exercício mais nobre do cuidado coletivo — tornou-se um teatro de brutalidades, um jogo de forças em que a ética parece um detalhe dispensável. Alianças desmancham-se como objetos descartáveis. Pactos sociais são rasgados sem memória. O trabalho é desvalorizado. O estudo é tratado como um ornamento inútil. O pensamento crítico é visto como uma ameaça.
E eu escrevo.
Escrevo porque sinto que o silêncio seria cumplicidade.
Escrevo com luto — pelo que foi perdido: a ideia de bem comum, de solidariedade concreta, de responsabilidade partilhada. Mas escrevo também em vigília. Recuso-me a adormecer. Recuso a anestesia. A escrita mantém-me desperto. Diz-me que nem tudo desapareceu. Está ferido, sim. Está exausto. Mas ainda respira. Ainda pode ser nomeado. E nomear é um ato de resistência.
Há uma violência silenciosa nas políticas que desprezam quem trabalha, quem estuda, quem ainda acredita na utopia da liberdade e da igualdade. Uma violência que não explode — corrói. Feita de precariedade, de medo, de erosão lenta. Sinto-a na pele do tempo. Contra isso, a escrita não é ornamento. É trincheira. É uma ferramenta. É ferida aberta que se recusa a fechar enquanto a injustiça for tratada como inevitável.
Chamam ingénuos aos que ainda acreditam na liberdade como tarefa e na igualdade como horizonte. Talvez eu seja um deles. Talvez eu escreva precisamente para não deixar que essas palavras sejam esvaziadas pelo cinismo. Escrevo para que não se tornem slogans mortos. Escrevo para lembrar que a humanidade não é um dado adquirido — é um compromisso.
A escrita organiza-me por dentro. Dá forma ao caos que me atravessa. Transforma a indignação em pensamento. Transforma a dor em memória partilhável. Se não escrevesse, talvez enlouquecesse diante da normalização do absurdo. Escrever é o meu exercício de lucidez num tempo em que a mentira se apresenta como pragmatismo e a crueldade se disfarça de realismo político.
Há coragem em escrever hoje — sinto-o — porque escrever é ir contra a corrente da superficialidade. É escolher a complexidade quando tudo pede simplificação. É afirmar que o humano não é descartável. Que a história não começou ontem. Que o futuro ainda não está selado.
Escrevo não porque tenha respostas, mas porque me recuso ao vazio.
Escrevo para salvar o que ainda pode ser salvo em mim: a dignidade, a memória, a possibilidade de imaginar um mundo menos injusto. Escrevo porque, se me calar, algo essencial se extingue. Escrevo porque o silêncio, nestes dias, soa demasiado próximo da desistência.
Escrever é o meu gesto mínimo contra o colapso. A linha frágil entre ceder e continuar.
É como acender um fósforo num quarto sem janelas — não para iluminar tudo, mas para reconhecer, por um instante, o meu próprio rosto. Cada frase é uma pequena insubmissão à noite. Uma maneira de permanecer de pé quando tudo parece querer que eu me ajoelhe.
Escrevo porque preciso de flutuar entre os destroços. Porque preciso de respirar no meio da ruína. Porque preciso de deixar um sinal — ainda que mínimo — de que estive aqui, consciente, inquieto, recusando o entorpecimento.
Não é vitória. É vida. É, para mim, simplesmente — e urgentemente — um gesto de sobrevivência.





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