Falar, gritar em surdina, pode-se dizer o que se quer!…

by | Apr 1, 2026 | Gazetilha (Zé da Chica)

 

Eu grito que desatina

Tudo quanto estou sofrendo,

Mas, meu grito é em surdina

Grito, mas ninguém entende!

 

Grito sim, num desespero,

Dentro de mim a lutar,

Eu digo tudo o que quero,

Sem ninguém o reclamar!…

 

Chamo nomes, até feios,

Como se fosse um feitiço,

Meus ódios, meus devaneios,

Nenhum deles dá por isso!…

 

Depois, penso, penso, penso,

Parece ser um atraso,

O meu sofrer é imenso,

Sofre, mas ninguém faz caso!…

 

Mas a surdina é meu presto,

Não me impede de gritar

E eu grito, nem faço um gesto,

O gesto pode falar!…

 

Meu cérebro forma um enredo,

Envolta dum  devaneio,

O que sinto, não é medo!

É um termendo  receio!…

 

E este receio me domina,

Minhas maneiras são calmas,

Eu grito, grito em surdina,

Por vezes batendo palmas!

Quando notado, acontece

Ser vigiado a rigor,

Por vezes desaparece

Ou é preso por traidor!…

 

Se a voz tem de ser ouvida,

Porque nos aponta alguém,

Não temos outra saída

Senão se dizer Amem!…

 

Este Amem  é  dito a esmo,

Mas, depois há que pensar,

Pedir perdão a mim mesmo,

E em surdina perdoar!…

 

Depois, na face um sorriso

Qu’ é do sinismo o herdeiro,

Sempre que ele é preciso,

Para enganar o parceiro!…

 

Só assim desta maneira

Meus amigos podem crer,

Em surdina e em cegueira

Nós conseguimos viver!…

 

Tudo que aqui vai escrito,

Há que por muita atenção,

Uns, irão achar bonito,

Mas outros, penso que não…

 

A vivência nos ensina

Muito, amigos podem crer,

Quem grita e fala em surdina,

Pode dizer o que quer!…

 

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