Presença lusófona nos Oscars 2026
A cerimónia de entrega dos 98th Academy Awards (ou Oscars 2026 em português), homenageando os melhores atores, técnicos e filmes de 2025, terá lugar dia 15 de março no Teatro Dolby em Los Angeles, Califórnia, e será apresentada pelo comediante Conan O’Brien pelo segundo ano consecutivo.
A presença lusófona nesta edição dos Oscars tem exclusivamente sotaque brasileiro devido a um percalço do concorrente português.
Os cineastas da Academia Portuguesa de Cinema escolheram a longa metragem “Banzo” para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Internacional, um filme de Margarida Cardoso, realizadora e docente de cinema na Universidade Lusófona, de Lisboa.
A palavra banzo significa a nostalgia dos escravos angolanos forçados a sair de África para trabalharem em plantações no Brasil, onde se sentiam deslocados e com saudades das suas tribos. Está ligada ao kimbundo, língua falada nas províncias angolanas de Luanda, Bengo e Malange. Banzo deriva de mbanza, que significa aldeia e banzo será saudades da aldeia e, por extensão, da terra natal.
O filme, que foi rodado em São Tomé e Príncipe, retrata a relação violenta entre os colonos portugueses e os escravos negros através da história de um jovem médico.
“Banzo” foi distinguido no Festival Indie Lisboa e está selecionado para os Prémios Maondo na Colômbia e Prémios Goya em Espanha, tendo sido também o filme que, entre cinco títulos, conquistou o maior número de votos dos membros da Academia Portuguesa de Cinema para representar Portugal na corrida para o Oscar de Melhor Filme Internacional na 98.ª edição dos prémios.
Porém, “Banzo” não passou na fase de pré-seleção (shortlist) e, segundo foi tornado público em Portugal, foi excluído pela Academia de Hollywood pelo facto de ser maioritariamente falado em inglês.
Trata-se de um filme de língua portuguesa, mas onde a Academia de Hollywood considerou que se fala demasiadamente inglês, critério que não faz muito sentido, mas de qualquer forma e uma vez que não temos concorrente português, esperamos que o Brasil seja bem sucedido.
A Academia Brasileira de Cinema submeteu “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, e é o único candidato de língua portuguesa ao cobiçado prémio da Academia de Hollywood.
Trata-se de um filme de suspense ambientado ao Recife e a 1977 e que tem a sua narrativa marcada por tensões políticas e vigilância durante a ditadura militar brasileira. O protagonista, Marcelo (Wagner Moura) é um ex-professor universitário que foge de um passado misterioso de São Paulo para o Recife, onde decide assumir uma nova identidade e tenta reconstruir a vida, mas passa a conviver com a constante sensação de estar sendo seguido.
“O Agente Secreto” vem acumulando prémios: Melhor Filme Internacional no Film Independent Spirit Awards, Los Angeles; Melhor Filme Internacional e Melhor Ator nos Golden Globes, Los Angeles; Melhor Diretor e Melhor Ator, além de prémios FIPRESCI e Prix des Cinémas d’Art et Essai no Festival de Cannes, França.
Nos Oscars, “O Agente Secreto” tem possibilidades de receber uma estatueta, uma vez que está nomeado em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Elenco.
Vários portugueses fazem parte da Academia de Hollywood
A Academy of Motion Picture Arts and Sciences (AMPAS), responsável pelo Oscar, possui atualmente mais de 11.000 membros espalhados por mais de 70 países, dos quais 44% são mulheres, 41% pertencem a comunidades étnicas e 56% são de países fora dos Estados Unidos.
Cada dia mais próxima de completar 100 anos (será em 2027, uma vez que foi fundada em 1927), a Academia de Hollywood responsável pela organização da cerimónia do Oscar procura expandir a sua representatividade admitindo anualmente novos membros e mais de 50% vieram de fora dos Estados Unidos.
Foram admitidos 683 membros em 2016; 774 em 2017; 928 em 2018; 842 em 2019; 810 em 2020; 395 em 2021; 397 em 2022; 398 em 2023; 487 em 2024 e 534 em 2025.
Os membros são convidados com base nas suas contribuições para o cinema e a nomeação para um Oscar implica automaticamente convite para membro e direito ao voto na premiação divididos em 19 ramos técnicos da indústria cinematográfica.
Cada membro da Academia vota nas categorias correspondentes à sua área profissional, atores votam nas categorias de Melhor Ator ou Atriz e realizadores votam nas categorias de realização. No entanto, na votação final para escolher os vencedores, todos os membros da Academia podem votar em todas as categorias independentemente da sua especialização.
Vários cineastas e profissionais portugueses têm sido convidados a integrar a prestigiada Academia de Hollywood: a diretora de casting Patrícia Vasconcelos e os produtores Luís Urbano e Joana Vicente, foram admitidos em 2015; o editor de som Nelson Ferreira e o designer Luís Sequeira, ambos canadianos com raízes em Portugal, foram convidados em 2018; os realizadores Abi Feijó, João Gonzalez, Regina Pessoa, Mónica Santos e Bruno Caetano, ligados ao cinema de animação, foram convidados em 2023; o realizador Miguel Gomes, o primeiro português a vencer o prémio de melhor realizador no festival de Cinema de Cannes, foi admitido em 2025.
Refira-se que a produtora Joana Vicente, nascida em Lisboa, reside nos EUA, já foi diretora executiva do Sundance Institute, do Festival Internacional de Cinema de Toronto e do Gotham Film Institute e, além disso, produtora de mais de 40 filmes.
A luso-havaiana Auli’i Cravalho foi convidada este ano para membro da Academia de Hollywood.
Auli’i Cravalho é filha de Puanuni Freitas e Dwayne Cravalho e este original apelido parece ser resultado da anglização de Carvalho.
Auli’i tem ganho fama e feito fortuna graças às aventuras da menina havaiana Moana, que começou a interpretar aos 14 anos. Era para ser uma série da televisão, mas a Walt Disney preferiu fazer filmes de animação que tem sido sucesso em todo o mundo. Só o Moana 2 fez mais de mil milhões de dólares e Auli’i foi co-produtora. Rica e famosa, Auli’i está presentemente na Broadway, fazendo Cabaret.
Parabéns Ruy de Carvalho
O ator Ruy de Carvalho completou 99 anos de vida dia 1 de março e apareceu na televisão aparentemente recuperado do acidente vascular cerebral (AVC) que sofreu a 26 de dezembro do ano passado e obrigou ao seu internamento durante três semanas.
Com longa carreira em cinema, teatro e televisão, Ruy de Carvalho é atualmente o mais velho ator em atividade em todo o mundo e teve o seu problema de saúde quando andava em digressão com a peça “A Ratoeira”, baseada numa obra de Agatha Christie e conhecida por ser a peça há mais tempo em cena sem nunca ser interrompida. Estreou em Londres em 1952, há 73 anos, já Ruy de Carvalho era ator há onze anos.
Recorde-se que Rui Alberto Rebelo Pires de Carvalho, mais conhecido por Ruy de Carvalho, nasceu em Lisboa a 1 de março de 1927 e é filho do oficial do Exército João Pires de Carvalho (1881-1963) e de Aida Augusta Calado Rebelo (1884-1968), doméstica. Os pais apenas casaram civilmente em Lisboa, ambos em segundas núpcias, a 20 de setembro de 1928, mais de um ano após o nascimento de Rui, que teve dois meios-irmãos atores, João de Almeida e Maria Cristina Rebelo de Almeida, cujo nome artístico era Maria Cristina.
João de Almeida e Maria Cristina nasceram do primeiro casamento da mãe com o empregado no comércio Vicente Moreira de Almeida. João morreu novo, a irmã viveu até aos 93 anos e teve uma longa carreira no teatro, televisão e rádio, onde ganhou grande popularidade como membro do grupo dos populares Parodiantes de Lisboa.
Conheci Maria Cristina nos anos 50 como mãe do meu amigo Duarte Manuel Braga, colega no Colégio Clenardo, afamado colégio dos padres dominicanos na Rua do Salitre, em Lisboa, para os lados do Largo do Rato e onde, também tive como colega um filho do eterno Vasco Santana.
O Duarte morava com a mãe na Rua de Santa Marta, em Lisboa, a um minuto a pé da Avenida da Liberdade e onde costumávamos passar tardes a fingir que estudávamos. Naquela época, Ruy de Carvalho vivia com a irmã e o sobrinho.
Esclareça-se que Duarte Manuel era filho do ator Erico Braga, que teve um romance com Maria Cristina. O próprio Duarte Manuel gostava de falar do pai, prestigiada figura do cinema (fez 25 filmes) e do teatro, onde, além de ator e empresário, foi autor e deixou 266 obras. Faleceu em 1962, aos 69 anos de idade, vitimado por um aneurisma da aorta.
Quanto ao Ruy de Carvalho, quando o conheci já fazia parte da companhia do Teatro Nacional e não perdia muito tempo com o sobrinho e muito menos com os amigos dele.
Deixei o Clenardo em 1957 e perdi contato com o Duarte Manuel Braga em 1961, quando fui para Angola. Contudo, em Angola, tive oportunidade de entrevistar Ruy de Carvalho para a rádio nas digressões que fez a Angola nos anos 60 e 70. Tive o bom senso de não lembrar que o tinha conhecido vinte anos atrás em casa da irmã e não me parece que ele estivesse interessado nisso.
António José Seguro promete resolver problema do voto no estrangeiro
António José Seguro, o presidente eleito de Portugal que toma posse dia 9 de março, pretende aproximar os portugueses espalhados pelo mundo e apresentou um Manifesto de Prioridades Presidenciais para as Comunidades Portuguesas, no qual assume o compromisso de ser “o Presidente de todos os portugueses, onde quer que estejam”, colocando a diáspora no centro da afirmação de Portugal no mundo.
No documento, António José Seguro sublinha que “a nossa diáspora – cerca de cinco milhões de cidadãos – não é apenas memória ou saudade: é um ativo estratégico para o país, uma rede viva de talento, investimento, cultura e influência global”.
Entre as dez prioridades apresentadas, destaca-se o reforço dos direitos políticos e da participação cívica, com a defesa de métodos de voto mais simples e acessíveis para os residentes no estrangeiro, incluindo a uniformização do voto postal e presencial e o acompanhamento do desenvolvimento do voto eletrónico, garantindo segurança e confiança democrática.
A juventude lusodescendente merece atenção especial no manifesto, com propostas de reforço dos vínculos a Portugal através de bolsas, intercâmbios e estágios, bem como a criação do Prémio Juventude da Diáspora, sob Alto Patrocínio da Presidência da República.
No plano da proteção e dos direitos no estrangeiro, Seguro compromete-se a ser uma voz ativa na defesa dos portugueses em situação de vulnerabilidade, promovendo o diálogo com autoridades locais e organizações internacionais.
A diplomacia cultural e científica e o envolvimento direto da diáspora completam o manifesto, com a proposta de um Fórum Anual das Comunidades Portuguesas como espaço permanente de diálogo.
Na conclusão do documento, António José Seguro reafirma o compromisso de ser “o presidente de todos os portugueses”, defendendo que onde houver um cidadão português, estará Portugal, devendo o chefe de Estado ser sempre a sua voz.




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