Seria da mais pura ignorância e ridícula ingenuidade, alguém afirmar há poucos anos atrás que iríamos assistir às cenas criminosas que hoje acontecem por parte dos líderes das sociedades abertas e livres, liberais e progressistas, emanadas dos sistemas democráticos modernos do pós-revolução americana nas Colónias inglesas da América do Norte (1775-1783), bem como da Revolução Francesa (1789-1799).
Os progressos de bem-estar social que hoje se faz sentir – apesar do muito que há sempre a fazer – a paz ocidental que a todos acomodou numa acolhedora manjedoura durante os últimos 80 anos, fez-nos sentar na plateia do teatro da vida, assistindo a horrores que condenávamos em países – dizíamos – longínquos, tão distantes que nem os ventos os carregavam até nós; países de governos tiranos, déspotas e opressores, assassinos institucionalizados com representação em instâncias internacionais, porque, dizíamos, era melhor continuar a dialogar e aceitá-los, do que confrontá-los com piores resultados.
E o século XX foi fecundo nas dinâmicas da geopolítica mundial. As ditaduras mais pareciam uma pizza all dressed, com os mais diversos ingredientes, sabores e temperos.
António de Oliveira Salazar, Adolf Hitler, Getúlio Vargas, Benito Mussolini, Engelbert Dollfuss, Manuel Noriega, Francisco Franco, Augusto Pinochet, Fidel Castro, Kim Jong-il, Josef Stalin, Mao Zedong… E a lista é mais longa…
Os ditadores, nalguns casos, aproveitam as democracias mais fracas para se fazerem eleger, pondo de seguida em prática os seus planos de implementação do caos social, para daí justificarem a sua mão férrea ditatorial. Caso de Mussolini ou Hitler que foram eleitos em plebiscitos insuspeitos.
Os contextos podem ser diferentes, mas a ação humana não deixa de ser a mesma. Já nas velhas democracias gregas, há séculos de distância, os resultados provaram a mesma condição da razão humana. As ambições de alguns nunca faltaram ao encontro civilizacional do momento que justifica a mudança. Só que a mudança para ditadura, só serve para alguns. Os que impulsionam, bem como o grupo que os rodeia, que veem nisso a sua oportunidade para o descalabro, para o aproveitamento e enriquecimento pessoal rápido, bem como pelo prazer do poder absoluto que a todos acaba por corromper.
As democracias toleram, condescendem, são indulgentes e de uma complacência sem limites. Albergam um oceano de ideias, mesmo que contrárias aos princípios regentes, sem castigo. Escutam toda a espécie de retórica na esperança de seguirmos sempre mais alto em pensamento, em progresso comum, nesta imensa coletividade humana.
As ditaduras calam tudo e todos os que discutam os seus princípios, queima o intelectual, as leituras que possam informar ou lubrificar as ideias, prendem os audazes, os que ousam enfrentar, os que persistem em combater o aprisionamento de ideais, enfim tudo e todos que tenham a ousadia de estarem do outro lado do tapume.
Entre a Democracia, que tudo aceita, tendo apenas como fronteira o respeito mútuo e a vida balizada pela paz social dos sistemas judiciais, políticos e executivos e a Ditadura, que tudo prende, ofusca, limita a um único pensamento, única ideologia ou única religião, que abafa toda e qualquer contestação, que submete o ser humano às mais cruéis sevícias, que lhe retira toda a dignidade que a Idade das Luzes nos trouxe…
Não, Obrigado.





0 Comments