A astrologia acompanha a humanidade há milénios, movendo-se entre o sagrado, o científico e o simbólico com uma persistência que desafia épocas e paradigmas. Para se compreender a sua influência cultural é necessário recorrer a três dimensões que se entrelaçam: a história que a moldou, a ciência que a questiona, e a psicologia social que explica a sua permanência. A astrologia não se define apenas em termos de um conjunto de previsões. É um espelho das formas como procuramos fazer sentido da realidade que nos cerca, sobretudo quando o mundo nos parece escapara – ou em situações existenciais imprecisas ou confusas.
Olhando a sua história, a astrologia nasceu e mantém-se pela necessidade de organizar o tempo e interpretar o cosmos. Em épocas remotas, na Babilónia, no Egito e na Pérsia, observava-se o céu como se a interpretação de supostos relacionamentos siderais permitisse antecipar cheias, colheitas e eclipses, e até legitimar o poder político. Quem lia a comunicação astral detinha um poder grande – respeitado na sociedade – e não raro temido entre a elite. O rei que lia os céus controlava o destino. A astrologia era, portanto, uma tecnologia de sobrevivência e de autoridade. Quando os gregos a receberam, transformaram-na num sistema racionalizado. Subsequentemente, durante séculos, astrologia e astronomia eram ensinadas nas primeiras universidades europeias como partes complementares do mesmo saber comum.
A rutura só chegou com a modernidade científica. Entre os séculos XVII e XVIII, a física newtoniana, a observação telescópica e o método experimental exigiram explicações verificáveis. Incapaz de demonstrar causalidade física ou de ajustar as suas hipóteses perante resultados negativos, a astrologia perdeu estatuto académico. Estudos recentes, como os de Michelle Aroney, mostram que esta marginalização não foi apenas científica, mas também cultural e política. A astrologia representava um mundo simbólico que a modernidade queria ultrapassar. No entanto, apesar de expulsa das universidades, nunca desapareceu. Sobrevive como linguagem cultural, narrativa de sentido e como prática quotidiana.
Do ponto de vista científico, a astrologia foi testada com rigor. O estudo mais conhecido é o de Shawn Carlson, publicado na Nature em 1985, replicado em 2024 com resultados idênticos. Astrólogos profissionais tentaram combinar mapas astrais com perfis de personalidade em condições dúplices. Não houve consistência nos resultados. Outros estudos, envolvendo milhares de participantes, procuraram correlações entre signo solar e traços psicológicos, inteligência, compatibilidade amorosa ou profissão. Nenhuma correlação significativa foi encontrada, concluindo-se, portanto, que a astrologia não funciona como sistema preditivo. Na ausência de um mecanismo físico plausível que explique a alegada influência dos planetas no comportamento humano, a astrologia não se adapta quando confrontada com dados contrários.
Perante esta realidade, surge uma pergunta intrigante: se a astrologia não funciona como ciência, por que tanta gente a busca? A psicologia informa-nos que o cérebro humano detesta o acaso e por isso procura padrões, narrativas, ou explicações que organizem o caos da experiência. A astrologia, neste contexto, conforta-a com uma explicação simbólica que transforma o imprevisível em história. O psicólogo Bertram Forer demonstrou que as pessoas tendem a reconhecer-se em descrições vagas e positivas. A obliquidade da confirmação lembra-lhes os acertos e a esquecer os erros. É assim que a astrologia lhes oferece uma sensação de orientação, mesmo que ilusória.
Acrescentando uma outra perspetiva, a psicologia analítica de Jung rejeita os símbolos astrológicos como prognosticadores do futuro, mas vê-os como refletores de arquétipos do inconsciente coletivo. São metáforas estruturantes da experiência humana. Quando alguém diz “sou sagitário” não está a afirmar uma verdade astronómica, mas a apropriar-se de uma narrativa identitária. A astrologia funciona e resiste à extinção como linguagem simbólica, respondendo a necessidades emocionais, e relacionais de modos sobrevivendo nas dinâmicas culturais.
A astrologia renasce em situações de incerteza e ansiedade durante crises existenciais. Os jornais promovem-na com a publicação de horóscopos, mapas natais e leituras personalizadas, que os leitores assumem como forma de interpretar o mundo, de pertença e comunidade, que lhes dá a ilusão de legitimidade. Nas redes sociais, tornou-se também um espaço de humor, identidade e partilha. Não é preciso acreditar para participar, basta reconhecer a linguagem.
A astrologia, portanto, não é verdadeira no sentido científico, mas é real no sentido humano. É um sistema simbólico que atravessou civilizações, resistiu a revoluções científicas e continua a manifestar significado num tempo que muitas vezes parece carecer dele. Compreendê-la exige olhar para a história que a formou, para a ciência que a testou e para a psicologia que explica a sua persistência. Entre o céu e a terra, a astrologia continua a ser um espelho – não do cosmos, mas de nós próprios.





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