Na realidade, foram “só” 48 anos o período em que Manuela Álvares viveu no Japão, toda uma vida a ensinar português na universidade e também numa escola que fundou com o marido, José Álvares. Inúmeros diplomatas que passaram nestas décadas pela embaixada do Japão em Lisboa foram alunos dos dois, assim como alguns japoneses que se apaixonaram pelo fado e quiseram aprender o significado daquilo que cantava Amália, ou ainda outros que simplesmente pensavam numa oportunidade de emprego em Portugal, no Brasil ou na África Lusófona.
Depois do regresso a Portugal, que aconteceu em 2017, foram ambos os Álvares condecorados com a Ordem do Tesouro Sagrado, Raios de Ouro com Roseta, condecoração atribuída pelo imperador a quem contribui para a promoção da relação entre o Japão e outros países.
Manuela nasceu em 1945, em São João da Madeira. E foi quando estudava em Coimbra para a licenciatura em Filologia Clássica que conheceu José, que era aluno de História, um goês, nascido em Pangim em 1939, por quem se enamorou. José preparava-se para ser leitor de português numa universidade espanhola, quando surgiu a oportunidade de irem para o Japão. Foi uma decisão tomada a dois, pois os namorados casaram antes de partirem em 1969. Manuela tinha ainda 23 anos quando chegou a Tóquio e muita curiosidade sobre o país.
Ao mesmo tempo que iam estudando o japonês eles próprios, começaram por trabalhar para o Instituto de Língua e Cultura Portuguesas (ICALP), do Ministério da Educação, com Manuela a ser durante professora na Universidade Sofia e na Universidade Waseda e José na Universidade de Tóquio e na Universidade de Línguas Estrangeiras. Com a extinção do ICALP, os empregadores passaram a ser entidades do governo japonês, como o Ministério da Educação e o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Em 1987, fundaram o Centro Cultural Português, uma escola privada. Manuela elaborou os manuais para os alunos japoneses.
Têm uma filha que cresceu no Japão até chegar à idade adulta e escolher estudar em Portugal, onde se tornou professora universitária. O regresso de Manuela e de José foi sendo preparado e quando finalmente aconteceu, foi um momento muito emocional. Numa conversa que tivemos em tempos em Lisboa, Manuela mostrou, pedindo apenas para não revelar o nome, a carta de despedida de uma aluna japonesa que muito a comoveu: “Querida professora, desde quando ouvi a notícia da sua partida eu tentei tantas vezes escrever uma carta para si. Mas não consegui, porque me senti vaga como se fosse um deserto sem forma nem horizonte, onde não podia achar nenhuma palavra. Afinal, no último momento, vou tentar outra vez, para fazer uma promessa de reencontro e dizer obrigada por todos estes anos. A senhora não pode imaginar como enriqueceu a minha vida, como uma professora perfeita, dama encantadora e amiga sincera.”
Manuela e José são certamente dos portugueses que mais sabem do Japão e dos japoneses, um povo cuja língua e cultura os fascinou. Durante quase meio século foram uma espécie de embaixadores de Portugal no Japão, sempre dispostos a ajudar os nossos diplomatas em Tóquio. Em 2022, lançaram em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, um livro conjunto, com o título “Novos Ensaios Luso-Nipónicos”.
* Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’.





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